quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O tempo (VI)


Os intervalos, nos quais nada sucede, causam tédio. Ou apresentam-se como uma ameaça, uma vez que onde nada sucede, onde a intencionalidade se reduz a nada, está a morte. Deste modo, o tempo de pontos sente o impulso de suprimir ou encurtar os intervalos vazios. Para evitar que se demorem demasiado, tenta-se que as sensações se sucedam cada vez mais depressa. Produz-se uma aceleração cada vez mais histérica da sucessão de acontecimentos ou fragmentos, que se estende a todos os âmbitos da vida. A falta de tensão narrativa faz com que o tempo atomizado não possa manter a atenção de maneira duradoura. O que faz com que a percepção se abasteça constantemente de novidades e radicalismos. O tempo de pontos não permite qualquer demora contemplativa. O tempo atomizado é um tempo descontínuo. Nada liga os acontecimentos entre si gerando uma relação - quer dizer, uma duração. (...) Na actualidade, desmoronam-se cada vez mais as estruturas sociais que anteriormente proporcionavam continuidade e duração. A atomização e o isolamento estendem-se a toda a sociedade. As práticas sociais como a promessa, a fidelidade ou o compromisso - todas elas práticas temporais que criam um laço com o futuro e limitam um horizonte, que criam uma duração - perdem importância. (...) O tempo é composto por um encadeamento particular de acontecimentos. A narrativa dá aroma ao tempo. O tempo de pontos, em compensação, é um tempo sem aroma. O tempo começa a ter aroma quando adquire uma duração, quando ganha uma tensão narrativa ou uma tensão profunda, quando ganha em profundidade e amplitude, em espaço. O tempo perde o aroma quando se despoja de qualquer estrutura de sentido, de profundidade, quando se atomiza ou aplana, se enfraquece ou se abrevia. Se se desprender totalmente da ancoragem que o sustenta e o guia, ei-lo abandonado. Quando perde o seu suporte, precipita-se. A aceleração da qual tanto se fala hoje em dia não é um processo primário que acaba por comportar diferentes mudanças no mundo da vida, mas um sintoma, um processo secundário - quer dizer, uma consequência de um tempo que ficou insustentado, atomizado, sem qualquer tipo de gravitação que o reja. O tempo precipita-se, apinha-se para equilibrar uma falta de Ser essencial, mas sem o conseguir, porque a aceleração por si mesma não proporciona sustentação alguma. Faz apenas com que a falta de Ser se torne até mais penetrante.

Byung-Chul Han, O aroma do tempo, Relógio D'Água, pp.31-32


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