terça-feira, 11 de abril de 2017

A ARTE DA IMPROVISAÇÃO


O dom da fé não está incrustado mecanicamente no nosso espírito, como um selo na cera. Eu quase diria que o apelo «a crer e a viver na fé» se assemelha, antes, à execução de um tema, sobre o qual devemos escrever um ensaio valioso, ou, então, a uma peça musical que devemos interpretar de forma criativa. Quanto mais complicado é o mundo onde estamos colocados, tanto menos a vida, a partir da fé, é uma simples observância de mandamentos e proibições, e tanto mais se assemelha à arte - e exige igualmente, cada vez mais, a arte exigente e rigorosa da improvisação criadora sob condições e situações anormais. Por isso, no mundo, há sempre mais formas diferentes de viver como cristão.
A graça da fé é como o talento da conhecida parábola de Jesus (Mt 25, 14-30): não o devemos sepultar, e guardar ansiosamente a sua integridade, mas negociar com ele, corajosamente, a fim de o multiplicarmos - e isso não só para fora, mediante a conversão dos outros, mas sobretudo em vista do desenvolvimento da vida de fé pessoal. Na literatura edificante clássica pode ler-se que a fé se alimenta mediante a leitura da Sagrada Escritura, com o estudo da doutrina cristã, com a celebração da liturgia e dos sacramentos, e por meio da vida de oração. Importa, todavia, acrescentar aqui que a nossa fé pessoal também se pode alimentar e aprofundar por meio de experiências quotidianas, graças à corrente de vivências na vida do trabalho, nos encontros ou a partir da literatura. Estes acontecimentos quotidianos contêm um sem-número de desafios e inspirações divinas para aquele que as consegue ouvir e interpretar.

Tomás Halík, O caminho para a profundidade, in O abandono de Deus, Paulinas, 2017, pp.128-129

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