sábado, 18 de março de 2017

Competências de leitura


A escrita de qualquer obra depende, em larga medida, do contexto social e cultural. Também a leitura. Escrita e leitura têm, portanto, como referentes implícitos códigos socioculturais que podem coincidir ou não. Se coincidem, a leitura é imediata. Se não coincidem, uma leitura imediata produz inevitáveis mal-entendidos. O problema torna-se exemplarmente evidente na leitura moderna da literatura medieval. A sociedade medieval concebia-se como parte de uma totalidade metafísica de que o mundo material era o aspecto visível. Por isso, a literatura medieval visava sempre a designar o concreto para significar o abstracto. A realidade concreta tinha, enquanto real e concreta, um valor semântico metafórico. Não hoje. E o leitor moderno que não refira o discurso medieval ao código sociocultural nele implícito entenderá, em função do seu próprio código, a designação da realidade concreta como a sua significação última. Na pior das hipóteses, o texto torna-se incompreensível por absurdo. Na melhor - o texto fará sentido, mas erradamente, porque terá parecido fazer sentido total.
Exemplo do primeiro perigo, no campo da literatura portuguesa, é a persistente incompreensão dessa obra-prima de um Renascimento ideologicamente medieval que é a Menina e Moça

Hélder Macedo, Uma cantiga de D.Dinis, in Camões e outros contemporâneos, Presença, Lisboa, 2017.

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