quarta-feira, 26 de abril de 2017

Neoliberalismo (III)


Podemos assim verificar a este propósito como é perniciosa outra palavra de ordem na moda, que sugere que se deve «gerir o Estado como uma empresa». Significa que devemos tratar os seus diferentes serviços apenas na perspectiva da rentabilidade material. Já vimos que esta é apenas uma das vertentes da empresa, sendo a outra os benefícios simbólicos que daí retiram os que nela trabalham. Mas o Estado não é apenas um guiché de serviços, tem um poder simbólico próprio (...) [:] assegura a continuidade no seio de uma sociedade; os homens passam, o Estado fica; é este que pode preocupar-se com o futuro mais distante e com os valores imateriais. Para além das suas funções de regulamentação e de redistribuição, o Estado providencia um quadro à vida comum, que permite situar as nossas acções quotidianas numa relação mútua. Com a melhor vontade do mundo, as agências privadas, às quais o Estado por vezes delega as suas funções de serviço social ou de ajuda no emprego, não podem assumir esse papel simbólico ou dar esse acrescento de sentido. O objectivo do Estado não é a rentabilidade, mas o bem-estar da população. Esta diferença nos fins visados diz tanto respeito às administrações como às instituições, como à escola ou o hospital.

Tzvetan Todorov, Os efeitos do neoliberalismo, in Os inimigos íntimos da democracia, Edições 70, Lisboa, 2017, pp.133-134

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