segunda-feira, 27 de março de 2017

Plenitude


Encontrei ainda uma outra forma de ateísmo nas conversas com pais. Muitas vezes, eles sentem-se impotentes perante os argumentos dos seus filhos acabados de entrar na puberdade, que dizem claramente aos seus pais que Deus não existe.  Este seria apenas uma projecção do homem, afirmam eles. Assumem a posição de Ludwig Feuerbach, ou, ainda, de Sigmund Freud, que não caracteriza Deus como projecção, mas como ilusão. Deus seria uma ilusão na qual os homens de boa vontade se refugiam para se sentirem um pouco mais aclimatados neste mundo áspero e severo. Eles argumentam, como Sigmund Freud, que a religião seria uma coisa infantil e que importa, sobretudo, ser adulto e aceitar a realidade e dominá-la como ela é. Muitas vezes, por detrás do protesto dos filhos pubescentes contra Deus esconde-se também a tentativa de se libertarem do abrigo junto dos pais e da sua convicção religiosa fundamental. Eles não notam que se excedem com esta crítica da religião. A posição de Freud está cheia de pessimismo. E, em Freud, não é prevista a felicidade do homem, que deve simplesmente contentar-se com a vida tal como ela é. Para os jovens, porém, esta não é a perspectiva que lhes permita viver. Ao invés, esta visão induz à resignação, ao cinismo e à oclusão perante tudo o que poderia ser maior do que nós próprios, tudo o que poderia abalar a nossa raquítica e estreita autoimagem. (...) Para mim, há duas respostas (...) Em todas as dúvidas sinto-me apoiado por Deus. E isto dá-me segurança. Apesar de tudo, agarro-me firmemente a Deus. Experimentei que não se trata aqui de nenhuma ilusão. A minha experiência diz-me que Deus é o fundamento em que posso sentir-me seguro e firme. E a outra seria antes uma questão aos jovens: que ouves tu, quando escutas uma música? Trata-se apenas de acalmar os nervos? Que vês tu, quando admiras a beleza de uma flor, quando contemplas um quadro belo? Para mim, a beleza é um vestígio de Deus. E isso dá cor, variedade, profundidade, animação e chama à minha vida. Que experimentas quando sentes o amor em ti? Será isso apenas um sentimento provisório, ou tocas aí o mistério de todo o ser, o fundamento de toda a realidade, que é amor? O argumento em prol da incredulidade em muitos jovens induz, a meu ver, à banalidade. E eu recuso-me a viver de forma apenas banal. Gosto de viver e saborear a plenitude. A minha tarefa seria, então, falar aos jovens da plenitude que também eles poderiam experimentar (...) Trata-se da questão do que é a vida real e onde e como ela se há-de encontrar.

Anselm Grun, A alma não conhece o ateísmo, in O abandono de Deus, Paulinas, 2017, pp.36-37.

Sem comentários:

Enviar um comentário