quinta-feira, 9 de março de 2017

Cínico, mas também lúcido - um grande livro de Michel Houellebecq

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Sobre A possibilidade de uma ilha, de Michel Houellebecq

1.Principiemos pelo título. Possibilidades múltiplas de o decifrar. No interior do próprio texto (que titula), podemos situá-lo num poema de Daniel a Esther: “Existe no meio do tempo/a possibilidade de uma ilha” (p.352). O que significará, face a um cepticismo radical sobre o humano (“a criança é uma espécie de anão perverso, de uma crueldade inata, no qual se reconhecem imediatamente os piores traços da espécie”, p.56), o mundo (“calvário ininterrupto que é a existência dos homens”, p.57), qualquer sentido (“o ser humano não foi concebido para a felicidade”, p.57); face a um tom ácido, sombrio, corrosivo que o texto comporta (“é triste, o naufrágio de uma civilização, é triste ver soçobrar as mais belas inteligências”, p.285); face, mesmo, e desde logo, a um cinismo brutal do seu autor, Daniel – que chega a adquirir contornos de verdadeiro nihilismo: pense-se, a quando do suicídio do filho, como nada lhe fica na memória, no sentimento, anotando que não gostava do descendente, que este “era tão estúpido como a mãe e tão mau como o pai” e cujo desaparecimento “estava longe de constituir uma catástrofe” (p.26) –, o estranho e surpreendente, a real insuspeita presença de esperança, reconhecimento de que o amor é possível no (seu) tempo (assim se poderá decifrar a frase no poema, ele mesmo uma implausibilidade, “a poesia estava morta” (p.153), a Esther, a quem se surpreende a amar). Mesmo no interior de um mundo mau, de gente egocêntrica e cruel, há, afinal e ainda, uma ilha, o amor (“que o amor incondicional é condição de possibilidade de felicidade, já os humanos o sabiam, pelo menos os mais avançados”, p.66). Para um texto sem concessões, impiedoso, há um sopro de poesia que reluz.
Por outro lado, A possibilidade de uma ilha poderia ser visto como um programa que visa sondar uma estação que fez da anomia social, da recusa da relação, do isolamento, do fragmento marcas registadas. Será que o humano consegue viver sendo uma ilha?, parece perguntar o filósofo/sociólogo/antropólogo que o ficcionista mostra também ser. De outra perspectiva: se, como celebremente John Donne afiançou, “nenhum homem é uma ilha” não estaremos, num estádio em que nos recolhemos/encolhemos para ilhas, perante a morte do humano? Não é essa a lógica subjacente à (ao desenho da) emergência dos neo-humanos – prolongamentos do ADN dos humanos que os precederam, mas diversos destes em “qualidade”, “essência” -, por parte do romancista?
Serão estas duas possibilidades interpretativas inconciliáveis? - poderemos, ainda, perguntar. Será que ao afirmarmos que mesmo num mundo em decomposição o amor é possível – porventura, a sua fonte de regeneração, assuma este carácter de eros, philia ou uma palavra de compaixão – não estamos a contrariar, no seu núcleo, a ideia de morte do humano?
Se olharmos para (a/uma) ilha de modo literal, então vemos que o último neo-humano, em última instância, descobre o mar e este pode, finalmente, significar um horizonte infinito, a possibilidade de utopia, lá onde a “narrativa de vida” (autobiografia de Daniel) parecia inscrever, apenas, um mundo distópico (Leonidas Donskis coloca, em Cegueira moral, não por acaso, e bem, esta obra magistral ao nível, ou na mesma linha de Nos, de Zamyatin, Admirável Mundo Novo, de Huxley ou 1984 de Orwell, embora observe também que Houellebecq diz o que Spengler diz, ainda que de outro modo).
Combinando estas três perspectivas possíveis com vista a intentar interpretar o título deste livro de Michel Houellebecq – e, bem entendido, a própria obra, ela mesma – poderíamos dizer que num “mundo distópico” a verdadeira “utopia” é o amor (a amizade, uma palavra de compaixão),

2.Para Leonidas Donskis “o romance de Houellebecq expõe a morte de Deus de maneira bastante inesperada: Ele morre quando se eliminam os laços humanos e sociais”. Pois bem, a assimilação da “morte de Deus” ao desaparecimento de “laços humanos e sociais”, parece-me, bem mais do que inesperada, congruente: se Deus é amor e se age no mundo através da minha responsabilidade (ética) pelo outro, e se Deus só vai ao Homem através do Homem (e este só sai de si, para o seu semelhante, através de Deus), então a recusa em me responsabilizar, a recusa, mesmo, em querer saber do outro pode, pois, ser lida em chave de recusa do amor (e Deus é amor; e o amor, como Deus, oferece-se sempre, mesmo que não tenha interlocutor; e só no outro, de modo mediado, amamos Deus) e, visto Deus mais como relação/acontecimento do que entidade, como recusa de Deus (para que Deus morresse era preciso que Deus pudesse morrer). Justamente, sem relação, sem amor, o humano coloca-se em causa (destrói-se). “De forma interessante, essa implicação filosófica [a morte de Deus enquanto deslaçamento social] do romance (…) é um retorno a La scienza nouva de Giambattista Vico, trabalho em que a existência de Deus é provada por meio de poderes da comunidade humana e da sociedade civil: sociabilidade, linguagem e sentimentos. Em suma, quando se enfraquecem ou se destroem os alicerces da sociabilidade humana, e a esfera da linguagem e dos sentimentos, entregam-se os seres humanos a Satanás” (Leonidas Donskis, no citado livro A cegueira moral, em co-autoria com Zygmunt Bauman).
O sociólogo fino de A possibilidade de uma ilha, o Daniel (auto) biógrafo nota, como um dos traços do seu tempo – este tempo histórico há muito ultrapassado, quando o lemos pela lente de um neo-humano, no quarto milénio, mas que na verdade coincide com este nosso tempo actual – “a perda do sentido do sagrado” (p.27), acompanhado da “diminuição da alegria de viver” (p.27). Sim, “vamos vivendo, atravessamos a vida sem alegrias nem mistérios, o tempo parece-nos breve” (p.11). Em realidade, “as noites já não vibram de terror nem de êxtase” (p.11). Tudo transparece na “claridade do vazio” (p.38), lá onde houve a “condenação á morte da moral” (p.44) e se assume que “os humanos não têm dignidade nem direitos, que o bem e o mal são noções simples, formas pouco teorizadas do prazer e da dor” (p.39). Em tom reflexivo, o humorista milionário observa: “havíamos simplificado tanto, suprimido tanto, quebrado muitas barreiras, tabus, esperanças aberrantes, aspirações infundadas; restava tão pouco, realmente” (p.21). Mais detidamente, “que pudesse surgir uma nova religião no Ocidente já era em si mesma uma surpresa, a tal ponto a história europeia dos últimos trinta anos fora marcada pelo desmoronamento em massa, a uma velocidade surpreendente, das crenças religiosas tradicionais. Em países como a Espanha, a Polónia e a Irlanda, uma fé católica profunda, unânime, maciça estruturava a vida social e o conjunto dos comportamentos dos últimos séculos, determinava a moral e as relações familiares, condicionava o conjunto das produções culturais e artísticas, das hierarquias sociais, das convenções, das regras de vida. No espaço de alguns anos, em menos de uma geração, num lapso de tempo inevitavelmente curto, tudo desaparecera, se evaporara no vazio. Hoje em dia, nestes países, já ninguém acreditava em Deus, não se debruçava minimamente sobre o assunto, nem se recordava de ter acreditado; e passara-se tudo sem dificuldade, sem conflitos, sem violências nem protestos de qualquer ordem, sem sequer uma verdadeira discussão, com a mesma facilidade com que um objecto pesado, sustentado durante algum tempo por um entrave exterior, retoma a posição de equilíbrio logo que pode” (p.289)
Michel Houellebecq mostra compreender na perfeição o significado mais denso de uma tradição religiosa: “os acontecimentos políticos ou militares, as transformações económicas, as mutações estéticas ou culturais podem ter um papel a desempenhar, por vezes um papel muito importante na vida dos homens; mas nada, nunca, pode ter uma importância histórica comparável ao desenvolvimento de uma nova religião, ou ao desmoronamento de uma religião existente” (p.302)

(continua)

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