sexta-feira, 7 de abril de 2017

Periferias


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A fábrica fechou, não temos campeão de boxe (ainda que o tente; e "em Portugal quem vai para o boxe são os pobres"), e não se sai de casa do(s) pai(s). Esta, pequena, mal amanhada, nos subúrbios de Lisboa, assemelha-se, às tantas, a um albergue espanhol. Há um miúdo sem poiso certo, o pai desempregado, o avô sem sentimentalismos, a mãe, "trabalhando como uma moura", vai nas carrinhas de limpeza, de trabalho em trabalho, de relação em relação, nalgum lugar qualquer. Sobra a vida nua, sem saídas nem contemplações. Amontoam-se dívidas, por todo o país, em tempos de troika. Caem empresas como castelos de cartas. E quem queira recuperar o que investiu/emprestou. Prosperam empresas de cobranças difíceis e o boxeur, Jorge, "personagem-laboratório", experimenta ir à luta. Mas este parece ser um boxeur especial, protector em relação ao puto, são afagos e carinhos que assumem um reduto contrastante, o elemento democrático este amparo, este amor, único elemento democrático no caso, com a violência do mundo, e não consegue, inclusive, numa vez primeira, perpetrar a pancada que traga à linha o incumpridor (em Jorge há como que "uma violenta inocência", na feliz expressão de Vasco Câmara). É despejado pelo caminho, porque não há espaço para quem diga que não. Num beco impressionante - ausência de casa, prestes a perder a mulher dos seus amores - "a brasileira, a negra, a puta" -  e, mesmo, o próprio filho, decide, então, quebrar as resistências interiores e avançar para um dono de um restaurante, enchendo-o de pancada, num imenso soco que sentimos quando este último se precipita no suicídio. O Portugal do salve-se quem puder levado ao limite (como se para sobreviver - com filho e mulher - fosse preciso encomendar a alma ao diabo e matar; como se aqui, sem mais, fosse matar ou morrer). Estes homens não são desprovidos de sentimentos ("não nasceste para a conversa", puro bicho, autómato a cumprir, atiram-lhe, sem sombra de escrúpulo, os homens da empresa de cobranças difíceis que o contratam), Jorge chora a morte do homem - enjaulado, sitiado numa vida que não alcança a liberdade (independência/dignidade) que se reclamaria (o derramar de uma "tragédia colectiva", numa "tragédia individual"). O sexo, sem outro lugar que não o carro, ilustra a ausência de todas as condições, quando e sempre nas imagens passam prédios em tijolo, por concluir, e a música, em tons latino-americanos e africanos, vão sugerindo o passo de dança antes da dita macabra, o passo seguinte, a ameaça seguinte, a tareia seguinte, num carro com Marante como música de fundo, o homem musculado, cabelo mal cortado, o tipo (um Nuno Lopes exuberante) que passa pela metamorfose de nada restar que a vida a qualquer preço. São Jorge, um filme de Marco Martins.

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