
[o
Cristianismo na Europa]
Não
podemos desistir de anunciar o Evangelho. No mundo
greco-romano, a iniciativa de alguns
judeus de partirem à conquista, para o cristianismo, do grande mundo
greco-romano erudito e inteligente também pareceu uma ideia totalmente absurda.
Haverá sempre grandes insucessos.
Não sabemos como a Europa irá evoluir, em
que medida é que ainda será Europa no caso das histórias de outros povos lhe
darem uma nova estrutura. Independentemente
de qualquer cálculo de percentagem de sucesso, é absolutamente necessário
anunciar essa outra Palavra que tem em si a força para construir o futuro, dar
um sentido à vida das pessoas e ensiná-las a viver. Os Apóstolos não podiam fazer nenhum
estudo sociológico para saber se resultaria ou não. Tinham de confiar na força
interior dessa Palavra. No
início, as pessoas que aderiram eram muito poucas e insignificantes, mas depois
foram crescendo. É evidente que a
Palavra do Evangelho pode desaparecer de alguns continentes. Vemos bem que as
primeiras regiões cristãs – a Ásia Menor e o Norte de África – já não são
cristãs. Pode também desaparecer de espaços onde a sua presença era forte. Mas
nunca pode deixar de ser dita e nunca pode deixar de ser importante.
pp.230/231
É
notório que já não somos coincidentes com a cultura moderna.
A configuração fundamental cristã já
não é determinante. Hoje em
dia vivemos numa cultura positivista e agnóstica, que se tem mostrado
progressivamente mais intolerante em relação ao cristianismo, o que fará com
que a sociedade ocidental – pelo menos na Europa – não seja, assim sem mais,
uma sociedade cristã. Os
crentes terão de esforçar ainda mais por continuarem a moldar e serem
portadores da reflexão sobre os valores e a vida. Importante será uma
religiosidade mais decidida por parte de cada uma das comunidades e das igrejas
locais. A responsabilidade torna-se
maior.
pp.261/262
Diria
que sou um Papa do período entre essas duas eras [uma era passada e uma
nova era]. Já não pertenço ao mundo antigo, mas o novo também ainda não
chegou verdadeiramente.
p.262
[sobre a encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI, conhecida
como «encíclica contra a pílula»]
A
Humane Vitae foi para mim, nas
circunstâncias de então e no quadro do pensamento teológico em que me situava um
texto difícil (…) nós, eu incluído, não considerávamos o tipo de argumentação
satisfatório. Eu procurava
uma visão antropológica mais abrangente.
p.186
Peter
Seewald: Qual
considera ser o seu ponto fraco?
Bento
XVI: Talvez a governação resoluta e clara, bem como as decisões que têm de ser
tomadas não sejam o meu forte. Neste aspecto sou de facto mais professor, alguém que
pondera e reflecte sobre os assuntos espirituais. A direcção prática não é bem a minha qualidade, o que é, diria eu,
uma certa fraqueza.
p.266
Cada
qual tem o seu carisma. Francisco é um homem da reforma prática. Foi durante muito tempo
arcebispo, conhece o ofício, antes tinha sido superior dos Jesuítas e tem
designadamente coragem para as questões
de carácter organizacional. Eu sabia
que não era o meu ponto forte, e também não era necessário porque tinha
havido a reforma da Cúria levada a cabo por João Paulo II.
p.222
Talvez
eu tenha pensado e escrito demais, é possível. Mas dizer que
fiz apenas isso também não corresponderia à verdade.
p.223
Na posição de cardeal
da Congregação para a Doutrina da Fé,
fica-se a saber de tantas situações, já que ali vão parar todos os escândalos. É preciso ter uma alma forte para poder suportar tudo isso.
É sabido que há sujidade na Igreja, mas aquilo que se tem de digerir como chefe
da Congregação para a Doutrina da Fé é imenso.
p.229
Contudo, no geral, [o Pontificado] foi um tempo em que muitas pessoas despertaram de novo para a fé
e houve uma enorme movimentação positiva.
p.267
Bento XVI, in Bento XVI. Conversas finais com Peter Seewald, D. Quixote, 2017.
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