segunda-feira, 24 de abril de 2017

Jesus e a família


Talvez dos pontos mais escondidos, ou mais torpeadados/desvitalizados da mensagem de Jesus de Nazaré, tão radical então como hoje. Nesse "minha mãe e meus irmãos são os que fazem a vontade de meu Pai" quase que podemos ver prefigurado o imperativo categórico:

Diga-se o que se disser acerca deste ponto preciso, toda a gente, crente ou não, deve reconhecer que, talvez de forma bastante surpreendente, Jesus relativizava constantemente os laços familiares. Aos doze anos, aquando do episódio do templo, resiste à repreensão aparentemente bem fundada dos pais, que o admoestam pela inquietação em que os deixou, subtraindo-se durante mais de um dia à sua vigilância (cf. Lucas 2,46). Nas bodas de Caná, quando a sua mãe o informa de que está quase a faltar o vinho da festa, Ele manda-a «meter-se na sua vida», por assim dizer, apresentando, segundo João, uma justificação bastante surpreendente: a sua hora, explicaria Jesus, ainda não teria chegado (cf.João 2,4). Certo dia em que anunciavam a Jesus que «a sua mãe e os seus irmãos» estavam ali e o procuravam, tendo estes últimos chegado ao ponto de acusá-lo de ter «enlouquecido» (cf.Marcos 3,21), Jesus responde secamente: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática» (Lucas 8,21). Aliás, de um modo geral, Jesus põe-nos de sobreaviso contra qualquer sobrevalorização dos «laços de carne e sangue» em matéria de religião, de moral e de espiritualidade: porventura o discípulo do Reino não deve estar disposto a deixar casa ou campo, mas também pai e mãe, para o seguir pessoalmente, numa «comunidade» de uma ordem completamente diferente (cf.Marcos 1,16-20; 3,31-35; Lucas 14,26)?

Joseph Doré, Jesus explicado a todos, Paulinas, 2017, pp.77-78.

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