5.No
tempo de vida de Daniel, o nosso, como vimos de dizer, havia-se criado o M.E.A
(Movimento de Exterminação de Anões) que defendia o desaparecimento da raça
humana, funesta ao equilíbrio da biosfera (p.57). Construíam-se residências
proibidas a menores de 13 anos, dado que o humano já não suportava crianças, as
preocupações que geram, os cuidados que demandam (p.58). Os principais
critérios/pilares em que assentava a sociedade eram “juventude, beleza e força”,
ou seja, segundo o narrador, “os
critérios do amor físico são exatamente os mesmos do nazismo” (p.63). A
beleza desempenhava no início do séc.XXI o mesmo papel que a nobreza no Antigo
Regime (p.180), com a respectiva “manutenção
minuciosa do corpo” a que os humanos devotavam uma parte cada vez maior do
seu tempo livre (p.267). Para além das já citadas, a ambição, a riqueza e o sexo faziam parte do menu das virtudes
requeridas no dealbar do séc.XXI (p.21). Ou, ainda, os valores da competição, da inovação e da energia. Crueldade, egoísmo
cínico, violência. Dizia-se não à
fidelidade e ao dever (p.44). E, na quebra de todos os tabus, caminhava-se
para o parricídio ou o canibalismo. Procedia-se, de resto, então, a um trabalho
de uniformização das vidas, a
alimentação vegetariana generalizava-se, bem como as futilidades New Age; os animais domésticos substituíam as crianças (p.63). O progresso científico
e tecnológico permitia um inédito controlo social (p.27) e os homens estavam, agora, reduzidos ao estatuto de objecto sexual
(p.30) (aliás, sempre provocatório Houellebecq, “em geral, os homens são considerados pénis ambulantes”, p.195). Não
faltava a publicidade em doses maciças, a manipulação: “aumentar o desejo até ao insustentável tornando a sua satisfação cada
vez mais inacessível”, eis a sociedade ocidental (p.72). Repare-se que “levar um indivíduo inexoravelmente a
desejar e ansiar é ao mesmo tempo privá-lo do seu poder de autocontrolo e
apropriar-se da dignidade de outra pessoa: vemos um ser que já não se assemelha
a ele mesmo, deformado e inflamado pelo desejo” (L.Donskis). O consumismo
era a regra (p.27). O mundo das revistas
cor-de-rosa conhecia um sucesso estrondoso junto do público, moldando
hábitos e normas, contribuindo para a vitória do homem light: “o que procuramos
criar [diz Isabelle que trabalhava numa destas revistas do coração] é uma humanidade fictícia, frívola, que nunca
mais será acessível à seriedade nem ao humor, que viverá até à morte numa
procura cada vez mais desesperada do fun
e do sexo; uma geração de kids
definitivos. Conseguiremos lá chegar sem dúvida” (p.32). Onde não há
sentido, até da busca, da pergunta se afasta o cidadão que assim fica entre o
permanente engraçadismo para não se
entediar – mas não sabendo que há alguma discussão séria, porque nada é sério,
nada é para levar a sério - e o sexo (a única finalidade da existência, de
acordo com o profeta). “Nem um pêlo de
cultura, nem um grama de actualidade, nenhum humor” (p.34). Neste contexto,
não admira que as mães copiem as filhas (p.36), nem que Daniel, “um neurótico
ocidental” (p.174) faça questão de registar na sua auto-biografia “a primeira conversa que eu tivera a sério
nos últimos anos” (p.179), bem como a “primeira
vez desde há vinte anos que comecei a chorar” (p.276) [aqui fica, de novo,
o prelúdio para o desaparecimento das lágrimas e do riso nos neo-humanos]. O sistema estava programado para acabar com o dissenso, o pensamento
crítico, a alternativa; tudo desaguava num consenso mole e manso, sem nenhum
rebate de consciência, sem a emergência da figura do intelectual ou quejandos: “o sistema espectacular, destinado a
produzir um consenso abominável, abatera-se há muito sob o peso da sua própria
insignificância” (p.225). Mais fundo ainda, estamos perante a “impossibilidade geral das coisas”
(p.287): “Houellebecq evidencia mais um
fenómeno actual: o novo determinismo, essa incapacidade de acreditar que até
pessoas racionais, críticas e de mente liberal possam mudar o curso da
civilização” (Leonidas Donskis). Em realidade, anulava-se a opção política, pela “evidente neutralidade do real” [aqui ressoa a crítica nuclear a
toda a tecnocracia]. O comportamento humano “devia tornar-se tão previsível como um frigorífico” (p.366). Como
que assinalando uma etapa em que o chamado populismo
estaria para conhecer um momento de êxito larvar, um amigo de Daniel adverte
com contundência: “o que é preciso (…) é
que tenhas a ralé do teu lado (…) com a ralé do teu lado, serás inatacável (…) o
que a ralé respeita é essencialmente o dinheiro (…) Tu tens dinheiro, mas não
mostras. Tens de reluzir um pouco mais” (p.41). Se bem que os ricos gostem
de estar com os ricos (p.114), o mesmo não sucedendo com os velhos (sem vontade
de se encontrarem os da sua geração, p.170). Como anteriormente repetidamente
se sublinhou, hoje “já não temos um
objectivo determinado” (p.11). Assiste-se à “dificuldade do sentimento amoroso” (p.27).
Companhia
inseparável de Daniel é o cão Fox – e também ele irá perdurar, mesmo após a sua
morte (devido ao material genético recolhido). Lê-se a Visão (que traduz a Time no
seu principal dossier) desta semana e, nas aspirações/sonhos e delírios
societários que expõe(m) nenhuma novidade aduz, já cá está tudo (no livro de
Houellebecq, de 2006). Mas perceba-se: “o
cão era uma máquina de amar por efeito do treino” (p.158). Daniel, “um observador acerbo da realidade
contemporânea” (p.21), perdera a virgindade aos 17 anos (p.20), numa sociedade
saturada de sexo por todos os lados (“a
sexualidade talvez fosse sobrestimada”, p.152; os neo-humanos que não entendem o amor, no seu isolamento não integram
ainda “a inacreditável importância que
os humanos atribuíam ao contacto sexual”, p.266; note-se que nas memórias
de Daniel, são incontáveis as descrições de actos sexuais, como se o estético –
a forma – se ligasse à ética – o conteúdo). Face a este zeitgeist, após a queda do cristianismo, e com as melhorias de vida
no mundo árabe a promoverem mudanças políticas (p.292) e, concomitantemente,
nos hábitos de todos os muçulmanos, em todo o mundo, num sentido dos prazeres
serem satisfeitos, também o Islão cairá (ele que vivera agarrado ao machismo e
não sobreviverá ao feminismo e à revolução sexual). Primeiro, com os
integristas a darem lugar aos moderados. A seguir, com o seu puro e simples
desaparecimento (“os integristas islâmicos
deram lugar aos muçulmanos educados e cultos e depois ao desaparecimento destes”,
p.40). Significava isto o fim da religião, no mundo? Por um lado, o homo symbolicus e o homo religious parecem não ceder, o homem novo, apesar de tudo, ainda não desabrochara por completo e
mantinha intactas algumas características milenares, pese a ingenuidade dos
iluminismos e vanguardas mais radicais: “contra
todas as campanhas racionalistas e advertências”, a religião permanecera
(p.188). Só que, bem entendido, uma religião adaptada aos tempos (que na
imortalidade de um corpo tal quale
pode considerar-se que se nega a si mesma). Os Eloimistas vinham anunciar que
os humanos haviam sido criados pelos Elohim [já agora, veja-se nos nossos dias
o tradutor da Bíblia que publicou livro a dizer que a Bíblia não fala de Deus,
e que tal deriva da má tradução de Elohim, plural], seres que criaram os
humanos e regressarão (“Os Elohim que
nos tinham criado eram cientistas de nível muito elevado”, p.208) e a nova
religião – e “nunca na história uma
religião ganhara algum ascendente dirigindo-se apenas ao intelecto (em vez da
emoção e sentimento)”, p.204) – seria, como não?, “hedonista e libertina” (p.229). O Eloimismo não impunha nenhum constrangimento moral, “reduzindo a
existência humana às categorias do interesse e do prazer” (p.293), fazendo
a apologia dos valores sociais dominantes, com práticas como orgias, uma
manipulação e ausência de escrúpulo completos. Anunciando a imortalidade (e na
luta contra a morte parecia aproximar-se das religiões monoteístas mas) pelo
prolongamento do material genético. Erradicando
toda a dimensão espiritual, a vitória era a promessa ilimitada da vida
material, isto é, a satisfação ilimitada dos desejos físicos. Em chegando à
– ou perto da – terceira idade, os crentes (Eloimistas), e as adesões são em
massa, suicidam-se (em público); querem passar para um corpo novo (jovem). E a
morte desaparecerá sem que se saiba o que fazer (com a vida eterna terrestre)
senão prolongar indefinidamente os prazeres do estádio (androide) anterior – para isso serve
a vida. É o modo muito conseguido como Houellebecq retrata uma cultura,
como aquela em que nos situamos, que “está
pronta para conviver com tudo, menos com o envelhecimento. Mais cedo ou mais
tarde essa cultura vai tentar quebrar os últimos tabus, os que se relacionam
com a pedofilia, o canibalismo e o incesto. Não são eles que nos fazem tremer
de medo – a morte e a extinção é que causam o verdadeiro terror nos nossos
corações, sobretudo numa época em que a ciência, a tecnologia e genética nos
aproximam cada vez mais da fabricação da vida e da imortalidade. Terrível não é
a expectativa de que todos iremos morrer, mas a possibilidade de perdermos por
uma ou duas décadas o momento em que os geneticistas criarão uma raça de
abastados super-homens que deixarão todas as suas riquezas a um grupo
tecnológico ou de engenharia social, caracterizado como seita escatológica e
esperando o fim do mundo (como os elohimitas da imaginação de Houellebecq) (…)
Quando a vida em si se torna o único problema, a extensão da própria vida (…),
assim como os sonhos de imortalidade alcançada não pela realização de uma
promessa transcendental, mas pela ciência, pela genética, pelas tecnologias e
pela racionalidade instrumental, tornam-se a única realidade significativa. Não
a liberdade nem a autorrealização, mas a ampliação da vida terrena e uma
imortalidade mecânica – se isso for possível (…) Uma fantasia como a da
imortalidade é um testemunho não apenas da morte da religião, de uma fé
exaurida e dissipada, mas também de uma sociabilidade evanescente” (L.Donksis).
Daniel
recorda os acontecimentos, no início do século XXI, em França, com os mais
velhos a morrerem por falta de cuidados, nomeadamente com o calor (Daniel
refere-se ao ano de 2003, p.78). E como tal, de imediato, “entrara nos hábitos”,
ano após ano, corolário da indiferença generalizada bem como do economicismo científico que se abatera: a falta de
cuidados era, Houellebecq é corrosivo, “um
meio afinal natural de resolver uma situação estatística de velhice avançada
forçosamente prejudicial ao equilíbrio económico” (p.286). Sempre sem
concessões ou contemplações, o narrador leva a sua lógica até ao limite, num
exercício de um humor cáustico e ácido, hiperbólico e contundente: os velhos deviam revoltar-se “contra os
jovens, obrigando-os à prostituição para reembolsarem os sacrifícios” por si
feitos, por aqueles (p.179). Tínhamos chegado ao desejo de retorno ao
estádio primitivo em que os jovens se livravam dos velhos sem moderação. Era um
refluxo brutal, típico da modernidade, para um estádio anterior a todas as
civilizações (p.177). Era, assim, um sinal imenso da queda da civilização, pois
“toda a civilização podia ser avaliada
em função do destino a dar aos mais fracos” (p.177). [a propósito do
pessimismo cultural, Donskis traça analogias também entre Houellebecq e Thomas
Mann].
Esta
sociedade defendia a “ideia de que todas
as espécies, independentemente do seu grau de desenvolvimento, tinham igual
«direito» de ocupação do planeta (…) [e] alguns adeptos (…) tomam
sistematicamente o partido dos animais contra o homem, experimentam um maior
desgosto perante a notícia do desaparecimento de uma espécie de invertebrados
do que perante a fome devastadora da população de um continente” (p.368).
Nesta ideologia, vai o “desejo da
humanidade se revoltar contra si mesma” (p.369).
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