domingo, 2 de abril de 2017

AMIZADE


Celebrando os amigos, sempre.
Um concentrado exemplar de um conjunto de estudos e reflexões reunidos em Nenhum caminho será longo. Para uma teologia da amizade.

José TOLENTINO MENDONÇAOS AMIGOS, Expresso. A Revista do Expresso, n. 2317, 25. 03. 2017, 92

A AMIZADE É UMA ESPÉCIE  DE FRATERNIDADE QUE ELEGEMOS. (...) OS AMIGOS FALAM  UMA LÍNGUA SÓ DELES


NÃO HÁ OUTRAS RAZÕES  QUE EXPLIQUEM UMA AMIZADE VERDADEIRA ALÉM DESTE “PORQUE ERA ELE, PORQUE ERA EU”.  O RESTO É ACIDENTAL E NÃO TEM IMPORTÂNCIA

O que aproxima os amigos, o que os liga entre si é a descoberta de uma afinidade interior, puramente gratuita, mas suficientemente forte para fazer persistir no tempo o afeto, a cumplicidade, a relação e o cuidado. Se quisermos explicar que afinidade é essa nem sabemos.
E isto é verdade tanto na amizade anónima que, por exemplo, dois miúdos do mesmo bairro estarão agora a iniciar, como nas amizades célebres, como aquela de Montaigne por Étienne de La Boétie, que levou o primeiro a escrever: “Na amizade, as almas mesclam-se e fundem-se uma na outra em união tão absoluta que elas apagam a sutura que as juntou, de sorte a não mais a encontrarem.Se me intimam a dizer porque era seu amigo, sinto que só o posso exprimir respondendo: porque era ele, porque era eu”.Não há, portanto, outras razões que expliquem uma amizade verdadeira e duradoura além deste “porque era ele, porque era eu”. O resto é acidental e não tem importância.
A amizade é uma espécie de fraternidade que elegemos. São irmãs e irmãos para a vida; presenças de todas as horas; baluartes discretos, mas inamovíveisfaróis que prolongam os seus sinais na distânciacompanheiros de viagem, mesmo quando não estão fisicamente a nosso lado. Os amigos falam uma língua só deles: bastam meias palavras para entenderem tudoos silêncios são tão interpretáveis como as palavras; a comunicação nunca é só funcional, mas traz associada uma componente afetiva; e, muitas vezes, é nessa língua que melhor se desenha a esperança, a consolação e a alegria.
Pode ser esclarecedor recordar que o termo latino para amizade, amicitia, deriva da raiz — am, que no latim popular designa mãe (amma) e ama (mama). A etimologia da amizade reenvia-nos assim não a uma qualquer experiência casual de superfície, mas àmemória daquela afeição primeiraque estrutura silenciosamente a existência. Por isso, na sua espantosa leveza, e sem alardes,a amizade dialoga com coisas muito fundas dentro de nósfaz-nos reviver o primeiro amor com que fomos (ou não fomos) amados; toca as nossas feridas, mesmo as que não conseguimos verbalizar; transmite-nos confiança para sermos o que somos e como somos; estimula-nos a progredir vida fora. Nem todas as nossas amizades chegam a tomar consciência da extraordinária viagem interior que as mobiliza. Porém, mesmo quando a amizade parece simplesmente prosaica é este programa que realiza, pois há sempre um instante em que os verdadeiros amigos se revelam como aqueles que estão dispostos a acompanhar-nos aconteça o que acontecer.
A amizade tem a natureza real de um vínculo. Não tendo a proteção de um quadro jurídico ou de um código de obrigações,corresponde a um laço de vida que sentimos a sustentar-nos e que precisa de ser cuidado. Não esperamos nada dos nossos amigos, e essa franqueza é fundamental. Mas não esperando nada, esperamos tudo, na medida em que a sua existência nos permite existirA doçura da amizade é equivalente a este seu rigor mais infrangível: o meu amigo é este próximo que não deixa de ser distanteMas é também o distante que sabe tornar-se próximo e íntimo. Por isso, não é a posse que conta na amizade, mas a afeição pela afeiçãoa dádiva atuada no desprendimento, a presença movida pela generosidade. Aceitamos de forma natural a diferença, que não vem considerada como obstáculo à confiança, mas, pelo contrário, é condição do encontro. Os amigos, mesmo aqueles que têm a felicidade de se encontrar diariamente, sabem que são linhas paralelas destinadas a encontrar-se no infinito.

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