segunda-feira, 17 de abril de 2017

A força da linguagem religiosa


Nos discursos dos políticos encontramos hoje, amiúde, uma linguagem apocalíptica, quando do adversário se faz «o grande Satã» e da sua região «o império do mal». No entanto, na terminologia religiosa está oculta uma força da qual os homens seculares não fazem, em geral, ideia alguma; a doutrina dos anjos e dos demónios tem um fundamento mais realista do que presumem os que remeteram estas forças, demasiado à pressa, para o reino das lendas e da fantasia. Certas palavras não são «apenas» palavras. A linguagem é um membro subtil, mas pode, como um fogo pequeno, incendiar uma gigantesca floresta, lembra o apóstolo Tiago. E ele acrescenta: «Também a língua é fogo» (Tg 3,6).
Há momentos de terror e momentos de beleza em que, na linguagem dos homens, seja qual for a visão que tenham sobre a questão da existência de Deus, entra espontaneamente o seu nome: «Meu Deus, que horror!», «Meu Deus, que beleza!». Não creio que, em tais momentos, tomemos o nome de Deus de forma superficial ou em vão. Para que temos esta palavra, se, com ela, não pudéssemos nomear o que tem força, o que toca a profundidade dos nossos corações e nos deixa estremecer ou nos abala?

Tomás Halík, O incrédulo em mim - meu amigo, in O abandono de Deus, pp.178-179

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