domingo, 2 de abril de 2017

Domingo desportivo

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1.Nuno Espírito Santo muda de onze, de sistema de jogo e de modelo de jogo a cada desafio. Para mim, trata-se de algo inédito. Já tinha visto, com António Oliveira, a não repetição de um único alinhamento inicial, ao longo de 30 (ou mais) jogos consecutivos; já assistira, com José Mourinho, a uma alternância do sistema de jogo, em função do tipo de adversário, e sua perigosidade (sobretudo, embora não exclusivamente, na segunda época no FCP); mas não me recordo de, em algum caso, simultaneamente, observar uma alteração tripla, a cada partida, mudando-se, pois, também, além dos elementos citados, o modelo de jogo - o FCP principiou na Luz em bloco baixo e em 4x3x3, mas jogara duas semanas antes, em casa, frente ao Setúbal, num 4x2x4 com bloco alto, sendo que o 4x3x3 do Bessa foi em futebol apoiado, em posse e o 4x4x2 com o Sporting, no Dragão, foi jogado com futebol direto. Houve cinco, ou seis bons jogos, durante a época (em especial, FCP-Chaves, FCP-Braga, FCP-slb, FCP-Boavista, Paços-FCP), mas não mais do que isso. NES chegou a desenhar os 60 metros em que queria que a equipa jogue, mas esses variam muito: em bloco baixo, os 60 metros acabam num Soares a muitos metros da baliza adversária; nos melhores momentos, Filipe e Marcano estão em cima do meio-campo adversário a recuperar de imediato a bola. Se resultar, dêem o Nobel ao Gaspar, chegou a escrever Nicolau Santos, noutro contexto (orçamental e de política económica, durante o consulado de Vítor Gaspar como ministro das Finanças deste país). Se a equipa tiver assimilado todo o processo, mudando, todas as jornadas, onze, sistema e modelo - mas, sobretudo, este último - creio que é caso para devolver o título (Nobel) ao treinador do FCP. Não vejo isto escrito, nem debatido - sendo, a meu ver, o mais importante na vertente futebolística do FCP - por dois motivos essenciais: em Lisboa, não conhecem o FCP (ex: fazerem de André André um grande jogador, ou de André Silva um jogador pronto para render o necessário no que a golos diz respeito, num candidato efectivo ao título, nesta época), e porque no Porto há demasiado wishfull thinking, muito querer ganhar, muita vontade (o Porto que estava numa forma brutal e ia à Luz arrasar), mas pouco discernimento.

2.No jogo frente ao V.Setúbal, NES, sabendo que a equipa iria entrar com natural ansiedade e uma pressão clara para chegar a líder do campeonato, em vez de manter uma linha de três a meio-campo que vinha a dar bons frutos, decide colocar um completamente desequilibrado 4x2x4, abdicando de um meio-campo que pausasse e pautasse o jogo (controlasse a ansiedade), e deixando os centrais livres para bombearem as bolas (que queimavam) da sua angústia - o primeiro lugar que tem que ser - para os avançados, que nem de avião lá chegariam. Nuno não percebeu o transfer entre a dimensão táctica e a psicológica/emocional, num dia muito particular, fronteira porosa que Vítor Frade teorizou - nunca tão elogiado como quando Mourinho perdeu algum brilho nos resultados -, e o actual treinador do Man.Utd corporizou. Também nisto se vê um treinador e sua dimensão
No mero plano de jogo, em tendo Couceiro apenas deixado livre Danilo, evidentemente mandaria a sagacidade avançar com Rúben Neves, melhor (do que aquele) no transporte, no passe e no remate, a isso convidando os vitorianos (do Sado). O que sucedeu, porém, foi ter-se escolhido Diogo Jota, sem capacidade física (não há um único rompedor pelos extremos, dado que Brahimi, o jogador em melhor forma, vem para dentro, e falta um 8 tipo Guarín ao meio campo, sendo ainda lacuna evidente a existência de alguém que remate bem de fora da área), para lateral direito (!), retirando o melhor assistente da época passada (Layun) após preenchimento da área com avançados talhados para o jogo aéreo (o regresso de Depoitre). 
É certo que a atitude do Setúbal foi indigna de qualquer futebol para levar a sério, uma coisa terceiro-mundista e estimulada desde fora, uma hino à manha, um compêndio do pior que se pode imaginar ser possível num campo de futebol (depois do ambiente selvagem do Bessa, o jogo frente ao Setúbal figura entre os casos de jogos que devem ser mostrados com bola vermelha no ecrã); mas NES não esteve, igualmente, à altura do exigível.
Soares, nesse jogo, deu mostras de quebra física considerável, que na Luz voltou a observar-se. Como André Silva não é efetivo, a questão dos golos fica como séria interrogação, de novo. Octávio foi como se não tivesse regressado da lesão. Corona não atingiu os níveis pré-Talocha. Danilo e Felipe, erráticos e nervosos.

3.FCP-Setúbal. Últimos minutos acompanhados em direto, em estúdio, pela sic notícias. O apresentador confidencia-nos que este tempo final está "a ser acompanhado com grande emoção em estúdio". Esperei para ver quem seriam os convidados, por certo algum ex-jogador do FCP a sofrer com o empate, ou ex-atleta do Setúbal ou de clube que beneficiasse da performance sadina; alguém das claques, talvez. E, sim, lá estava Jorge Baptista. Com Ribeiro Cristóvão e Daúto Faquirá. Agora, já percebo "a emoção em estúdio". Tempo de compensação: 7 minutos. Jorge Baptista, em pulgas na cadeira, não consegue calar a sua revolta, a gente percebe como está escandalizado com semelhante pouca-vergonha e não é apenas o sorriso irónico; não se fica pelo gesto, não vá um espectador menos atento não entender, e atira: "valia mais recomeçar o jogo!". Jorge Baptista é um dos inúmeros mártires (de Manuel José a João Querido Manha) que caíram por denunciar o sistema, e outras calamidades que tais. Claro que dizer que Baptista se mantém ininterruptamente a comentar, sempre com o mesmo espírito de isenção, honestidade intelectual e densidade de análise há mais de vinte anos, em tudo que é televisão, não é motivo para lhe retirar o título (de mártir da liberdade face à mão negra que denunciou e denuncia; em linguagem atualizada, "o caos e a anarquia"). Nunca lhe faltou a voz para denunciar Vítor Baía como "um produto de marketing" - segundo Rui Águas, este fim de semana, ao Sol, "o melhor guarda-redes português que defrontei" -, nem, agora, para pontuar os escândalos dos tempos de compensação de jogos do Porto, recusando-se, como se sabe, de resto, a assistir à segunda parte do FCP-Tondela, indignado com o que se estava a passar no Dragão. 
Um jornal como o Record, insuspeito de um mínimo de portismo, contabilizando apenas as principais paragens do FCP-Setúbal identificou 16 minutos de tempo perdido, 14 dos quais da responsabilidade do Vitória de Setúbal, incluindo 9 entradas da maca, 4.47mn perdidos pelo guarda-redes, e mais de 3' pelo lateral Vasco Fernandes. Segundo as contas deste jornal, só na primeira parte deviam ter sido concedidos 9 minutos de compensação (foram 5).
Um ex-Presidente da AG do clube da luz, ao tempo de Vale e Azevedo, protagonizava um anúncio que passava recorrentemente nas televisões, no qual o senhor exclamava: "querem matar o benfica!". Jorge Baptista, e os comunicados do sr.Luis Bernardo sr.João Gabriel  sr.Hugo Gil, são os herdeiros - os novos homens dispostos ao martírio - dessa escola exemplar. De stand up, claro.

4.É certo, como diz Jorge Costa, hoje, em OJogo, que Jonas, no clássico - fraquinho e mal jogado, ainda que com mais ocasiões, sem dúvida, para os visitados - da Luz, "encarnou o espírito do 1 de Abril" (quantos mergulhos, quantos fitas, quanto fingimento, quantas piscinas, quanta atitude anti-desportiva? E quantos amarelos?). Mas o que esperar depois de duas semanas em que se denunciaram conspirações contra o clube da luz, se boicotaram jogos e galas e em que tremiam de revolta contra a perseguição de que são alvo (lembram-se?, "querem matar o benfica!")? Xistra fez o que pôde - e, convenhamos, não pode muito. Mais três comunicados, cinco boicotes, quatro Jorge Baptistas e temos campeonato. 

5.Interessante entrevista de Rui Águas, ao Sol

Sobre Jesualdo Ferreira: "Jesualdo Ferreira foi daqueles que me conseguia explicar: 'vamos fazer isto por causa disto' (...) Depois trabalhei com ele como assistente durante três anos, conheço o trabalho dele quer enquanto atleta, quer enquanto atleta, quer enquanto colega. Trabalhou muito, refletiu muito, fez muito projeto, tem bases muito sólidas, uma experiência muito grande. Ultrapassou aquele estigma do professor de faculdade, que chega sem experiência de jogador e só com muito trabalho conseguiu a carreira que fez (...) Ter conseguido o que ele conseguiu, só com competência, muito trabalho e muito mérito". 

Sobre Eriksson: "Eriksson era uma referência mais global, mas não posso dizer que me tenha marcado pessoalmente. Era bom, mas não era 'Ah, o Eriksson era bestial!'. Não posso dizer isso (...) não foi o que mais me ensinou".

Sobre o treinador Pedro Carmona, que esteve esta época no Estoril: "Agora há pouco tempo, tivemos na I Liga um treinador que nunca treinou na vida e aparece no Estoril como treinador principal (...) Mas porquê? Com que credibilidade, com que experiência?"

Sobre a sua ida para o FCP: "havia um júnior do Sporting, que era um super-júnior, chamado Luís Figo, que ganhava mais do que eu na minha melhor altura do Benfica (...) Fui ganhar 11 vezes mais para o FCPorto".

Sobre a sua experiência no FCP: "Foi diferente, difícil, especialmente no início, mas boa, as pessoas trataram-me muito bem (...) Havia o estigma por ser ex-Benfica. Era um grupo muito fechado, atletas com história, com títulos. Vindo alguém exterior, e ainda por cima do rival, não era uma integração fácil. E há coisas que se sentem mesmo dentro de campo. Havia um ou outro que não gostava especialmente de me passar a bola - nem em treinos!"

Sobre o futebol: "O futebol para mim era como para o meu pai. Ele dizia muitas vezes que quando se estava em campo, era como se estivesse a meter o fato-macaco. E para mim era igual: era a minha profissão, o meu trabalho, mas não é que gostasse muito. Até por isso agora não jogo futebol. Faço a minha corrida sozinho, o meu exercício. Futebol só quando há um pedido especial, um jogo de caridade, a uma coisa dessas vou, mas jogar com amigos não".

Os melhores jogadores com quem jogou: "Madjer e João Vieira Pinto. Defesa? Venâncio"

6. "Mais importante do que um jogador fazer várias posições é saber fazer a mesma posição de formas diferentes. Esse é, para mim, o "jogador de top" do futebol moderno" (Luis Freitas Lobo, OJogo, 02/04/2017).

7. Mesmo quem defenda o vídeo-árbitro, e encontro-me entre esses, tem que reconhecer o que José Manuel Ribeiro lhe aponta como grande pecado: a perda da espontaneidade do festejo (a Espanha marca em França, o golo é anulado; 40 segundos depois, ah, afinal vamos festejar, foi golo; a França marca, uau, festejos, afinal não, 40 segundos depois estava fora de jogo; com graça o autor chama-lhe "orgasmo ao retardador"; mas antes isso do que vitórias alcançadas com golos com dois metros foras de jogo, ou penaltis inventados na piscina).

8. André Ventura vai ser candidato à câmara municipal de Loures. Numa entrevista ao Diário Económico, em 2015, disse que Sintra "é a única terra que me apaixona".

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