quarta-feira, 26 de abril de 2017

Neoliberalismo (IV)


Esta prática [divisão de tarefas] tornou-se célebre a partir de inícios do século XX, com o desenvolvimento de técnicas que melhoravam o desempenho no trabalho; os termos que a designam são o taylorismo e o fordismo. Uma análise «científica» dos gestos necessários à realização de uma tarefa identifica os movimentos constitutivos da acção e o seu encadeamento óptimo, o que permite aumentar o rendimento e, assim, o lucro. Ora, já não se trata de gestos mecânicos, como os que Charlie Chaplin imortalizou em Tempos Modernos; agora, as tarefas são imateriais. Identificam-se as características de cada acto e descreve-se o seu número: as sete dimensões disto, as nove etapas daquilo, os 40 parâmetros de outra coisa. Cada um destes aspectos é apresentado como uma entidade indivisível, elementar, e tende-se a dar-lhe uma forma padronizada. O benefício deste uso é duplo: enquanto a divisão em questão é arbitrária ou até fantasiosa, é possível marcar sucessivamente as rubricas e ter assim um quadro «objectivo» de cada desempenho; e, graças a esta aparência impessoal, proclamar o carácter científico da operação (...) Esta divisão parece, por vezes, inspirada pelos jogos electrónicos (ou pelos computadores), onde toda a complexidade é reduzida a uma série de escolhas às quais se deve responder sim ou não. Se a operação for bem feita, pode imaginar-se que o ser humano seja futuramente substituído nas tarefas puramente mecânicas, fáceis de reproduzir, como as portagens das autoestradas. Mas há aqui mais que um trabalho manual: se há taylorização, diz respeito aos movimentos do espírito e não aos do corpo. Como afirmam as instruções que acompanham cada certificação, esta fixa as exigências, mas não a maneira de as satisfazer, deixando assim «muito espaço de manobra para a sua aplicação». O efeito global produzido por esta técnica é a mecanização das operações mentais: já não é preciso pensar, basta seguir um ritual. A sua racionalidade geral torna-se incompreensível para os executantes de base.

Tzvetan Todorov, Os efeitos do neoliberalismo, in Os inimigos íntimos da democracia, tradução de Pedro Elói Duarte, Edições 70, Lisboa, 2017, pp.134-136.

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