domingo, 23 de abril de 2017

"Um povo deicida?"


Três razões, pelo menos, nos obrigam a contrapor a isso uma negação formal. Em primeiro lugar, não se pode acusar aqui um povo inteiro, nem a nível dos acontecimentos em causa, nem - e muito menos - ainda depois dos vinte séculos que nos separam dos mesmos! Apenas a classe sacerdotal ao mais alto nível pode ter estado envolvida nessa questão [condenação de Jesus de Nazaré à morte]; os escribas mencionados no relato evangélico pouco tiveram a ver com isso, e, seja como for, os gritos da populaça de que por vezes se fala parecem provir mais do extravasamento emocional de uma multidão excitada do que da expressão racional de uma tomada de posição responsável. Segunda consideração: não devemos perder de vista que tudo o que diz respeito ao conjunto das opiniões e atitudes a respeito de Jesus tem a ver com os judeus, visto que, como é óbvio, ainda não há cristãos separados do Judaísmo. Por fim, e certamente acima de tudo, devemos reconhecer toda a responsabilidade do próprio Jesus pela sua própria condenação. Voltaremos a isso, mas foi precisamente o seu comportamento em relação ao judaísmo da sua época, e de modo especial a respeito do Templo, com o eventual risco adicional de perturbações sociais ou até sociopolíticas, que suscitou à sua volta tomadas de posição antagónicas, que deviam conduzir à sua condenação.
Da parte dos chefes e do Sinédrio (supremo tribunal dos judeus, ao qual pertencia o sumo sacerdote), não se pode certamente negar um envolvimento judeu; contudo, este não tomou a forma de um julgamento, contrariamente à opinião durante muito tempo transmitida. Tratou-se, antes, de uma denúncia junto dos representantes do poder romano, que a partir de então foram os únicos a conduzir, em relação a Jesus, aquilo que podemos considerar um processo de condenação. A denúncia diante da instância política pelos chefes da nação judaica não deixou de ser duplamente hábil. Por um lado, ela revelava a sua vontade de não ultrapassarem a incapacidade jurídica de actuar judicialmente em que os colocava a ocupação romana. Por outro lado, punha em destaque as perturbações a nível social e político que poderiam gerar os comportamentos e as tomas de posição de Jesus. Em suma, se houve prisão, julgamento e condenação, tudo isso só se deveu formalmente ao poder de ocupação romano. (...) Assim como a condenação de Jesus foi romana, a sua execução também o foi. Em vez de recorrer à lapidação, como se teria feito segundo a tradição judaica, decidiu-se recorrer à crucifixão, segundo o uso romano. (...) Pesquisas arqueológicas recentes forneceram elementos fiáveis em relação ao local do julgamento conduzido por Pilatos - o pretório já evocado -, o itinerário seguido por Jesus através da cidade (aquilo a que tradicionalmente se chama «caminho da cruz», ou «via sacra») e, por fim, o próprio local da crucifixão (o Gólgota, de uma palavra aramaica que significa «crânio», em referência à forma de rochedo situado fora da cidade, sobre o qual teve lugar a crucifixão).

Joseph Doré, Jesus explicado a todos, Paulinas, 2017, pp.39-44.

P.S.: Joseph Doré é arcebispo emérito de Estrasburgo, teólogo e um dos maiores especialistas franceses em cristologia. Foi membro da Comissão Teológica Internacional, do Conselho Pontifício para a Cultura e da Comissão Doutrinal da Conferência Episcopal Francesa.

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