sexta-feira, 10 de março de 2017

Cínico, mas também lúcido - um grande livro de Michel Houellebecq (II)


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3.Encontro, por acaso, o Domingos que, em recusando usar telemóvel, email ou qualquer dispositivo que o torne mais acessível, e em lhe perguntando se não sente necessidade de falar com ex-colegas, amigos, conhecidos responde-me que “a solidão é a melhor coisa que há!”. E repete - “a solidão é a melhor coisa que há”. Talvez, de um modo tão franco e tão brutal, raramente, ou nunca, tenha escutado, de viva voz, semelhante recusa de um contacto. Embora não fosse a primeira vez que ouvia uma pessoa assumir como desiderato de uma jubilação – tão antecipada quanto possível – uma fuga mundi, o deixar isto e ir viver sozinho para a montanha, não apenas um desabafo, mas uma convicção, um projecto, fazendo da auto-suficiência, e da prova de conseguir viver sem os outros (vou demonstrar que não preciso dos outros para permanecer), uma mostra de músculo e de um estoicismo que continha, igualmente, em potência, e aqui talvez Houellebecq não tenha considerado a perspectiva, uma (forte) crítica à sociedade em que se investe (e não conterá, sempre, qualquer fuga mundi esse protesto, ou pelo menos, uma desadaptação que encerra um desgosto com o estado da arte do mundo?).
Em realidade, quando os neo-humanos - que Houellebecq forja para o quarto milénio – surgem assiste-se ao “desaparecimento do riso e das lágrimas” (p.53); estes clones dos humanos – através da preservação do ADN daqueles – não compreendem, já, a emoção religiosa, nem a caça, nem o êxtase místico dos seus antecessores (p.38); eles são “puramente racionais” [de uma racionalidade instrumental], sem sentimentos ou emoções, sem arrebatos, isolados, sem formarem uma comunidade. Esta recusa do outro, o amor como constrangimento, a relação como algo a superar, e a formulação de um mundo povoado por átomos, conta-se entre as mais incisivas páginas/reflexões (desta obra) sobre os limites do paroxismo que já a sociedade que Daniel, o humorista que escreve uma auto-biografia lida pelo seu sucessor neo-humano (um novo humano, um humano de tipo diferente, uma coisa outra que não o humano como o conhecemos), habitara trazia incubado. Daniel – em certo sentido, como que assumindo-se como o louco nietzscheano capaz de dizer a verdade por revelar e, ao mesmo tempo, como o profeta [Daniel] que golpeia a sua sociedade: “sou cínico, amargo, só posso ter interesse para pessoas algo predispostas à dúvida, pessoas que começam a viver num ambiente de fim de festa” (pp.32-33) reconhece que a certa altura da sua vida “já não tinha amigos” (p.56), até porque “a partir de certa idade, entre dois homens inteligentes, já tudo foi dito” (p.76). E, embora vivendo com Isabelle, “não tínhamos ninguém com quem partilhar a casa, nem um copo de vinho” (p.56).
Depois de, para surpresa do próprio, ter sido surpreendido pelo amor, quando, anos mais tarde, descobre Esther, como que sucumbe a um abismo de gerações – Esther, muito mais nova, terá múltiplos relacionamentos, e desprezará a concepção e sua materialização de ficar para sempre com Daniel - que é, em realidade, bem mais do que isso, um salto, um mergulho qualitativo para um humano a caminho de neo: em percebendo que o seu quadro mental de apego a uma pessoa (a uma mulher), em que a sexualidade não estava desligada e jamais dispensava o afecto (“sempre necessitara de afecto para me sentir sexualmente feliz”, p.182; o sexo pelo sexo não chegava), se tornara uma tonteria para a gente mais nova – um retrato corrosivo e certeiro de uma determinada cultura que perpassou/perpassa, de facto, uma parte da juventude nas últimas décadas; mas não a vejo como a cultura; sem contemplações, Daniel constata, a partir do masculino, a ironia das coisas: “o projeto milenar masculino de despir o amor de qualquer conotação afectiva, tinha agora a sua concretização” (p.277) -, assume a sua ingenuidade – paradoxo maior, de quem se afirma como uma espécie de super-homem sem nenhuma ilusão, acerca do universo, dos humanos e de si próprio, mas como que a dizer que isto é ainda mais negro, mais sombrio do que o narrador julgava e, portanto, convocando, claramente, uma dimensão moralista ao seu olhar – e discorre: as novas gerações recusavam o amor, a paixão, o sentimento de exclusividade, de dependência (p.277); “deambulei entre eles como uma espécie de monstro pré-histórico com as minhas imbecilidades românticas, os meus apegos, as minhas ligações” (p.277); “quanto ao amor, não havia nada a esperar: eu era sem dúvida um dos últimos homens da minha geração a amar-me suficientemente pouco para ser capaz de amar outra pessoa, embora raramente” (p.344) Ora, “para esta geração a sexualidade não passava de um divertimento agradável” [sem vínculos outros a ela associados]. Que “não implicava nenhum compromisso sentimental especial” (p.277). Com uma crueza, uma ironia corrosivas e uma sofisticação cortantes, Houellebecq, ou Daniel, oferecem-nos a nova mundividência em que o sonho – na verdade, a distopia – é igualar a ausência de vínculos, de relações, de apego, de ligação a liberdade, a ser (-se) livre [ausência de vínculos é = a liberdade]. A captação do momentum sociológico adquire uma pertinência que cremos incontornável: “o amor nunca fora com certeza mais, como a compaixão para Nietzsche, do que uma ficção inventada pelos fracos para culpabilizar os fortes, para introduzir limitações à sua liberdade e à sua ferocidade naturais” (p.277); os humanos “haviam conseguido, após décadas de condicionamento e esforço, haviam finalmente conseguido extirpar dos seus corações um dos mais velhos sentimentos humanos” (p.277): “em nenhum momento da vida conheceriam o amor. Eram livres” (p.277). Era, assim, muito pouco provável que a nova espécie fosse uma “espécie sociável” (p.343): “a sociabilidade passara de moda, desempenhara o seu papel histórico”, mas “reduzira-se hoje a um vestígio inútil e incomodativo” (p.343). Em suma, “hoje em dia, que tudo se extinguiu, todas as tribos se dispersaram, encontramo-nos isolados mas semelhantes, e perdemos a vontade de nos unirmos” (p.118).

4.Se não estamos prometidos ao amor, se a relação não é, já, o alfa e o ómega da existência, se não queremos, de modo algum, estar juntos, se não queremos saber do outro, que coisa é essa a vida? Que sabor tem (se é que algum possui), que sentido lhe descortinamos? E, numa palavra, o que é (nestas circunstâncias) ser humano?
Somos apenas biologia, na desencantada cosmovisão de Daniel: “um belo arranjo de partículas, uma superfície lisa, sem individualidade” (p.275); um animal amoral à procura do seu pedaço de prazer (p.276); “considero-os [aos humanos] mais inteligentes do que os macacos e, por isso mesmo, mais perigosos” (p.24); o homo homini lupus: “de dois animais egoístas e racionais, o mais egoísta e o mais racional dos dois acabara por sobreviver, como acontecia sempre entre os humanos” (p.392) “acontece-me abrir as grades para socorrer um coelho, ou um cão vadio; nunca para socorrer um homem” (p.24); “por eles, não experimento nenhum dó, nem nenhum sentimento de pertença comum” (p.24); “odiava a humanidade” (p.341); “assisto sem um lamento ao desaparecimento da espécie” (p.24). A questão da individualidade coloca-se, aliás, ainda com maior acuidade, relativamente aos neo-humanos (clones), já que, porventura, pode sopesar-se – indagação cada vez mais colocada em tempos de Inteligência Artificial e fusão desta com o humano - que sejam “ficções resultantes de softwares” (p.280), “seres incompletos, seres de transição cujo destino residia em preparar o advento de um futuro numérico” (p.185). Sem emoções, sem riso e sem choro, sem amor e sem apego, o novo-humano, levado às últimas consequências, aperfeiçoado – diríamos no grotesco que o livro consegue mostrar – seria (será?) um número. Repare-se que não só há sentimentos que se tornam incompreensíveis para a nova humanidade (e as primeiras gerações de neo-humanos surgem no século XXIV) – “estes dois sentimentos, a crueldade e a compaixão, não têm obviamente muito sentido nas condições de absoluta solidão em que se desenvolvem as nossas vidas” (p.54) -, como, suplementarmente, “nada sobrara das produções literárias e artísticas da humanidade, porque os temas que lhe estavam na origem tinham perdido pertinência e o seu poder de emoção evaporara-se” (p.370) e “nada sobrara dos sistemas filosóficos e teológicos pelos quais os homens haviam batido, morrido e matado mais vezes ainda” (p.370). A única coisa de útil – e revelador de grande engenho, a inteligência como única qualidade e reduzida esta ao cálculo, da humanidade – que ficara haviam sido os elementos de tipo tecnológico (p.370) (o que manifestamente combina com um humano autómato, maquinal, frio, além de fazer coro com o deslumbramento e endeusamento do tecnológico, dos nossos dias). Desde os humanos – ainda antes dos neo-humanos – inaugurara-se “uma tradição de desenvoltura em relação aos dados científicos que viria a conduzir ao aniquilamento da filosofia” (p.338). Neste quadro, neste entendimento acerca do Homem, neste apreender do estádio civilizacional em que nos encontramos, neste posicionamento face à vida e o mundo, “que fazer, então? (…) Viver? É exactamente neste género de situações que, esmagados pelo sentimento da sua própria insignificância, as pessoas se decidem a ter filhos” (p.56); “o único projecto da humanidade consiste em se reproduzir, em prolongar a espécie” (p.220). Mesmo sendo como é óbvio insignificante, a humanidade persegue-o [ao objectivo de prolongar a espécie] com um encarniçamento aterrador. Mesmo sendo infelizes, atrozmente infelizes, os homens opõem-se com todas as suas forças, a tudo o que possa alterar o seu destino; querem ter filhos, e filhos semelhantes a eles a eles, a fim de escavarem a sua própria sepultura e de perpetuarem as condições da desgraça” [neste caso, a afirmação do profeta da religião dos Eloimitas, aquela que irá prosperar, na narrativa de Daniel, e já veremos porquê] (p.220); “o ciúme e a vontade de procriar têm a mesma origem que é a dor de ser. É a dor de ser que nos leva a procurar o outro, como um paliativo [o outro serve para "eu" consumir]; temos de ultrapassar esta fase a fim de atingir o estado em que o simples facto de ser constitui em si mesmo um permanente motivo de alegria; em que a intermediação passa a ser apenas um jogo, livremente aceite, não constitutivo do ser. Numa palavra, devemos alcançar a liberdade da indiferença, condição de possibilidade da serenidade perfeita” [repare-se como de uma mundividência assente na perspectiva de uma existência em favor de uma promoção dos mais frágeis para a qual/os quais há que trabalhar, interceder, transformar, se passa para uma outra em que a indiferença passa a ser condição da serenidade perfeita, não admirando, neste contexto, o que o autor escrevera sobre a queda de uma dada religião e suas consequências – referindo-se, naturalmente, ao cristianismo na Europa – e na emergência de filosofias orientais no Ocidente]. Houellebecq cita Henri de Régnier: “viver avilta” (p.49).
O prazer sexualera superior a todos os outros prazeres, em requinte e violência; era o único prazer, o único objectivo da existência humana” (p.320); uma existência contínua devotada aos prazeres “era este o sentido do movimento da história, era esta a sua direcção a longo prazo, que não se limitaria ao Ocidente” (p.343) Mas nem o prazer sexual escapará ao impulso narcísico; este, o fechamento absoluto da possibilidade da relação, conduzirá, afinal, para utilizarmos os termos de Chu-Han, à agonia de Eros: “há um breve período ideal, durante a dissolução das sociedades de forte moral religiosa, em que os jovens sentem verdadeiramente vontade de uma vida livre, desregrada, alegre; depois cansam-se, a competição narcísica vai-se sobrepondo aos poucos e, por fim, têm ainda menos relações sexuais do que no tempo de forte moral religiosa” [de aí que me pareça que o tempo de Bacantes, a que se referia Steiner, se tenha esgotado um tanto e aquele confronto geracional, acima descrito, ou salto qualitativo no que é o humano, se tenha que mitigar e, por isso, a meu ver, não é a cultura].
Em todo o caso, a perspectiva de que o sexo, (e) a perpetuação da espécie são os únicos desideratos da existência aponta bem ao deserto real, á ausência de bússola porque o humano passa (a ocidente, mas, na visão de Houellebecq, nesta obra, uma tendência universalista), ou, no caso da visão das coisas por parte de Daniel, à ausência de qualquer arremedo de um (excesso do) dom presente na vida (ou o dom que a vida constitui, ela mesma). Atente-se na descrição do último estádio em que os humanos se encontraram antes de darem lugar ao neo-humanos, em rigor, como se percebe, em quase tudo abrindo caminho para estes – que mais não são do que o estertor, a consequência última, a ratio destes últimos dias levada ao limite, a concretização da distopia que vivemos: “consta que os humanos, pelo menos os humanos do último período, aderiam com grande facilidade a todos os novos projectos, um pouco independentemente da direção do movimento proposto” (p.338); “a mudança em si mesma era aos seus olhos um valor” (p.338). Para quem desconhece o Norte, qualquer caminho é bom, ou retomando o célebre adágio de Chesterton (formulado aqui livremente): quem não acredita em nada, está disposto a acreditar em qualquer coisa.
E, face à ausência de rumo, para que queremos prolongar a existência? Já paramos para pensar sobre para que serve a imortalidade, o sonho repetido semanalmente nos jornais? O que vamos fazer numa vida (terrena) na qual não encontramos sentido, nem valor? Manter indefinidamente os prazeres, reproduzirmo-nos até a pedra de Sísifo nos tornar louco esse trabalho que nos impusemos, ou do mito retiramos que justamente, in casu, humano é a cada prazer um outro se suceder, sem nunca nos aborrecermos com prazer algum que antecede o próximo, numa lógica de perpetuação que, em todo o caso, diferentes ensaístas e romancistas, entre os quais Saramago, acreditavam, ainda que com humor, que não iam acabar bem?

P.S. indicação das páginas a partir da 1ªedição, D.Quixote, 2006 [na tradução de Isabel St.Aubyn]

(continua)

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