Sobre o seu sucessor, Bento XVI afirma, na entrevista a Peter Seewald, Conversas Finais, que se trata de "uma lufada de ar fresco na Igreja, uma nova alegria, um novo carisma com o qual as pessoas se identificam; de facto, é algo bonito" (p.60). A quando da sua eleição, Bento XVI ficou surpreendido ("foi por isso uma enorme surpresa para mim", p.54). Não que tivesse um nome na cabeça, mas um perfil ("não alguém em concreto, mas uma pessoa diferente, sim (...) não pensei que ele fosse um dos candidatos pré-seleccionados", p.55); ainda que o nome de Jorge Mario Bergoglio tivesse surgido com força no conclave que elegeu Ratzinger, a partir daí não mais tinha aparecido e o Papa Emérito não estava a pensar no argentino para Papa ("mas depois a sua forma, por um lado, de rezar e, por outro, de falar ao coração das pessoas acendeu imediatamente a centelha", p.54). Conhecia-o das visitas ad limina, tinha-o como um homem resoluto da argentina ("alguém que, na Argentina, de um modo bastante resoluto, afirmava: 'Isto faz-se e isto não se faz». Não conhecia a sua faceta afectuosa, de dedicação muito pessoal às pessoas", p.55), mas encontrou, agora, um afecto, um apego às pessoas, um calor que desconhecia.
Francisco não consulta Bento XVI constantemente. Mas envia-lhe documentos - como exortações apostólicas - com especial reverência e simpatia. Sobre a Evangelii Gaudium: "Não é um texto pequeno, mas é bonito. Foi escrito de uma forma que nos prende. Certamente nem tudo é dele, mas contém muita informação pessoal" (p.59). Ou seja, Francisco "é certamente também um Papa da reflexão. Ao ler a exortação apostólica Evangelii Gaudium ou ainda as entrevistas, constato que é uma pessoa meditativa, alguém que trabalha intelectualmente as questões modernas" (p.57). Em todo o caso, Bento XVI acha "bem que que ele [Francisco] estabeleça um contacto tão direto com as pessoas, Pergunto-me naturalmente, quanto tempo é que ele irá aguentar, porque duzentos ou mais apertos de mão, e por aí adiante, todas as quartas-feiras, exige muita-força" (p.58) Vindo da Argentina, o Papa Francisco é também italiano, símbolo de uma união entre o antigo e o novo, no mundo católico que assim bebe uma inspiração tão necessária:
"Significa que a Igreja se mexe, é dinâmica e aberta e nela estão em curso novos desenvolvimentos. Significa que ela não ficou cristalizada num qualquer modelo. Antes pelo contrário, há sempre qualquer coisa de surpreendente a acontecer, ela tem uma dinâmica que a pode renovar constantemente. Admirável e encorajador é o facto de precisamente também no nosso tempo acontecerem coisas de que não estávamos à espera e que mostram que a Igreja está viva e cheia de novas possibilidades. Por outro lado, era de esperar que a América do Sul tivesse um papel importante. É o maior continente católico e, ao mesmo tempo, o mais sofredor e o mais problemático. Possui de facto grandes bispos e, apesar de todo o sofrimento e todos os problemas, também conta com uma Igreja muito dinâmica. Nessa medida, de alguma forma, era também a hora da América do Sul, sendo que o novo Papa é simultaneamente interior entre o antigo e o novo mundo, bem como a unidade interior da História (...) É evidente que a Europa já não é o centro da Igreja Universal. Pelo contrário, a Igreja surge agora verdadeiramente na sua universalidade, tendo o mesmo peso em todos os continentes. A Europa mantém a sua responsabilidade, as suas tarefas específicas. A fé na Europa tem-se enfraquecido de tal maneira que isso, só por si, faz com que apenas de forma limitada ela consiga ser a verdadeira força impulsionadora da Igreja Universal e da fé na Igreja. E vemos também que, através de novos elementos (por exemplo africanos, sul-americanos ou filipinos), há uma nova dinâmica que entra na Igreja e renova um pouco o Ocidente cansado, volta a dinamizá-lo, desperta-o mais uma vez do cansaço, do esquecimento da sua fé. Quando penso designadamente na Alemanha, lembro-me de que aí há certamente uma fé viva e um profundo empenho em Deus e nas pessoas. Contudo, por outro lado, temos o poder das burocracias, que está presente, a teorização da fé, a politização e a falta de uma dinâmica viva, que ainda por cima, sob o peso das estruturas, muitas vezes parece ser quase esmagada, pelo que a valorização de outros pesos na Igreja Universal e a nova evangelização da Europa a partir do exterior são encorajadoras. (...) Não é apenas a Igreja, no seu todo, que influencia a igreja local. Segundo São Paulo, a doença de um qualquer membro afecta todos. O empobrecimento da fé na Europa, por exemplo, é também uma doença para os outros continentes" (pp.56-57 e 60)
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