
José TOLENTINO MENDONÇA, QUANDO OS FILHOS NÃO LEEM, Expresso. A revista do
Expresso, 01. 04. 2017, 92
ENTRE PAIS E FILHOS HÁ, A ESSE NÍVEL, UM AFASTAMENTO
QUE EM OUTRAS ÉPOCAS JAMAIS OCORRERIA ENTRE GERAÇÕES TÃO PRÓXIMAS
LER É UMA ATIVIDADE INDISSOCIÁVEL DA CURIOSIDADE E DO
DESEJO. É PRECISO APRENDER A SENTI-LA COMO UMA NECESSIDADE INTERIOR
Conversava com
uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos
professores, os corredores de casa
parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. Às vezes, dão por si a olhá-lo como se olha um estranho cuja
língua e hábitos se ignoram. Não sabem como se formou o muro cultural que os separa. Veem-no horas e horas retido no ecrã
do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo
nada. Lamentam o que lhes parece ser uma dependência, mas sentem-se impotentes. Quando tentam explicar-lhe que o ecrã é uma
gaiola de vidro onde se deixa aprisionar, o filho levanta a cabeça, olha-os
também sem entendê-los, mas sem intenção de substituir o que o ocupa por um
livro qualquer. A primeira coisa de que me recordei — e que lhes disse — foi
uma frase do escritor Gianni Rodari: “O
verbo ler não suporta o imperativo.” Ler
é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a
senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até
ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um
encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho
repetido. Falta uma iniciação que seja digna desse nome. E, a esse propósito,
lembrei-lhes o que dizia Rubem Alves: que era
pela cozinha que deveríamos sempre entrar numa sala de aulas, pois ensinar é
a arte de despertar a fome em alguém.
Mas fiquei
depois a pensar na história destes amigos e como ela se liga a um dos problemas mais amplos, complexos e sofridos
das nossas sociedades: o da transmissão. A velocidade da
mutação que o progresso tecnológico impõe vai cavando uma distância cada vez
maior entre as gerações. Entre pais e filhos há, a esse nível, um afastamento
que em outras épocas jamais ocorreria entre gerações tão próximas, e precisamos
de ganhar consciência disso. Um bom começo talvez seja ativar caminhos de compreensão mútua entre adultos e
jovens/adolescentes. Os filhos precisam
de compreender melhor o mundo dos pais, aquilo que os apaixona, como é que eles
chegaram aos seus pontos de vista, como
construíram a sua linguagem e os seus códigos, como foi o encontro deles com o que consideram realmente importante.
E os pais precisam de dar tempo aos
filhos (e a si mesmos) para
compreenderem a gramática deles, sem
imediatamente comparar e corrigir tudo o que veem a partir da sua. Há
um dado objetivo: o mundo está em mudança, e isso não foi uma escolha dos filhos.
Os pais obcecados com o facto de os filhos não reproduzirem o mundo deles não
reparam no esforço duríssimo e solitário
que os filhos fazem para aprender a
funcionar com as novas regras do tempo em que despontaram. Claro que tem de
haver um equilíbrio. É verdade que
não conseguirmos passar às novas gerações um sincero amor pelo património
civilizacional e ético de que somos guardadores representará uma perda
inqualificável. Mas isso não se faz retirando os jovens do seu mundo,
mas colaborando para que eles ampliem
sempre mais a experiência que lhes é própria. Os filhos de hoje são os
primeiros nativos digitais, coisa que até aqui se desconhecia. Há
insuficiências nesta nova condição? Certamente. Hoje, por exemplo, a
comunicação humana tende a funcionar em tempos rápidos e simultâneos, sem
pausas, sem espaço concedido à espera.
Isso constitui um empobrecimento que
será preciso trabalhar. Mas há dados positivos. Um deles é a personalização: os jovens veem e
escutam o que querem, quando querem. Outro é a capacidade de expressão. As
novas gerações serão saudavelmente menos afásicas do que as que as precederam.
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