segunda-feira, 3 de abril de 2017

PROFUNDIDADE


Uma das interpretações do termo latino para religião, religio, tenta derivar esta palavra de re-legere, reler. À luz da fé aprendemos a ler entre as linhas. Nisso consiste, na minha opinião, uma das diferenças principais entre a atitude vital da fé e a da descrença. A fé concebe a vida como diálogo, a descrença, pelo contrário, como monólogo. A fé pode acalmar-se, escutar, perguntar - e também responder: viver de forma respondente e responsável
O seu oposto, isto é, a incredulidade existencial (que, por vezes, também se encontra em pessoas com uma firma convicção religiosa), indica uma vida que se concebe como um monólogo: se um homem se toma a sério apenas a si mesmo, se tiver em vista a imposição do seu eu, a sua autorrealização, se não está disponível nem é capaz de escutar e compreender os outros, de prescindir dos seus juízos precipitados, de buscar um sentido mais profundo dos acontecimentos, ou de apresentar a si mesmo questões críticas.
A diferença entre fé existencial e descrença pode ainda caracterizar-se de outro modo: de um lado, uma vida que está aberta à profundidade, uma vida desde a profundidade; do outro, ao invés, uma vida no banco de areia, na água pouco profunda, na superfície. Quem professa e adere à fé e, simultaneamente, vive ainda superficialmente nas águas pouco profundas tem, porventura, uma convicção religiosa, mas não é um homem de fé, no sentido em que eu o entendo, e, segundo a minha convicção, como Jesus o entendia. 
«Quem sabe da profundidade sabe também de Deus», dizia Paul Tillich. (...) A vida à superfície significa consumir persistentemente, tentar «ocupar-se» de algo sem cessar, significa ter uma relação com os outros seres humanos como se eles fossem uma mercadoria, que se valoriza do ponto de vista da utilidade para os intentos pessoais, como se eles fossem apenas a matéria-prima utilizável para a satisfação das necessidades próprias. A vida à superfície é fomentada pela omnipresente indústria do entretenimento, que constitui o substituto da alegria. A indústria do entretenimento sorve e traga sub-repticiamente os domínios da vida uns após outros e transforma-os numa mercadoria barata: o político populista e o pregador popular, nos megashows religiosos, tornam-se animadores de espectáculo, que degradam cada vez mais um gosto já profundamente rebaixado.
A vida consiste na distracção, na vagabundagem de um divertimento para o seguinte e de uma mercadoria para outra. É o contrário de uma vida contemplativa, que consiste no deter-se na profundidade. A cultura do entretenimento de massas e o círculo diabólico do consumo permanente não deixam, no mundo e na vida que os produzem, nenhum lugar para a solidão contemplativa nem sequer para uma parte realmente comunitária. Em vez disso geram «solidão na massa»
Os pregadores da cultura da vida espiritual buscaram sempre a solidão. Um conhecimento importante, aduzido sobretudo pela filosofia dialógica do século XX, consiste em que nós devemos buscar a profundidade não só na solidão, mas também nas relações. Martin Buber referiu dois tipos qualitativamente diferentes de uma relação: a relação do eu a um ele ou isso - é indiferente se se trata de um ser humano ou da natureza - tende para a objectivação e a manipulação. A relação a um tu inclui a atenção perante este, exclui a manipulação e a exploração. O respeito perante o «incondicionado» torna possível no espaço de uma relação, a cada tu possível, olhar e vislumbrar o «horizonte do Tu absoluto».
O pensar em Deus, assere Emmanuel Lévinas, desponta em mim quando olho para o rosto do outro. O rosto do outro, na sua nudez e vulnerabilidade, expressa o mandamento divino «Não matarás». Algo de semelhante reflecte-se também no hino litúrgico da Quinta-Feira Santa: Ubi caritas et amor, Deus ibi est, «onde houver caridade e amor, aí está Deus». Onde o amor impera diante dos seres humanos, aí acontece Deus. A profundidade, o amor, a responsabilidade e Deus, a vida em Deus, são, de certo modo, expressões diferentes da mesma realidade.

Tomás Halík, Fé: vida desde a profundidade, in Tomás Halík e Anselm Grun, O abandono de Deus, Paulinas, 2017, pp.129-131

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