quinta-feira, 13 de abril de 2017

Sapiens


Entre os humanos, ganha quem cooperar melhor (aqueles que alcançarem uma cooperação mais flexível). Para se pôr em marcha uma revolução, não interessa tanto o número de seguidores, mas daqueles que estão dispostos a uma colaboração (organização) efectiva.
"A investigação indica que os sapiens não podem ter relações íntimas (sejam hostis ou amorosas) com mais de 150 indivíduos" (p.160) e "os sapiens não se comportam segunda uma fria lógica matemática, mas segundo uma quente lógica social" (p.161). Somos regidos pelas emoções. Todavia, também é certo, reinos e impérios funcionaram bem/foram estáveis apesar das grandes desigualdades sociais neles presentes. Porquê? "Tais ameaças e promessas costumam sortir efeito ao criar hierarquias humanas estáveis e redes de cooperação massiva, sempre e quando as pessoas acreditem que reflectem as leis inevitáveis da natureza ou as ordens divinas de Deus, e não simplesmente caprichos humanos"(p.163). Aliás, "toda a cooperação humana a grande escala baseia-se na nossa crença em ordens imaginadas" (pp-163-164). Neste sentido, pode, mesmo dizer-se que não há, já, apenas, a realidade objectiva e a realidade subjectiva, mas há, ainda, a realidade inter-subjectiva (p.165). "O sentido cria-se quando muitas pessoas entretecem conjuntamente uma rede comum de histórias" (p.166), considera Noah Harari. Os gatos apenas conseguem imaginar coisas que existem no mundo.

Assim,a)  animais: (alcançam um) Mundo Exterior (árvores, rios)
                                (possuem)        Mundo Interior (medos, desejos)

          b) humanos: (alcançam um) Mundo Exterior (árvores, rios)
                                (possuem)        Mundo Interior (medos, desejos)
                               (emergem em)  Relatos/Histórias/Mitos

Há 70 mil anos, dá-se a revolução cognitiva, entre os humanos - que começam a falar de coisas que só existiam na sua imaginação (p.177). A Revolução Agrícola, que surgiu há 12 mil anos, reforçou as redes intersubjectivas. Os agricultores acreditavam em histórias sobre grandes deuses e construíam templos dedicados ao seu deus favorito [relatos: nações, dinheiro, deuses]. Há 6 mil anos, na Suméria, os templos não eram apenas centros de adoração, mas os mais importantes focos políticos e económicos (p.178). Há 5 mil anos, os sumérios inventaram a escrita e o dinheiro. Ao pé do Nilo, deu-se a fusão rei-sacerdote com deus para criar uma deidade vivente: o faraó. Um deus real e não um representante (se bem que muito mais um faraó imaginário, que vivia na cabeça das pessoas, que propriamente o faraó real). Até à invenção da escrita, os relatos não podiam ser demasiado complexos, dada a limitada capacidade de memorização e processamento do cérebro humano. A escrita permitirá o surgimento da burocracia, regras a observar que estão para lá do subjectivo. Foi assim, pelo carácter sagrado do escrito (a obedecer) que diplomatas portugueses, franceses ou espanhóis aceitaram os vistos que durante 10 dias e até "cair de esgotamento" Aristides Sousa Mendes emitiu, contra vontade do governo português de então. "Sousa Mendes, armado com pouco mais do que um selo de goma, foi responsável da maior operação de resgate efectuada por um só indivíduo durante o Holocausto" (escreve, p.187, em jeito de homenagem, Yuval Noah Harari (Professor de História na Universidade Hebraica de Jerusalém, Doutorado em Oxford).
Os sistemas de educação de massas da época industrial foram aqueles que começaram a empregar notas precisas com regularidade - de aí se passando, posteriormente, de algo que era instrumental para algo que se tornou num fim (um homem que pode ser um bom respondedor de exames, ainda que não um grande conhecedor de uma área de estudo). 
"A história não é uma narração única, mas milhares de narrações alternativas" (p.200). "A ficção não é má; é vital" (p.200)

[Yuval Noah Harari, Homo Deus, pp.152-202]


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