Num sistema educativo ideal, os alunos não estariam inseridos numa turma, num determinado ano de escolaridade, mas agrupados segundo o nível de competências em diferentes domínios ou por áreas de preferências. Haveria uma maior preocupação com o desenvolvimento do aluno, acompanhando-se a sua evolução em diferentes campos, procurando desenvolver-se nele as competências que lhe permitissem crescer, aprender a viver em sociedade. Um aluno poderia estar no primeiro ano em Língua Portuguesa, mas no terceiro em Matemática. Poderia trabalhar nas àreas normalmente apelidadas de curriculares, mas também noutras que fossem mais ao encontro das suas vontades, dos seus desejos, dos seus interesses. Todos conhecemos crianças que sabem ler com cinco anos, mas que não possuem as competências do raciocínio matemático ou a maturidade para a compreensão de conceitos das Ciências e do Estudo do Meio. Por que razão terá um aluno de saber ler e escrever, de passar por um processo (que dura todo o primeiro ano) de aquisição de uma competência que ele já tem a priori? Não seria mais adequado ele realizar actividades ajustadas às suas capacidades em vez de actividades para a sua idade ou ano de escolaridade?
Há uns anos tive um aluno que, no primeiro ano, queria que eu lhe explicasse os números negativos. E eu expliquei. E melhor do que isso...ele compreendeu. Era um daqueles alunos que precisava de aprender a ler e a escrever, pois não possuía essas competências, porém, quando estávamos a explorar a Matemática, os conteúdos do primeiro e do segundo ano eram para su simples, fáceis e entediantes. (...) A organização do ciclo por anos escolares é por isso mesmo demasiado estanque, demasiado fechada, não permitindo uma maior flexibilidade e adequabilidade do processo de aprendizagem às características de cada criança
Rui Lima, A escola que temos e a escola que queremos, Manuscrito, 2017, pp.15-17
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