segunda-feira, 3 de abril de 2017

Sem ilusões


O prémio a Frederico Lourenço, no entanto, não nos deve iludir. O mundo sobre o qual ele estuda, escreve e traduz é cada vez menos presente no espaço público do saber, onde cada vez menos se sabe sobre o mundo clássico, e, embora nunca se soubesse muito comparado com os países da Reforma, também cada vez menos se sabe sobre a Bíblia. Não nos devemos iludir quanto ao valor que a escola, a universidade, a sociedade, a comunicação – já para não falar das chamadas “redes sociais” – e a política hoje dão às humanidades e aos estudos clássicos. Esse valor é quase nulo. Pelo contrário, é entendido como um conhecimento inútil, que justifica o corte de financiamentos, a colocação no último lugar da fila, quando não da extinção curricular, das disciplinas do Latim e do Grego, que conseguem ficar atrás da Filosofia. E não é só este cerco às humanidades clássicas — em bom rigor a todas as humanidades — é a sua desvalorização pública implícita em muito documento, declaração política, e em acto. O mais flagrante exemplo é a defesa de um Acordo Ortográfico que se pretende impor manu militari, e que corta as raízes ortográficas do português no latim. Já para não falar das invectivas contra o conhecimento daquele “comissário” jovem que melhor do que ninguém explica a atitude do extinto Governo PSD-CDS para com estas matérias. E quem escreve ist, considera que se é tanto ignorante se não se souber o que é o princípio de Arquimedes, ou a segunda lei da termodinâmica, como desconhecer quem era Polifemo ou Salomão, ou Judite ou o Bom Samaritano.

(...)

Não. Os conhecimentos não se substituem uns aos outros, complementam-se. E o que falta, faz sempre falta. Várias vezes me interrogo como é possível atirar alunos do secundário para ler Os Maias, ou seja que obra for de Eça, ou Camilo, ou Camões, ou Gil Vicente, ou Nemésio, ou Jorge de Sena, ou seja lá que obra literária que é suposto ler-se no secundário e nos anos de escolaridade obrigatória, sem saber nada de mitologia grega ou da Bíblia, já para não falar do rico vocabulário do português que não cabe numa mensagem do Twitter. Não sei, aliás, por que se pensa nos nossos dias que “não cabe” na cabeça das pessoas muita coisa. É irónico que a modernidade nos forneça discos rígidos com terabites de espaço, e pareça encolher-nos as cabeças. Voltando a Frederico Lourenço, podemos de facto viver confortavelmente, em particular se herdarmos alguma coisa, e ter sucesso, sem saber nada da Odisseia, ou da Antologia Grega, saber quem era Argos ou Tifão, desconhecer tudo de Esparta e Atenas, de Sófocles e Tucídides ou nunca ter lido uma “vida” de Plutarco (por falar nisso, uma leitura obrigatória durante mais de um milénio para todos os que quisessem ter uma vida pública…) ou dos relatos em que um profeta apocalíptico chamado Jesus anunciava o fim do mundo e o caminho da “salvação”. Podemos. Mas somos mais pobres por isso. Antigamente isto chamava-se “experiência indirecta”, não substituía a directa, mas ajudava muito. E, numa curva da vida, em vez de ir a correr a um praticante de qualquer terapia arcana, ou à bruxa – o que, para a nova ignorância, não é tão diferente como isso – sempre se podia saber que outros homens e mulheres, que vivem no mundo dos “antigos”, conhecem alguma coisa sobre a doença ou a morte, sobre a felicidade e a curiosidade, sobre a esperança e o destino inelutável, sobre a heroicidade e a cobardia, sobre a traição e a lealdade, sobre a honra e a vergonha, sobre a intriga, a moda e o sexo. As suas palavras tinham toda a força, porque eram muitas vezes as primeiras que eram escritas sobre as mais humanas das atitudes, e estão no terreno que pisamos, mesmo que não o saibamos. Mas vale muito mais saber.

José Pacheco Pereira, O nó górdio, Público, 03/04/2017

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