quarta-feira, 19 de abril de 2017

Pinceladas sobre Portugal

Resultado de imagem para impressionismo

Comecei a perceber claramente quais eram as perguntas dos americanos sobre as crianças portuguesas. Coisas do género: porque é que os pais não se envolvem na escola; porque é que numa redação os alunos escrevem coisas poéticas e abstractas e não respondem directamente; porque é que não são disciplinados a estudar; porque é que têm pouco rigor analítico; porque é que falam todos ao mesmo tempo...(...) Fui tentando ler o que havia sobre este tema e começaram a surgir temas recorrentes na história do pensamento português: a obsessão com os Descobrimentos, depois a queda, os estrangeirados, a obsessão com a decadência, a Renascença (...) Teixeira de Pascoaes, que é um excelente poeta, mas como pensador é muito frágil. Ele tem um livro chamado "A arte de ser português" e o que lá está é muito pobre...Criou uma imagem muito redutora do que é ser português. Diz, por exemplo, que os portugueses não são um povo inteligente, somos fundamentalmente emotivos, e toda a gente acha aquilo magnífico! (...) Não há uma identidade portuguesa imutável, nós temos sido várias coisas. (...) Sim, [o passado, os Descobrimentos] é uma obsessão constante. Os portugueses têm um grande complexo de inferioridade em relação ao centro e ao norte da Europa. E a única salvação é o "também já fomos grandes!" (...) É um mito [que a saudade seja um sentimento português e intraduzível]. Abusa-se da palavra saudade. Para os portugueses tudo é saudade, até há saudades do futuro! E não é verdade que seja intraduzível, os outros também têm saudade. Os ingleses expressam-na com "I'm missing", "I'm longing" ou "homesick", por exemplo (...) Vejo uma diferença abissal em relação ao que conheci nos anos 60; não há comparação possível. As pessoas queixam-se, mas, apesar de todos os problemas que tem, Portugal é hoje um país aberto, com gente imensamente capaz, informada, empreendedora (...) É um país bonito, que tem uma variedade geográfica muito interessante, desde o Gerês à zona das Beiras, à Arrábida, à paisagem do Alentejo, o Douro...A nossa geografia e a nossa arquitectura não são grandiosas, mas são graciosas. Felizmente, graças aos apoios europeus, preservou-se o centro de muitas cidades e vilas históricas (...) Adoro passear por este Portugal encantador, faço-o muitas vezes (...) Sente-se uma harmonia, uma paz e uma serenidade que não se encontra noutros sítios (...) Irrita-me o barulho que se faz à mesa nos jantares, não se consegue conversar. Há pouca curiosidade em conversar sobre assuntos mais sérios, dificilmente se dialoga. Depois, as pessoas aqui sabem tudo sobre o mundo, têm sempre lições e soluções para todas as questões. Fala-se muito e ouve-se pouco (...) Quando discuto ideias, discuto-as a sério. Em Portugal, acabo a contar anedotas e histórias porque não dá para muito mais. Em vez de me irritar, passa-se um serão agradável entre amigos.

Onésimo Teotónio Almeida, Expresso, Revista, Edição nº2320, 15-04-2017, entrevista concedida a Nélson Marques, pp.57-62

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