quinta-feira, 30 de março de 2017

Parlamento dos jovens


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Parlamento dos Jovens

Realizou-se, há duas semanas, em Vila Real, nas instalações do Instituto Português da Juventude, a sessão distrital do Parlamento dos Jovens, com a participação de dezenas de alunos, do 3º ciclo do Ensino Básico, de várias escolas do Distrito (Alijó, Boticas, Chaves, Mesão Frio, Murça, Valpaços e Vila Real).
Para além de ganhos de noções de democracia, algum estudo da Constituição da República Portuguesa, capacitação quanto ao domínio oratório, de argumentar e rebater ideias, saber escutar as posições contrárias, controlar (estrategicamente) o tempo disponível para exposição, de participação na vida pública – esperando-se que um pouco destes apartados possam ficar, sempre e quando, ainda, a educação seja demasiadas vezes vista como mero adestramento técnico para o exercício de uma profissão, quando dela se deve esperar bem mais -, sublinharia, sobretudo, uma outra dimensão: o conteúdo das propostas apresentadas, com vista a obterem vencimento e, em última análise, chegarem à Assembleia da República, através dos representantes eleitos pelos colegas de ciclo, e que irão ao Parlamento, durante dois dias, em Maio (próximo).
Bem observadas, essas propostas mostram duas preocupações centrais, que relevam, nas escolas, de debates prévios entre alunos, e com supervisão e contributos, também de professores, a saber: a) uma concretização, digamos, mais efectiva de um preceito constitucional relativo a um direito à habitação e b) a inserção nos currículos escolares (na escolaridade obrigatória) do estudo da Constituição.
Creio que estas preocupações podem, potencialmente, ser lidas como resultado, não exclusivo (por exemplo, ao longo destes anos as aspirações, em França concitadas, relativamente à questão da habitação conheceram ampla divulgação e repercussão pública internacional), mas muito relevante, dos anos que temos vindo a passar e na demanda de uma maior preocupação com a dimensão social e com uma repolitização que traga cada um cidadão crescentemente preparado para ler e lidar com os desafios políticos que situações mais extremas, na nossa vida colectiva, implica(ra)m.
Regra geral, os alunos estiveram longe de esgotar o tempo disponível para cada escola – o que evidencia ou uma desatenção aos debates parlamentares (e seu modus operandi), onde a tática passa por ir sempre além do tempo consagrado a cada grupo parlamentar, ou a adopção de uma estratégia diversa daquela para persuadir os demais grupos do bem fundado de cada proposta; por outro lado, nem sempre as propostas conheciam qualquer tipo de cabimento, em realidade, em uma Constituição (não seriam normas aptas a preencher os requisitos de integração na nossa Lei Fundamental; e o que daqui resulta é: e quem estaria/está qualificado para ensinar a CRP nas escolas?); e creio que se verificou, ainda, ao longo do dia de trabalhos, nesta sede, a importância da inteligência emocional no que ao estabelecimento de pontes diz respeito para o momento da eleição dos representantes distritais. Uma das regras destes Parlamentos Distritais que me parecem mais controvertidas passa pelo facto de os representantes a eleger poderem ir defender, ou ter que defender, propostas nas quais não votaram, ou, mesmo, em que não se reconhecem. A separação entre o momento da votação das propostas e da escolha dos representantes, podendo, eventualmente, ter algumas vantagens, pode, igualmente, inculcar nos alunos a ideia de que se pode defender tudo e o seu contrário, que a retórica é tudo, numa espécie de antecipação e apologia da figura do sofista que os adolescentes virão a conhecer na disciplina de Filosofia, no Ensino Secundário.

No início deste evento, o deputado Luis Leite Ramos esclareceu as questões que lhe foram colocadas pelos mais novos, recordando, no plano pessoal, a dificuldade da primeira intervenção parlamentar, da ansiedade da noite anterior, mal cumprida, até à gestão do tempo disponível para a sua alocução parlamentar que precisou, sempre, ao longo dos anos, de aprimoramento, o que reclama muito trabalho. E aconselhou a que ninguém fique dependente da política, em termos profissionais, mas, igualmente, que em tendo uma profissão não se desligue ninguém da dimensão pública e política e do contributo que como cidadão cabe dar à comunidade em que nos inserimos. Um bom conselho, de resto.

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