domingo, 26 de março de 2017

Combate


Quando encontro um homem que afirma não acreditar em Deus, apresento-lhe sempre a questão: que Deus é esse em que não acreditas? Que é que te leva a não crer nele? E consegues representar e especificar sob o conceito «Deus» ainda algo de diferente daquilo que negas?
«Deus morreu! Deus está morto», afirma o louco em A gaia ciência. Todavia, numa outra passagem, Nietzsche indica que a morte de Deus, finalmente, não é definitiva: talvez o voltemos a ver, talvez Ele «tenha despido apenas a sua pele moral». Talvez surja, de novo, um deus no qual o louco de A gaia ciência, o sábio Zaratustra e também o próprio Nietzsche (tratar-se-à de um só ser em três pessoas?) poderiam começar a acreditar: um deus que saberia dançar; um deus que constituiria um contraste com o «espírito de pesadume», com o «espírito de vingança». Talvez Nietzsche, este louco sábio e este sábio louco, «o mais piedoso entre os descrentes», busque, após a morte do deus antigo, um deus assim, que já não acorrenta, mas liberta, que solta o homem para a coragem, para a força criadora e para a responsabilidade? (...) Ateísmo não significa a «irreligiosidade» na acepção de uma recusa de Deus, mas da rejeição de um determinado tipo de teísmo, de uma determinada representação de Deus. Cada ateísmo refere-se a um determinado tipo de teísmo (...) [e] há muitas espécies de teísmo que são mais obstáculo do que um apoio para as pessoas no seu caminho para o mistério que chamamos Deus (...) Começar a crer não significa poder apoiar-se em pilares de certezas, mas entrar na nuvem do mistério e aceitar o desafio: mergulha fundo! (...) Goethe divisava na luta da fé com a incredulidade a essência de toda a história. Acrescentemos ainda que esta luta se trava, muitas vezes, no íntimo de um homem (...) O mundo e a vida são ambivalentes e polifacetados. «Há luz bastante para os que querem ver e treva suficiente para os que têm uma disposição contrária», escreveu Pascal.

Tomás Halík, Prólogo, in O abandono de Deus. Quando a crença e a descrença se abraçam, Paulinas, 2017, pp.24-28


Só no convento é que o argumento de Ludwig Feuerbach, segundo o qual os homens projectam em Deus os seus desejos e as suas ânsias, se tornou uma questão pessoal. E, acima de tudo, a ocupação com a psicologia obrigou-me a interrogar-me com honestidade: é Deus, para mim, tão-só uma projecção pessoal? Esta reflexão ocorria-me sobretudo na oração. Emergia aqui, muitas vezes, a pergunta: será tudo isto imaginação? Pensas que com Deus tudo te corre melhor, que podes viver em paz e saíres-te bem dos teus problemas?
No entanto, se levar estas coisas até ao fim, parece-me que tudo seria absurdo. O homem não podia conhecer nada. Também o ateísmo seria uma projecção. O homem excogita que não há nenhum Deus, para poder viver livremente e não ter de se preocupar com nada que o desafie a partir de fora. Ambas as alternativas são, pois, projecções. A solução seria que eu relativizasse todo o conhecimento humano: em última análise, andamos às apalpadelas no meio da escuridão. Ou, então, decido-me por uma alternativa. E torna-se claro, para mim, que me decido pela fé. Aposto tudo na fé. É claro que alguém me poderia dizer: decido-me pela fé, porque estou habituado a ela desde a infância. Isto desempenhava, certamente, um papel. Mas sinto interiormente que a alternativa da fé é mais humana do que a do ateísmo. A decisão pela fé, para mim, não vai contra a minha razão. Sujeito a minha razão a um esforço, mas chego assim a um limite. E o salto vai para lá da fronteira, quer na fé quer na descrença. No meio nada existe. Uma outra alternativa seria não forçar o meu entendimento. Mas seria então, para mim, um agnosticismo tardo e indolente: não me preocupo com a questão de Deus, e pronto. Mas tenho a busca de Deus por muito mais essencial do que o facto de simplesmente poder negá-la ou passar por cima dela.
A minha decisão «aposto na fé» ocorreu-me quando pensei, até ao extremo, a dúvida acerca da existência de Deus. Só mais tarde, nos meus estudos, embati na famosa aposta referida e descrita por Pascal nos seus Pensamentos. Nela encontrei uma confirmação e um reforço da minha experiência pessoal: Pascal entretém-se e dialoga com um céptico e agnóstico (...) Pascal nada conserva das tradicionais provas da existência de Deus. Mas, numa época em que os jogos de azar e as apostas se tinham amplamente difundido, fala de uma aposta no âmbito da pergunta sobre Deus. Esta obriga a decidirmo-nos. Não podemos, pois, contentar-nos com a atitude do agnóstico, ou seja, não saber se Deus existe ou não. Walter Dirks resume assim o argumento da aposta: «Não sabes se Deus existe. Tens a opção entre dois pressupostos, entre a suposição de que Deus existe e a presunção de que Ele não existe. Não podes esquivar-te, tens de apostar numa destas possibilidades. Em alguma ocasião, talvez na experiência da tua morte, se há de verificar se apostaste de forma correcta ou falsa. Se apostaste contra a existência de Deus, então, no caso de Ele não existir, nada perdeste e nada ganhaste - nem sequer terás a consciência de teres procedido bem; porém, no caso de Deus existir, então perdeste tudo. Se, pelo contrário, apostaste na existência de Deus e se Ele não existir, então não perdeste nada; mas, se Ele existir, ganhaste tudo: a bem-aventurança eterna. Nestas circunstâncias, é sensato e racional apostar na existência de Deus». Como é evidente, aqui também não se trata de nenhuma prova da existência de Deus. Cada um de nós vê-se e redescobre-se quer no céptico, quer ainda no crente. Mas a aposta de Pascal reforça em nós, pelo menos a posição do crente. Incute-nos coragem para nos decidirmos em prol de Deus.

Anselm Grun, A alma não conhece o ateísmo, in O abandono de Deus. Quando a crença e a descrença se abraçam, Paulinas, 2017, pp.32-34.


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