sábado, 18 de março de 2017

Como nós?


O que caracteriza o ser humano, a pessoa? Isto é, o que lhe é específico, próprio, particular, não partilhável com os demais seres e espécies? Há, hoje, uma forte corrente científico-filosófica para a qual entre o Homem e os outros animais a diferença é apenas de grau. De outra banda, estão os que pensam – entre os quais me incluo – que não há apenas uma diferença de grau, mas existe, mesmo, uma diferença qualitativa aqui. O filósofo Pedro Entralgo propõe que a melhor forma de comparação é a conduta humana observável. Assim, verifica que de entre todos os seres da Terra, só o Homem é livre, só ele tem a capacidade de razão abstracta, de autoposse, só ele tem a noção de ser sujeito de obrigações (deveres) para lá das instâncias meramente instintivas, só ele pode rir e sorrir, só ele é animal simbólico, só ele é capaz de amor de doação; o animal também sabe, mas só o Homem sabe que sabe, só ele é capaz de autoconsciência, de linguagem duplamente articulada, de sentido do passado e do futuro, de promessas, de criação e contemplação da beleza, de descida à sua intimidade e subjectividade pessoal, só ele sabe que é mortal, só ele pergunta e fá-lo ilimitadamente, só ele cria instituições jurídicas e compõe música, só ele tem de confrontar-se com a questão da transcendência e do Infinito: “outra característica sua essencial é a busca de sentido. Enquanto os outros animais aparecem feitos, o Homem, por causa da neotenia – nascimento prematuro -, aparece no mundo por fazer e tem de fazer-se. Daí a pergunta: fazer-se como e para quê, com que meta e objectivo?”[1]



[1] A.BORGES, Deus e o sentido da existência, Gradiva, 2011, p.57.

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