
Num ensaio de 1999, "O crepúsculo das humanidades?", George Steiner questionava(-se) acerca de uma má definição - ou ausência dela, de delimitação, fronteira - de Humanidades (o que cabia no interior destas) enquanto sintoma desse mesmo crepúsculo enunciado em epígrafe:
Se há um consenso difuso sobre a inclusão no seio das humanidades da edição e da compreensão das literaturas do período clássico até à contemporaneidade (e aqui a questão da contemporaneidade coloca problemas quase políticos), se a filosofia, a história, a teoria e a história da arte estão ligadas às faculdades de letras e artes, qual será então o lugar das artes performativas, no âmbito humanístico? Será que a linguística teórica e formal, cada vez mais metamatemática e algorítmica, pertence aos litterae humaniores? E será que o mesmo sucede com aspectos econométricos da história económica (ou mesmo da própria história)? E o que dizer da lógica formal no que diz respeito ao discurso metafísico? Ou da filosofia da ciência e da musicologia mais teórica? Não será um elemento central daquilo que está a ser interpretado como uma crise a forma como a matematização exponencial do pensamento ocidental, depois de Descartes e Leibniz, reduziu fundamentalmente (e continua a reduzir) o outrora imperial terreno das humanidades?
George Steiner, As artes do sentido, Relógio d'Água, 2017, p.104 [tradução de Ricardo Gil Soeiro].
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