sábado, 25 de março de 2017

Um espírito


No Espírito de 45, de Ken Loach, está presente, a partir de um olhar britânico, muito do que lera nos livros de Tony Judt: a convicção, em 1945, de que não se podia voltar aos níveis de pobreza e desemprego do período prévio ao deflagrar da I Guerra Mundial e, bem assim, ao intervalo entre guerras. Que, segundo o historiador, teriam sido determinantes para o eclodir bélico. De entre os testemunhos escutados, a ideia de que se se tinha gasto e mobilizado um país para a guerra, com os sacrifícios brutais que se congregaram, também havia agora que ter forças para vencer a paz, ainda que isso implicasse um dispêndio público considerável, não só ao nível infra-estrutural (200 a 300 mil casas por ano, numa economia esfrangalhada, e sendo necessário conhecer a história, a geografia, orografia de cada local devastado pelos bombardeamentos, por exemplo, ou criar novas cidades; as casas construídas durante este período, para pessoas de baixos ou médios rendimentos era de grande qualidade, com duas casas de banho e um jardim a delimitá-la), como, ainda, na contratação de pessoal para funções públicas. O célebre Relatório Beveridge coloca os vários dedos na ferida das chagas por que passara a sociedade inglesa e que se acreditava, então, não poderem mais prosseguir. A insalubridade das casas (cinco irmãos a dormirem na mesma cama), com as várias cortiças a serem objecto de arranjos que nada melhoravam, um país (longe de ser o único, europeu, nestes termos, como infelizmente sabemos, pela nossa própria realidade, bem mais periférica, contudo) onde era normal nos anos 30, mesmo no Inverno, as pessoas andarem descalças por falta de condições materiais, onde no pós-I Guerra Mundial havia pessoas, de uniforme, regressadas das trincheiras, pelas esquinas, sem ter onde trabalhar, muitas vezes mutiladas, onde tirando a geleia pouco havia que colocar no pão - poucas vezes se comia carne; quase sempre nabos com batatas -, as maleitas tratadas com os conselhos das avós, dado que o Serviço Nacional de Saúde era uma miragem (e tinha que se trabalhar mesmo doente) e fora os que pagavam seguro de saúde (e, mesmo assim, só estes, e não seus familiares) teriam médico assegurado, foi aquele onde a febre das eleições de 1945 colocou toda a gente nas ruas a seguir os vários comícios, diariamente, tempo em que tudo parecia, então, possível. Nessa campanha que culminaria numa surpreendente e imensa vitória trabalhista, liderada por Clement AtleeChurchill  - muito respeitado e ouvido com a maior atenção pelo país, nomeadamente nos discursos radiofónicos -e os conservadores distribuiriam dezenas de milhares de cópias do essencial de O caminho para a servidão, de Hayek, alertando para a linha recta entre o planeamento central e o totalitarismo (uma conclusão advinda de um diagnóstico errado do que se passara na Viena natal de Hayek, como explica Judt na obra conjunta com Timothy Snyder). Sem convencerem, desta feita, a esmagadora maioria do eleitorado, e sem que os piores prognósticos, nessas cópias contidas (relativas aos "socialistas radicais") se tivessem vindo a verificar. A perspectiva de que o alistamento sindical, e a coesão daí adveniente, era uma componente essencial na defesa do trabalho - um pai que no período entre guerras de modo deliberado leva a filha a ver uma fila de 10 mil desempregados em Liverpool e lhe diz que quando a geração dela chegar ao poder não pode permitir que semelhante situação volte a ocorrer - fez parte desse tempo, em que o Labour, dadas as origens e o ambiente de certa utopia vivida, falava, nos comícios no erguer da nova Jerusalém (vide o hino dos trabalhistas britânicos). É interessante observar como, p.ex., o nascimento do SNS só teve a aquiescência dos médicos - consultados, aliás, expressamente e através de referendo para o efeito - porque, entre outras coisas, lhes era garantida a possibilidade de permanecerem também a trabalhar no privado, em simultâneo - um debate ainda hoje, a cada passo, presente (também entre nós; a questão da exclusividade). 
O documentário, bem entendido, surge, em 2013, nestes anos de austeridade, para reclamar um espírito e uma atitude política - um gozo apolítico de determinados bens políticos traz em gestação o putativo desaparecimento destes, para retomar Judt -, para salvar o essencial do que Beveridge tentou legar. Sendo certo que mesmo quando os donos ("tiranos", como são designados por antigos mineiros, neste documentário) foram substituídos por uma nacionalização, e mau grado as mudanças para melhor ao nível da segurança no e do trabalho, as cadeias de comando existiam, não passaram propriamente a ser os trabalhadores a determinar, antigos oponentes da nacionalização são nomeados para a Administração, e há também pessoas que passam a laborar de forma diversa porque as minas deixam de ser públicas e passam a privadas. Na década de 70, a indústria britânica fraqueja quer porque necessitava de novos investimentos que estão por realizar, quer porque a oferta mundial está sobreaquecida. Os reflexos são claros a nível político, com o regresso ao poder dos conservadores, em 1979, pela mão de Thatcher. A um período em que o colectivo primava, outro sucedia como era do indivíduo. Thatcher começa por citar Francisco de Assis, mas segue sobretudo M.Friedman. As minas desaparecem, quase por completo - o desemprego e a droga virá a prosperar entre várias comunidades. As lideranças dos sindicatos abandonam os mineiros e os portuários à sua sorte. Os correios, muito mais tarde, já sem Thatcher, passarão a fazer chegar as coisas com atraso, pois das suas entregas por dia, uma apenas restará. Os monopólios naturais são questionados. O emprego passa a ser precário. Os hospitais recorrem a empresas privadas para limpeza e outros serviços. Vários sectores são abalados. O mundo muda muito, a demografia altera-se, a ideia esbate-se, a globalização impõe-se, o crescimento económico é outro. As diferentes visões sobre a sociedade permanecem e nestes anos de repolitização Ken Loach toma parte nos debates.


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