segunda-feira, 24 de abril de 2017

Jesus e Sócrates


Com efeito, faz todo o sentido pensar em Sócrates, quando se tenta compreender a verdadeira identidade de Jesus. Já tivemos ocasião de nos interrogarmos sobre aquilo que o poderia aproximar de um sábio susceptível de ser considerado um verdadeiro mestre de sabedoria. Só isso bastaria, certamente, para nos remeter para a grande figura filosófica da qual Platão, Aristóteles e muitos outros receberam a herança, e nos transmitiram a reflexão e o ensinamento. Contudo, há uma razão ainda mais específica para aproximar uma da outra, essas duas grandes figuras, às quais a nossa história cultural tanto deve: foi diante da sua própria condenação à morte que Sócrates e Jesus foram chamados a mostrar a verdadeira medida do seu empenho no discurso de sabedoria que ambos tinham mantido, cada um à sua maneira
Tendo sido ambos acusados de lançar o descrédito sobre a concepção de Deus ou do divino predominante no seu ambiente, e de se terem tornado, por isso, causa da subversão social, tanto um como outro preferiram morrer a renegarem-se a si próprios, granjeando assim a consideração pelo menos de uma parte da sua posteridade.
Contudo, isso não impede que se devam registar grandes diferenças entre essas duas prestigiosas personalidades. Por um lado, aquilo que chegou até nós do ensinamento de Sócrates traduz uma importante preocupação pelo governo político da cidade, que não se encontra de modo algum em Jesus. Por outro lado e acima de tudo, não se vê no grande filósofo de Atenas qualquer menção que pudesse dizer respeito à existência de um Deus-Pai e à esperança de salvação para os homens.
Como compreender, por fim, a enorme diferença de comportamento entre um Sócrates que continua tranquilamente o seu discurso diante dos seus discípulos, bebendo, completamente impávido, a taça da cicuta que o mataria, e um Jesus entregue aos suplícios que, numa solidão quase total, não tem medo de manifestar a sua dor física nem a sua angústia moral?

Joseph Doré, Jesus explicado a todos, Paulinas, 2017, pp.89-90

Sem comentários:

Enviar um comentário