terça-feira, 21 de março de 2017

As "últimas conversas" de Bento XVI

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[A Igreja (alemã) e o Terceiro Reich]:

Conhecemos uma época em que o «novo Reich», o mito alemão, o alemanismo é que era, e o cristianismo, em especial o católico, era algo desprezível por ser romano e judaico (...) Nós conhecemos a Igreja em apuros (não quero dizer perseguida) e como um lugar de resistência (...) É certo que não houve [da parte da Igreja alemã] uma oposição fortemente ativa nem atos revolucionários. (...) É verdade que por vezes também o meu pai protestava por o cardeal Faulhaber não se opor mais claramente aos nazis; mesmo assim, ele testemunhou contra eles. (...) O meu pai também achava que os bispos deviam ter sido mais claros. Tudo bem, havia temperamentos diferentes, mas nunca tivemos a sensação de que a Igreja estivesse a colaborar. Só por si, o livro programático Der Mythos des 20. Jahrhunderts [O mito do século XX, de Alfred Rosenberg], veiculador da base ideológica, que era absolutamente anticristã, deixava antever a incompatibilidade.

pp.98-100


[Sobre a "mania da reverência" em certos meios eclesiásticos]

No quadro de uma visão moderna, não só tomámos consciência de que a mania da reverência estava errada e de que o sacerdote é sempre um servo, mas também trabalhámos interiormente e de forma intensa essa consciência, para nem sequer subirmos a esse elevado palanque. Eu nem me atreveria a apresentar-me como «reverendo». Ter consciência de que não somos senhores, mas servos foi para mim não só consolador, mas também pessoalmente importante inclusive para me poder ordenar. Para mim, essa frase [o lema «não somos donos da vossa fé mas servidores da vossa alegria", escolhido para a missa nova de Ratzinger] foi por conseguinte um motivo central. Um motivo que encontrei nos textos das Leituras, na leitura pessoal da Sagrada Escritura, nos mais diversos textos, e no qual me revia especialmente.

p.113


[Como se posiciona/enquadra Ratzinger]

Nós éramos progressistas. Queríamos renovar por completo a teologia e, com ela, também reestruturar a Igreja e torná-la mais viva. Estávamos, portanto, felizes por vivermos numa época em que se abriam novos horizontes e novos caminhos a partir do movimento de jovens e do movimento litúrgico. Queríamos avançar com a Igreja, e estávamos convencidos precisamente de que assim ela rejuvenesceria. Nós todos sentíamos um certo desprezo pelo século XIX, estava na moda na altura sentir isso. Por outras palavras, sentíamos desprezo pelo novo gótico e por aquelas figuras de santos um tanto kitsch, bem como pela religiosidade rígida e um tanto kitsch, e pelo sentimentalismo excessivo. Queríamos deixar tudo isso para trás, dando início a uma nova fase de religiosidade que, voltando às origens, se moldasse justamente a partir da liturgia e das suas sobriedade e grandeza, sendo por isso outra vez nova e moderna (pp.103/104). 
Naquele tempo, ser progressista não significava ainda abandonar a fé, mas sim aprender a compreendê-la melhor e a vivê-la mais correctamente a partir das origens. Na altura eu ainda achava que era isso que todos queríamos. O mesmo pensavam progressistas famosos como Lubac e Daniélou, etc. (p.156)


[sobre a necessidade de derrota, da aprendizagem com esta, da dificuldade de aprovação da dissertação e da angústia por ter estado, então, no limiar de ver chumbada essa prova]

Bem, doutorei-me muito rapidamente. Se tivesse conseguido logo de seguida a habilitação sem problemas, a consciência de ser capaz seria demasiado forte e a autoconfiança teria meio caminho andado. Assim, por uma vez, fui apoucado. Faz-nos bem de vez em quando reconhecer toda a nossa miséria e não nos apresentarmos como grandes heróis, mas sim como pequenos candidatos que estão à beira do abismo e têm de se habituar à ideia e ver o que irão fazer. Consequentemente, a lógica era que eu precisava de uma humilhação e que de certa forma fui justamente - neste sentido, justamente - humilhado (...) Isso [o sucesso académico subir à cabeça] não, mas, mesmo assim, precisamos de humilhações. Creio que atingir facilmente objectivo atrás de objectivo e ser louvado em tudo é perigoso para um jovem. É bom que ele aprenda a conhecer as suas limitações; não vá simplesmente de vitória em vitória, mas experimente também as derrotas. O ser humano precisa disso para aprender a avaliar-se correctamente; para aprender a suportar e, por último, mas não menos importante, para pensar nos outros. Ou seja, não fazer juízos rápidos e sobranceiros, mas também aceitar, positivamente, o outro nas suas tribulações e com as suas fraquezas.

pp.119/120

[sobre a política]

Nunca tentei fazer política; porém, pessoalmente, sempre tive um enorme interesse pela política e pela filosofia que lhe está subjacente. Sim, porque ela vive de uma filosofia. Ela não pode ser meramente pragmática, no sentido de «vamos fazer alguma coisa». Ela tem de ter uma visão do todo. Isso impressionou-me sempre muito (...) Hoje como ontem, sou um apoiante convicto de Adenauer.

pp.142-143

Bento XVI, em Bento XVI. Conversas finais com Peter Seewald, D.Quixote, Lisboa, 2017


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