Soaram-me a um completo falso unanimismo, em Portugal, as reacções às afirmações de Dijsselbloem sobre os países (e as pessoas) do Sul da Europa: qual foi o discurso predominante, no nosso país, como explicação da crise, pela qual também (e tanto) passámos (e passamos), durante os últimos sete anos? Não foi o de que as pessoas, as pessoas concretas, tinham gasto mais do que podiam, e que tínhamos vivido acima das nossas possibilidades (com enfoque individual/subjectivo)? A abordagem não foi aos plasmas que se compraram, às subscrições de tvcabo, aos automóveis adquiridos a crédito, às férias nas Caraíbas (de quem, supostamente, ganharia o salário mínimo, ou coisa parecida)? Então não foi este o discurso hegemónico, de cariz moralista, que não precisava de estudo - o que é uma união económica e monetária, os choques assimétricos, o tipo de moeda que temos, a abertura à China da OMC em 2000, o alargamento da União a Leste, a localização geográfica dos países e o tipo de economia que cada um destes possui e o que mais lhe convém, os desequilíbrios comerciais no seio da UE, a relação entre culturas diferentes e as políticas comuns, a diferenciação e concorrência fiscal (aceitável?), o projecto federal, etc., etc., etc. -, que passou das televisões, de figuras muito reverenciadas, adoptadas por inúmeros políticos e repetidas nos cafés? Pior do que o preconceito externo sobre os nacionais - ou os cidadãos da Europa do Sul - é, na verdade, compatriotas a tratarem seus congéneres como PIGS. Isso, sim, devia indignar, mas não indignou, e de que maneira. Aliás, se, hoje mesmo, se pedir à generalidade dos portugueses que identifiquem as causas da crise, e como não lhe deram melhores explicações - e a maioria não se interessa, nem tem possibilidades, a diferentes níveis, de gastar horas a ler ensaios políticos que foram sendo publicados entre nós a propor linhas bem mais complexas de interpretação dos nossos problemas económico-sociais -, o que esperar se não a ladaínha, triste e pobre, paupérrima, debitada semana após semana, ao longo de anos? Vale a pena dizer, entretanto, que por coincidência, ontem, um estudo, assinado (atente-se no título desta notícia, Afinal, as empresas e o Estado é que viveram acima das suas possibilidades), entre outros, por um ex-secretário de Estado do governo anterior, Fernando Alexandre, não deixava de sublinhar que não foram as famílias, mas antes as empresas e o Estado a gastarem em excesso ("“Às vezes, há uma leitura moralista destes dados dizendo que as pessoas vivem acima das suas possibilidades, mas as pessoas não são estúpidas”, afiança o investigador, considerando que “grande parte das despesas que as pessoas fazem não são consumo, são investimento“. Fernando Alexandre dá o seu próprio exemplo, notando que tem três filhos e que gasta “a maior parte do rendimento na sua educação”.). Segundo este académico, o que as pessoas gastaram em habitação - a esmagadora fatia do crédito concedido foi para esse efeito - fazia, evidentemente, todo o sentido (por muito que isso custe aos moralistas dos plasmas). Hoje, em todo o caso, um colunista do Negócios que é muito requerido por programas de tv que crêem que as pessoas não devem ser confrontadas com pensamento crítico, assume as palavras do presidente do Eurogrupo e coerentemente refere que aquilo que o holandês disse é o que "muita gente pensa" por cá, a começar, claro, pelo dito colunista. As pessoas que por diferentes motivos passam, diariamente, horas em frente aos televisores, às vezes em grande sofrimento, não mereciam que lhes oferecessem motivos suplementares de masoquismo. Parece que descobrimos o populismo com Trump, e o ranço com Dijsselbloem. Lamento informar: já cá estavam.
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