
3.Encontro,
por acaso, o Domingos que, em recusando usar telemóvel, email ou qualquer
dispositivo que o torne mais acessível,
e em lhe perguntando se não sente necessidade de falar com ex-colegas, amigos,
conhecidos responde-me que “a solidão é a melhor coisa que há!”. E repete - “a
solidão é a melhor coisa que há”. Talvez, de um modo tão franco e tão brutal,
raramente, ou nunca, tenha escutado, de viva voz, semelhante recusa de um
contacto. Embora não fosse a primeira vez que ouvia uma pessoa assumir como
desiderato de uma jubilação – tão antecipada quanto possível – uma fuga mundi, o deixar isto e ir viver
sozinho para a montanha, não apenas um desabafo, mas uma convicção, um
projecto, fazendo da auto-suficiência, e da prova de conseguir viver sem os
outros (vou demonstrar que não preciso
dos outros para permanecer), uma mostra de músculo e de um estoicismo que
continha, igualmente, em potência, e aqui talvez Houellebecq não tenha
considerado a perspectiva, uma (forte) crítica à sociedade em que se investe (e
não conterá, sempre, qualquer fuga mundi
esse protesto, ou pelo menos, uma desadaptação que encerra um desgosto com o
estado da arte do mundo?).
Em
realidade, quando os neo-humanos -
que Houellebecq forja para o quarto milénio – surgem assiste-se ao “desaparecimento do riso e das lágrimas”
(p.53); estes clones dos humanos – através da preservação do ADN daqueles – não compreendem, já, a emoção religiosa,
nem a caça, nem o êxtase místico dos seus antecessores (p.38); eles são “puramente
racionais” [de uma racionalidade instrumental], sem sentimentos ou emoções, sem
arrebatos, isolados, sem formarem uma comunidade. Esta recusa do outro, o amor como constrangimento, a relação
como algo a superar, e a formulação de um mundo povoado por átomos,
conta-se entre as mais incisivas páginas/reflexões (desta obra) sobre os
limites do paroxismo que já a sociedade que Daniel, o humorista que escreve uma
auto-biografia lida pelo seu sucessor neo-humano
(um novo humano, um humano de
tipo diferente, uma coisa outra que não o humano como o conhecemos), habitara
trazia incubado. Daniel – em certo sentido, como que assumindo-se como o louco nietzscheano capaz de dizer a
verdade por revelar e, ao mesmo tempo, como o profeta [Daniel] que golpeia a
sua sociedade: “sou cínico, amargo, só
posso ter interesse para pessoas algo predispostas à dúvida, pessoas que
começam a viver num ambiente de fim de festa” (pp.32-33) reconhece que a
certa altura da sua vida “já não tinha
amigos” (p.56), até porque “a partir
de certa idade, entre dois homens
inteligentes, já tudo foi dito” (p.76). E, embora vivendo com Isabelle, “não tínhamos ninguém com quem partilhar a
casa, nem um copo de vinho” (p.56).
Depois
de, para surpresa do próprio, ter sido surpreendido pelo amor, quando, anos
mais tarde, descobre Esther, como que sucumbe a um abismo de gerações – Esther,
muito mais nova, terá múltiplos relacionamentos, e desprezará a concepção e sua
materialização de ficar para sempre
com Daniel - que é, em realidade, bem mais do que isso, um salto, um mergulho qualitativo para um
humano a caminho de neo: em
percebendo que o seu quadro mental de apego a uma pessoa (a uma mulher), em que
a sexualidade não estava desligada e jamais dispensava o afecto (“sempre necessitara de afecto para me sentir
sexualmente feliz”, p.182; o sexo pelo sexo não chegava), se tornara uma tonteria para a gente mais nova – um retrato
corrosivo e certeiro de uma determinada cultura que perpassou/perpassa, de
facto, uma parte da juventude nas últimas décadas; mas não a vejo como a cultura; sem contemplações, Daniel
constata, a partir do masculino, a ironia das coisas: “o projeto milenar masculino de despir o amor de qualquer conotação
afectiva, tinha agora a sua concretização” (p.277) -, assume a sua ingenuidade – paradoxo maior, de quem se
afirma como uma espécie de super-homem
sem nenhuma ilusão, acerca do universo, dos humanos e de si próprio, mas como
que a dizer que isto é ainda mais negro,
mais sombrio do que o narrador julgava e, portanto, convocando, claramente, uma
dimensão moralista ao seu olhar – e discorre: as novas gerações recusavam o amor, a paixão, o sentimento de
exclusividade, de dependência (p.277); “deambulei entre eles como uma espécie de monstro pré-histórico
com as minhas imbecilidades românticas, os meus apegos, as minhas ligações”
(p.277); “quanto ao amor, não havia nada
a esperar: eu era sem dúvida um dos últimos homens da minha geração a amar-me
suficientemente pouco para ser capaz de amar outra pessoa, embora
raramente” (p.344) Ora, “para
esta geração a sexualidade não passava de um divertimento agradável” [sem
vínculos outros a ela associados]. Que “não
implicava nenhum compromisso sentimental especial” (p.277). Com uma crueza, uma ironia corrosivas e
uma sofisticação cortantes, Houellebecq, ou Daniel, oferecem-nos a nova
mundividência em que o sonho – na verdade, a distopia – é igualar a ausência de
vínculos, de relações, de apego, de ligação a liberdade, a ser (-se) livre
[ausência de vínculos é = a liberdade]. A captação do momentum sociológico adquire uma pertinência que cremos incontornável:
“o amor nunca fora com certeza mais,
como a compaixão para Nietzsche, do que uma ficção inventada pelos fracos para
culpabilizar os fortes, para introduzir limitações à sua liberdade e à sua
ferocidade naturais” (p.277); os humanos “haviam conseguido, após décadas de condicionamento e esforço, haviam
finalmente conseguido extirpar dos seus corações um dos mais velhos sentimentos
humanos” (p.277): “em nenhum
momento da vida conheceriam o amor. Eram livres” (p.277). Era, assim,
muito pouco provável que a nova espécie fosse uma “espécie sociável” (p.343): “a
sociabilidade passara de moda, desempenhara o seu papel histórico”, mas
“reduzira-se hoje a um vestígio
inútil e incomodativo” (p.343). Em suma, “hoje em dia, que tudo se extinguiu, todas as tribos se dispersaram,
encontramo-nos isolados mas semelhantes, e perdemos a vontade de nos unirmos”
(p.118).
4.Se
não estamos prometidos ao amor, se a relação não é, já, o alfa e o ómega da
existência, se não queremos, de modo algum, estar juntos, se não queremos saber
do outro, que coisa é essa a vida? Que sabor tem (se é que algum possui), que
sentido lhe descortinamos? E, numa palavra, o que é (nestas circunstâncias) ser
humano?
Somos
apenas biologia, na desencantada cosmovisão de Daniel: “um belo arranjo de partículas, uma superfície lisa, sem
individualidade” (p.275); um
animal amoral à procura do seu pedaço de prazer (p.276); “considero-os [aos humanos] mais
inteligentes do que os macacos e, por isso mesmo, mais perigosos” (p.24); o
homo homini lupus: “de dois animais egoístas e racionais, o
mais egoísta e o mais racional dos dois acabara por sobreviver, como acontecia
sempre entre os humanos” (p.392) “acontece-me
abrir as grades para socorrer um coelho, ou um cão vadio; nunca para socorrer
um homem” (p.24); “por eles, não
experimento nenhum dó, nem nenhum sentimento de pertença comum” (p.24); “odiava a humanidade” (p.341); “assisto sem um lamento ao
desaparecimento da espécie” (p.24). A questão da individualidade
coloca-se, aliás, ainda com maior acuidade, relativamente aos neo-humanos (clones), já que,
porventura, pode sopesar-se – indagação cada vez mais colocada em tempos de
Inteligência Artificial e fusão desta com o humano - que sejam “ficções resultantes de softwares”
(p.280), “seres incompletos, seres de
transição cujo destino residia em preparar o advento de um futuro numérico”
(p.185). Sem emoções, sem riso e sem
choro, sem amor e sem apego, o novo-humano, levado às últimas consequências, aperfeiçoado – diríamos no grotesco que
o livro consegue mostrar – seria (será?) um número. Repare-se que não
só há sentimentos que se tornam incompreensíveis para a nova humanidade (e as primeiras gerações de neo-humanos surgem no
século XXIV) – “estes dois
sentimentos, a crueldade e a compaixão, não têm obviamente muito sentido nas
condições de absoluta solidão em que se desenvolvem as nossas vidas”
(p.54) -, como, suplementarmente, “nada
sobrara das produções literárias e artísticas da humanidade, porque os temas
que lhe estavam na origem tinham perdido pertinência e o seu poder de emoção
evaporara-se” (p.370) e “nada
sobrara dos sistemas filosóficos e teológicos pelos quais os homens haviam
batido, morrido e matado mais vezes ainda” (p.370). A única coisa de
útil – e revelador de grande engenho, a inteligência como única qualidade e
reduzida esta ao cálculo, da humanidade – que ficara haviam sido os elementos
de tipo tecnológico (p.370) (o que manifestamente combina com um humano
autómato, maquinal, frio, além de fazer coro com o deslumbramento e
endeusamento do tecnológico, dos nossos dias). Desde os humanos – ainda antes
dos neo-humanos – inaugurara-se “uma tradição de desenvoltura em relação
aos dados científicos que viria a conduzir ao aniquilamento da filosofia”
(p.338). Neste quadro, neste entendimento acerca do Homem, neste apreender do
estádio civilizacional em que nos encontramos, neste posicionamento face à vida
e o mundo, “que fazer, então? (…) Viver?
É exactamente neste género de situações que, esmagados pelo sentimento da sua
própria insignificância, as pessoas se decidem a ter filhos” (p.56); “o único projecto da humanidade consiste em
se reproduzir, em prolongar a espécie” (p.220). Mesmo sendo como é óbvio insignificante, a humanidade persegue-o
[ao objectivo de prolongar a espécie] com
um encarniçamento aterrador. Mesmo sendo infelizes, atrozmente infelizes, os
homens opõem-se com todas as suas forças, a tudo o que possa alterar o seu
destino; querem ter filhos, e filhos semelhantes a eles a eles, a fim de
escavarem a sua própria sepultura e de perpetuarem as condições da desgraça”
[neste caso, a afirmação do profeta da religião dos Eloimitas, aquela que irá
prosperar, na narrativa de Daniel, e já veremos porquê] (p.220); “o ciúme e a vontade de procriar têm a mesma
origem que é a dor de ser. É a dor de ser que nos leva a procurar o outro, como
um paliativo [o outro serve para "eu" consumir]; temos de ultrapassar esta fase a fim de atingir o estado em que o
simples facto de ser constitui em si mesmo um permanente motivo de alegria; em
que a intermediação passa a ser apenas um jogo, livremente aceite, não
constitutivo do ser. Numa palavra, devemos alcançar a liberdade da
indiferença, condição de possibilidade da serenidade perfeita”
[repare-se como de uma mundividência assente na perspectiva de uma existência
em favor de uma promoção dos mais frágeis para a qual/os quais há que
trabalhar, interceder, transformar, se passa para uma outra em que a indiferença
passa a ser condição da serenidade perfeita, não admirando, neste contexto, o
que o autor escrevera sobre a queda de uma dada religião e suas consequências –
referindo-se, naturalmente, ao cristianismo na Europa – e na emergência de
filosofias orientais no Ocidente]. Houellebecq cita Henri de Régnier: “viver avilta” (p.49).
O
prazer sexual “era superior a todos os outros prazeres, em
requinte e violência; era o único prazer, o único objectivo da existência
humana” (p.320); uma
existência contínua devotada aos prazeres “era este o sentido do movimento da
história, era esta a sua direcção a longo prazo, que não se limitaria ao Ocidente”
(p.343) Mas nem o prazer sexual escapará ao impulso narcísico; este, o
fechamento absoluto da possibilidade da relação, conduzirá, afinal, para
utilizarmos os termos de Chu-Han, à agonia de Eros: “há um breve período
ideal, durante a dissolução das sociedades de forte moral religiosa, em que os
jovens sentem verdadeiramente vontade de uma vida livre, desregrada, alegre;
depois cansam-se, a competição narcísica vai-se sobrepondo aos poucos e, por
fim, têm ainda menos relações sexuais do que no tempo de forte moral religiosa”
[de aí que me pareça que o tempo de Bacantes,
a que se referia Steiner, se tenha esgotado um tanto e aquele confronto
geracional, acima descrito, ou salto qualitativo no que é o humano, se tenha
que mitigar e, por isso, a meu ver, não é a
cultura].
Em
todo o caso, a perspectiva de que o sexo, (e) a perpetuação da espécie são os
únicos desideratos da existência aponta bem ao deserto real, á ausência de
bússola porque o humano passa (a ocidente, mas, na visão de Houellebecq, nesta
obra, uma tendência universalista), ou, no caso da visão das coisas por parte
de Daniel, à ausência de qualquer arremedo de um (excesso do) dom presente na
vida (ou o dom que a vida constitui, ela mesma). Atente-se na descrição do
último estádio em que os humanos se encontraram antes de darem lugar ao neo-humanos, em rigor, como se percebe,
em quase tudo abrindo caminho para estes – que mais não são do que o estertor,
a consequência última, a ratio destes
últimos dias levada ao limite, a concretização da distopia que vivemos: “consta que os humanos, pelo menos os
humanos do último período, aderiam com grande facilidade a todos os novos
projectos, um pouco independentemente da direção do movimento proposto”
(p.338); “a mudança em si mesma era aos
seus olhos um valor” (p.338). Para quem desconhece o Norte, qualquer
caminho é bom, ou retomando o célebre adágio de Chesterton (formulado aqui
livremente): quem não acredita em nada,
está disposto a acreditar em qualquer coisa.
E,
face à ausência de rumo, para que queremos prolongar a existência? Já paramos
para pensar sobre para que serve a imortalidade, o sonho repetido semanalmente
nos jornais? O que vamos fazer numa vida (terrena) na qual não encontramos
sentido, nem valor? Manter indefinidamente os prazeres, reproduzirmo-nos até a
pedra de Sísifo nos tornar louco esse trabalho que nos impusemos, ou do mito
retiramos que justamente, in casu, humano é a cada prazer um outro se suceder,
sem nunca nos aborrecermos com prazer algum que antecede o próximo, numa lógica
de perpetuação que, em todo o caso, diferentes ensaístas e romancistas, entre
os quais Saramago, acreditavam, ainda que com humor, que não iam acabar bem?
(continua)
Sem comentários:
Enviar um comentário