quinta-feira, 30 de março de 2017

Resignação


Se lermos os textos de Francisco Louçã e de Rui Tavares, esta quarta-feira, no Público, como pólos opostos no que ao pensamento sobre o futuro da União Europeia - e da inserção de Portugal nela - diz respeito, o que verificaremos, de modo curioso, mas sintomático é que eles se unem pela forma como diabolizam a posição contrária, sendo que em nenhum momento, em ambos os casos, se pronunciam pela positiva (relativamente ao que sustentam). Francisco Louçã faz o diagnóstico negro do statu quo europeu (e de cenários avançados, a partir deste), para defender, no fundo, a saída do país do euro; Rui Tavares acusa os que pretendem a saída de Portugal do euro de não apresentarem, nem de estarem em condições de apresentar, qualquer estudo, qualquer realidade palpável ou credível para o day after de um Portugalexit. Percebe-se, sem dificuldade, a estratégia (discursiva) dos dois autores: Louçã, com efeito, não parece poder apresentar qualquer suporte sólido acerca do dia depois de amanhã, relativamente aos elementos aos quais Rui Tavares se refere (a começar pela dívida, passando pela questão da saída da UE e dos termos em que tal se faria, até ao quanto a desvalorização da moeda se reflectiria em diferentes aspectos das economias pessoais, culminando no modelo de economia em que nos queremos basear no futuro próximo que segundo, nomeadamente, o actual Executivo, que o BE também suporta, não deve assentar em mão de obra barata); a Rui Tavares custará muito, igualmente, por certo, defender o actual estado de coisas na UE onde as regras determinantes estão longe de serem social-democratas e as tendências de grandes avanços redistributivos, no interior da União (Orçamento robusto, instrumentos contra as assimetrias, sanção dos excedentes comerciais, caminho para uma união fiscal, eurobonds, mudanças no Tratado Orçamental, etc.) estão por provar (que venham a ter lugar). Pelo que a encruzilhada, com anos, permanece, e ninguém vai além da solução menos má, ou da enunciação da verdadeira catástrofe se a posição contrária vingar.


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