domingo, 12 de março de 2017

Cínico, mas também lúcido - um grande livro de Michel Houellebecq (IV)


6. Daniel faz-se à vida como “one man show” (p.20), nada mais apropriado aos tempos (híper-individualistas), sendo o “bobo” – e o narrador reflete acerca do humorista como o colaboracionista que evita(va) ao mundo revoluções dolorosas e inúteis, pois que responde ele, com as suas piadas, sketches e outros motivos, com violência à violência (do mundo) - que converte todo o tipo de estereótipos sobre comunidades (particulares) em motivo de escárnio, fazendo do obsceno um veículo de atracção de massas. No mesmo espectáculo, congrega piadas anti-islâmicas e anti-semitas (p.41). Ele que passa pelo cinema (p.41), tem um último espectáculo precisamente intitulado “100% de ódio” (p.50). Chega a ter 6 milhões de euros (p.27). E não lhe escapa o que isso significou quanto ao modo como encarou o trabalho: “fora de certo modo uma espécie de puta, adaptara-me ao gosto do público” (p.174). A escrita, contudo, nesta narrativa de vida que enceta – e quanto à narrativa da vida, não há regras (p.26) –, e em particular a quando da perda no/do amor, dava-lhe “a ilusão do auto-controlo” e isso “permitia-me não desabar” (p.340). Até porque “é graças à memória que o sono não destrói de modo nenhum a sensação de identidade” (p.25).
As memórias de Daniel não são, em qualquer caso, um mero adentrar sociológico num dado espaço-tempo; elas são, em grande medida, uma reflexão existencial de quem parte da premissa de que “a vida não tinha [tem] nada de divertido” (p.174). “Na primeira parte da vida, só sabemos da felicidade quando a perdemos; depois, sabemos que quando começamos a viver uma felicidade a acabaremos por perder. Na terceira fase, a antecipação da perda de felicidade inibe a própria vida” (p.143). A juventude “era o tempo da felicidade, a sua única estação” (p.321). A maior parte das pessoas nasce, envelhece e morre sem conhecer o amor (p.144). A humanidade, já se sabe, está longe de ser grande coisa, na mundividência de Daniel1: “é uma tendência da sociedade (…) uma tendência geral para a barbárie, não há nenhuma razão para esta seita [elohimita, no interior da qual se registam homicídios e lutas fratricidas pelo poder] escapar” (p.299). Fox, o cão, era “o único ser digno de ter sobrevivido” (p.393), segundo o clone neo-humano do narrador que, acerca da vida, ela mesma, não era propriamente mais optimista que o seu antecessor: “o simples facto de existir era só por si uma desgraça” (p.390); “apreendia o meu corpo como um veículo de nada. Não fora capaz de ascender ao Espírito; continuava, no entanto, à espera de um sinal” (p.386). Este ser “nunca tivera decisões nem iniciativas a tomar, esse processo era-me totalmente estranho” (p.365), numa vida, aliás, organizada/regida pela Irmã Suprema, uma guia à laia de big brother (totalitário). E que lá pelo séc.XXIV vivia completamente isolado, rodeado de umas criaturas, os “selvagens”, que na economia do livro de Houellebecq como que são o mais aproximado dos (antigos) humanos: a “brutalidade das suas relações, com a ausência de compaixão pelos idosos e pelos mais fracos, pelo apetite indefinidamente renovado de violência, de humilhações hierárquicas ou sexuais, de crueldade pura e simples” (p.386). Havia, aqui, uma perenidade que se entendia observar: “as cenas a que eu assistira perto de Alarcón, ela vira-as repetir-se, quase as mesmas, em Nova Iorque – embora as tribos se encontrassem a distâncias consideráveis e não tivessem há sete ou oito séculos nenhum contacto” (p.386).
Interessado no religioso porque, como pontuou com grande sagacidade, ele tem a capacidade/natureza de permear/influenciar/determinar todos os sectores da vida social, Daniel que encontrara um católico com dificuldades de relacionamento sexual em virtude da sua filiação religiosa, no entanto “quando discutia com um cristão ou muçulmano no liceu tinha sempre a impressão de que a sua crença era de ‘segundo grau’: era evidente que eles não acreditavam, diretamente e no verdadeiro sentido, na realidade dos dogmas apresentados, mas de que se tratava de um sinal de reconhecimento, de uma espécie de palavra-passe que lhes facultava o acesso à comunidade dos crentes” (p.212). O seu clone, quando passa por “condições extremas” lamenta “a ausência de Deus, ou de uma entidade da mesma ordem” (p.384) a quem se dirigir [assunto de há muito arrumado no séc.XXIV; ao mesmo tempo, a resposta necessária face ao mal, no sentido de Pascal: é absurdo que Deus não exista – na medida de uma reparação final (necessária/urgente); embora também “é absurdo que Deus exista” em face do mal, para o francês; de qualquer modo, fica uma dada concepção e imagem que muitos possuem de Deus (como bombeiro)].
Num sublinhado curto, mas incisivo Daniel alude àqueles que “pelo simples facto de serem pais seriam [viriam a ser] julgados culpados” (pelos filhos) (p.327). Como que de tal sorte sublinhando ser essa a condição da parentalidade; dada a sua intrínseca imperfeição, a sobrevinda da crítica, o elenco de faltas ou falhas [pelo dedo acusador da descendência…que dali a nada se transformará em acusada, assim mude de papel]. Mal nasce, o pai ou a mãe, é culpado, pois que não foi – nunca será – perfeito. A sua “culpa” inapelável e nunca superada.
Em uma visão sombria da vida, dos humanos e do estádio civilizacional em que se encontra (em que nos encontramos), Daniel não pode contemplar ou conferir, como não contempla nem confere, qualquer carácter salvífico às suas memórias: as pessoas, mesmo que soubessem que o humorista/escritor estava a redigir acerca de um grande acontecimento “não se importariam, porque estavam habituadas a uma vida insípida e a um comentário” (p.302). O comentário insere-se na lógica do achismo quotidiano, que sobre cada assunto tem uma opinião, para no fundo não levar nada a sério, no meio da cacofonia (de que participa); o comentário da sociedade dos comentadores que merecia ser substituída pela sociedade dos artistas, bem mais inspiradora, seguramente (Tolentino de Mendonça).

Numa conferência, na Culturgest, há cerca de um ano, Maria Filomena Molder recordava que, em As razões de ser, Fernando Gil dizia que viver não é um facto, é um bem. Viver não é um facto empírico – eis o que a frase quer dizer. Mesmo os elementos da respiração (“ganhar o fôlego”, “perder o fôlego”), os elementos fisiológicos não são apenas elementos fisiológicos, são elementos da nossa vida. Ao serem elementos da nossa vida entram numa relação entre a confiança e adesão ao facto de termos nascidos. Mas mesmo antes de termos nascido nós não somos um facto: “nós fomos esperados na Terra” (Walter Benjamim). A próxima criança a nascer não é um facto; é um bem. Isto tem a ver com a experiência de aceitar viver. E o aceitar viver remete para o antes de qualquer experiência: a do recém-nascido. Ele come. Ele olha, toca. Pré-experiência: a criança agarra-se à vida (“nós agarramo-nos à vida”; e Sá de Miranda agarra-se à vida: “aquela esperança…”; ele já bebeu a dor inteira desta ruína). Confiança originária. Será terrível colocar em causa essa confiança, esse princípio da existência. Mas depois é necessário um esforço de despertar para a vida. Esse esforço é um exercício espiritual: não no sentido religioso, mas numa disposição para a vida. Lembra-te de viver, de Goethe, é o mote (um leit-motiv na obra de Goethe)”.

Se tivéssemos que nos recolher a autores para quem a vida é um bem, na qual importaria depositar confiança, há um dom que importa agraciar e talentos a colocar a render, então, evidentemente, como pontos de partida, a ideia da vida como “desgraça”, a existência como incessante “dor de ser”, a imagem que retiramos desse mundo na mediação humana – sempre com lobos ferozes por rostos e companheiros, em vez de seres que fazem do amor, do apego, o essencial e entendem a alma, a dimensão espiritual como algo que lhes permite tocar os valores eternos – bem, verdade, beleza - não seria, evidentemente, à cosmovisão expressa pelo narrador Daniel que recorreríamos.
Todavia, se a partir de um ponto de vista em que queremos perseverar nessa confiança na vida e no mundo, se a mundividência postulada passa pela necessidade da relação, de um forte vínculo e preocupação com o outro, então a crueza, a brutalidade, a violência extrema de um universo povoado de átomos que são indiferentes ao que quer que seja – sem riso e sem lágrimas -, incapazes de se perguntar por qualquer sentido – nenhuma conversa séria – e deixando de fruir das grandes indagações filosóficas e teológicas que marcaram a sua caminhada (algo agora simplesmente inacessível, com o aniquilamento da religião, sob o signo do cristianismo, e da Filosofia, pelo culto do cientismo, do tecnológico), nesse mundo onde todo o dissenso foi castigado, nesse cosmos de humanos que não passam de exclusiva biologia, então, dizíamos, a denúncia sem equívocos de Michel Houellebecq adquire uma grandeza incontestável em virtude do seu talento literário (e de um background onde avultarão, nesse sombrio sobre a existência, Nietzsche ou Schopenhauer).
A propósito deste romance, e da distopia que ele encerra – o fim do amor, das relações como a libertação/emancipação da humanidade; o isolamento como a nova condição, num humano maquinal e petrificado, no qual apenas a razão instrumental permanece - Leonidas Donskis faz suas as palavras de Slawomir Mrozek: “o amanhã é o dia de hoje exceto por chegar um dia depois”. “A possibilidade de uma ilha, de Houellebecq, é uma teoria sociológica da morte da sociedade, uma teoria apresentada sob a forma de literatura e que desenvolve uma narrativa convincente. A morte da sociabilidade na fase tardia da modernidade não é uma fantasia. As pessoas já não querem estar juntas. Já não têm razão alguma para ficar umas com as outras”. Assim, “tudo o que resta da sociedade são indivíduos atomizados, solitários, fragmentados, com um frágil poder de associação. O seu único problema é consigo mesmo e com a sua morte e extinção. Uma cultura viva cria as suas próprias formas de vida. Uma cultura moribunda já não cria mais nada, apenas se interpreta” (Donskis). Num universo muito marcado pelo determinismo, o fatalismo assacado ao fim das próprias relações humanas, de cada relação que entabulamos, parece querer surgir como resposta - na narrativa de Houellebecq. Contudo, testando-o até ao extremo, circunscreve um limite que irrompe enquanto esperança, e esta com(o) uma força da natureza que não adquiriria num texto delicodoce: “a história das relações humanas é sempre cíclica: elas começam, desenvolvem-se e depois definham silenciosamente. Só uma pessoa amada ou amiga pode romper o ciclo e superá-lo. Vencer o ciclo das relações humanas e a sua morte constitui a própria essência do amor e da amizade” (L.Donskis). Como Daniel sabia, “acabamos sempre por morrer de amor ou falta de amor” (p.146). Um amor inscrito em/mediado por Esther: “não sobreviveria à sua partida [para Nova Iorque, para uma Academia de Piano, e para representar uma peça de Sócrates]” (p.273). A perda do amor seria uma verdadeira “catástrofe” e aí estava a angústia pronta a devorar (p.274). É na debilidade da ferida, na inocência talentosa – e talento é algo que falta aos sem carácter, desenvolve – que Daniel se oferece na beleza da lágrima, na redenção do sentimento, na verdade do viver [num inusitado golpe romântico, de alguém que, porém, assume as suas “oscilações ciclotímicas entre o desânimo e a esperança”, p.349]: “ao mesmo tempo, tornara-me um perfeito cachorro, que um simples torrão de açúcar teria bastado para apaziguar (…) mas ninguém me ofereceria esse torrão de açúcar” (p.341). Numa palavra, “um pouco sentimental, um pouco cínico” (p.327).
Podemos, pois, dizer que nesta obra “ainda assim, Houellebecq deixa-nos uma palavra de esperança (…) As suas palavras sobre o amor como mistura de desejo e compaixão transformam-se na esperança do homem líquido moderno (…) O breve e infeliz amor de Daniel por Esther (…) isso é esperança. Se a extinção dos poderes de comunidade, sociedade e sociabilidade representa o começo do fim do mundo, e se os indivíduos que se usam uns aos outros, mas não se querem ver nem ouvir, aceleram a autodestruição mútua, então esse ciclo só pode ser superado por uma vitória, mesmo que apenas momentânea, sobre o determinismo: por exemplo, uma inesperada palavra de compaixão” (L.Donskis).
O desiderato de despertar para a vida pode ribombar com um tremendo som estridente de um chicote usado sem clemência – “A possibilidade de uma ilha, de Houellebecq é a primeira grande distopia do século XXI, até agora sem rival, destinada e feita sob medida para a era da modernidade líquida, desregulamentada, obcecada pelo consumo e individualizada” (Donskis) - pela pena de um autor que, em qualquer caso, mesmo no mais tenebroso dos cenários encontrou espaço para a alteridade.  


(conclusão)

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