sexta-feira, 21 de abril de 2017

Vidas (III)

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Foi menino de coro, ajudou à missa, colaborou na realização de cerimónias fúnebres, ponderou seguir o sacerdócio e mantém uma "obsessão espiritual". É, ainda hoje, um católico que, tendo passado e pensado em outros caminhos, se encontrou melhor na casa de partida - "interessa-me como as pessoas percebem Deus ou, por assim dizer, captam o mundo do intangível (...) O meu caminho foi, e é, o catolicismo. Depois de muitos anos em que pensei noutras coisas, experimentei este e aquele, encontro-me melhor como católico. Creio nos princípios do catolicismo" (p.23) -, ainda que desafiando as formas mais tradicionais ou convencionais de pertença - "sou um católico praticante? (...) Na verdade, praticar, é fazer seja lá o que for, de bom ou de mau, e reflectir sobre isso. É este o desafio. De todo o modo, o conforto e a profunda impressão do catolicismo, quando eu era jovem...diria que foi sempre uma referência" (p.24). As políticas da instituição não o interessam, nem é um doutor da Igreja para explicar o mistério da Trindade, mas "a ideia de ressurreição, a ideia da encarnação, a poderosa mensagem de compaixão e amor...aí está a chave! Os sacramentos, quando se consegue aproximar deles, experienciá-los, ajudam-nos a estar próximos de Deus" (p.23-24).
Martin Scorsese nasceu num bairro problemático, no qual a violência era um dado - e o realizador, que chegou a passar por uma fase de auto-destruição da qual se recompôs, acredita que essa realidade (violenta) não pode, pura e simplesmente, ser expurgada da natureza humana. Pelo menos, por agora.
Considera Touro enraivecido o filme mais próximo de Silêncio e Departed - entre inimigos, o mais afastado. Estava há três décadas à procura dos actores, do tempo certo para a realização deste filme, do qual possui guião desde 1989. Pensou fazer uma obra sobre o que significa ser santo, hoje - "um assunto que sempre me perseguiu: o que é um santo? A minha ideia era fazer uma série de filmes sobre diversos santos, mesmo sobre alguns santos que talvez nunca tivessem existido, que são apenas figuras folclóricas. Mas de onde vêm estas figuras? Isto leva-nos a épocas anteriores às judeo-cristãs. Porque há necessidade daquele tipo de intercessão? Porque se descobre que São Cristóvão, o santo padroeiro dos viajantes, nunca existiu? Quando viajamos, estamos em perigo e, portanto, é preciso que haja alguma coisa ou alguém que nos proteja. E o que dizer dos verdadeiros santos? Que relação têm eles com as pessoas, em geral, e do ponto de vista espiritual? Como é a sua vida quotidiana? Em que consiste? (...) Rossellini confrontava-se com a questão de se ser santo no mundo moderno. Há figuras como Francisco, Catarina, Teresa de Liseux (sobre esta, Alain Cavalier fez um filme) (...) A verdadeira essência destes - compaixão, amor, uma vida como imitação de Cristo - e a interrogação sobre como se vive uma vida semelhante no mundo moderno é o que Rossellini enfrentava naquela película [Europa 51']. (...) No fim de Europa 51, a personagem de Irene encontra uma grande paz consigo própria e sente-se muito útil. Foi-o também o seu Francisco, arauto de Deus, o mais belo filme sobre um santo que já vi" (pp.35-37). 
Para os cenários do filme que este ano saiu para as salas de cinema pensou e foi a diferentes locais, incluindo o Japão (local dos acontecimentos narrados no livro de Shusako Endo). Neste último caso, as filmagens ficariam a um preço proibitivo e a escolha recaiu sobre Taiwan. O filme sobre Jesus Cristo de que mais gosta, e que considera melhor é O Evangelho Segundo São Mateus, de Pasolini.
Numa entrevista notável a António Spadaro, Scorsese, o homem que leu (alguma) Flannery O'Connor, fala da graça mesmo nos ambientes mais hostis e abala-se ao problema do sofrimento: "A graça é alguma coisa que acontece ao longo da vida. Vem quando não se espera. É claro que estou a dizer isto como alguém que nunca passou pela guerra ou pela tortura ou pela ocupação. Nunca fui provado desse modo. Obviamente, houve pessoas que foram postas à prova, como Jacques Lusseyran, o líder cego da resistência francesa, que foi mandado para Buchenwald e manteve vivo o espírito de resistência entre os seus companheiros prisioneiros: de facto, durante muitos anos, tentámos fazer um filme baseado no seu diário, Et la lumiére fut. E também Dietrich Bonhoeffer e Primo Levi foram capazes de encontrar maneira de ajudar os outros. Não estou a dizer que o seu exemplo fornece algum tipo de resposta definitiva à pergunta sobre onde estava Deus, enquanto milhões de pessoas eram chacinadas sistematicamente. Mas existiram, exprimiram actos extraordinários de coragem e de compaixão, e recordamo-los como luzes nas trevas" (p.25) E, ainda sobre a graça, "Carl Jung tinha afixado uma inscrição latina na padieira da porta da sua casa, na Suiça: Vocatus atque non vocatus deus aderit. Chamado ou não, Deus estará presente. Isto diz tudo" (p.29).
Em um dos momentos maiores da conversa, Scorsese faz-nos lembrar Bernanos: "mas, se houver realmente o chamamento, o que fazer para enfrentar o orgulho pessoal? Se se for capaz de celebrar um rito em que se produz a transubstanciação, então, sim, é-se muito especial" (p.38).
Do mais surpreendente, talvez, a identificação, "um pouco", do personagem Kichijiro, de Silêncio, com Jesus. "Mas penso que a mais fascinante e intrigante de todas as personagens é Kichijiro. Por vezes, quando estávamos rodando as cenas, pensei: «Talvez ele seja 'um pouco' Jesus. Em Mateus, Jesus diz: "Sempre que fizestes estas coisas a um só destes meus irmãos mais pequeninos, a mim as fizestes" (...) Naturalmente, Kichijiro é constantemente débil e causa continuamente danos a si mesmo e a muitos outros, entre os quais a sua família. Mas depois, no fim, quem está próximo de Rodrigues? Kichijiro. Descobrimos que ele foi o grande mestre de Rodrigues, o seu mentor. O seu guru, se o podemos dizer. E é por isso que, no fim, Rodrigues lhe agradece" (pp.38-39).
Scorsese refere-se, finalmente, ao filme A palavra, "tão puro, tão belo, tão perturbador" (p.49) que apenas o viu uma vez ("não posso voltar a vê-lo").

Este livro-entrevista vem acompanhado de um comentário teológico ao livro de Endo, da autoria de Ferdinando Castelli. Entre outras interpelações, consagra um passo a Judas, que importa revisitar. "Mas o homem será realmente livre diante das escolhas da sua existência? Artífice do seu destino? Tomemos, por exemplo, Kichijiro, que segue o missionário como um cão. Dir-se-ia que ele é a abjecção em pessoa, por aquela acumulação, na sua alma, de traições, avidezes e de pusilanimidades. É um reflexo de Judas; só que ele trai, não por dinheiro, mas por medo. (...) Kichijiro como Judas. Um trai a comunidade cristã como o outro traiu Cristo. Traiu? (...) Desde sempre que as interrogações do romance atormentam o homem. Escritores de alto nível tentaram enfrentá-las para alcançar algum vislumbre. Dostoievsky, sobretudo nos Irmãos Karamazov. Shusaku Endo, mais do que dissertar, quer interrogar. O que faltou a Judas para se salvar? Até que ponto somos responsáveis pelas nossas escolhas? Um homem predeterminado ao pecado pode salvar-se? Deus pode abandonar um pecador a si mesmo? Não há dúvida de que o coração do homem é um mistério" (pp.69-71).

E no posfácio Adolfo Nicólas refere-se à sensibilidade japonesa: "Os japoneses são das pessoas mais musicais do mundo. O crítico musical inglês Ivan Hewett afirma que «o centro nevrálgico da música clássica, nos primeiros anos do século XXI», não são Viena, Berlim, Londres ou Nova Iorque, mas Tóquio, por causa da sua «devoção apaixonada» à música clássica, demonstrada pelo facto de esta cidade ter mais salas de concerto do que qualquer grande cidade do mundo, e oito orquestras, mais uma do que Berlim! «O público ouve num silêncio que só se pode descrever como fervoroso», escreve Hewett. «Durante um concerto em Tóquio - continua - o meu vizinho de casa sentava-se perfeitamente imóvel, com os olhos fechados, durante as três horas da Paixão segundo Mateus, de Bach, com somente um pequeno movimento rítmico do mendinho, para mostrar que ainda estava vivo» (The Telegraph, 20 de Maio de 2006).
O que tem tudo isto a ver com a missão? Creio que a religião é, antes de tudo, muito mais semelhante a este «sentido musical» do que a um sistema racional de ensinamentos e explicações. Antes de tudo, a religião comporta uma sensibilidade, uma abertura às dimensões da transcendência, da profundidade, da gratuitidade e da beleza que as nossas experiências humanas subentendem. Mas, naturalmente, trata-se de uma sensibilidade que hoje é ameaçada por uma mentalidade meramente económica ou materialista, que impede de atingir dimensões mais profundas da realidade" (pp.78-79)

No Prefácio, já Antonio Monda notara que "é deveras sintomático que, nos mesmos dias em que se exibe um filme [como Silêncio] que faz perguntas fundamentais (existe um Deus que nos ama e nos salva? O que é a fé? A existência terrena terá sentido se não contemplar a transcendental?), o museu Guggenheim [de Nova Iorque] tenha proposto, com grande pompa, a exposição de uma sanita de ouro - uma exibição para a qual se usam termos como «evento» e «revolução» (p.7). Sobre Silêncio, "um dos maiores críticos americanos, Stuart Klawans, definiu o filme como uma «louca mas muitíssimo bem conseguida mistura de Spartacus e Diário de um pároco de aldeia" (p.8). Numa palavra, "não há motivo para que nos admiremos de que um filme, que nos propõe temas tão elevados e absorventes, e desafia abertamente a secularização do mundo, tenha sido acolhido com o incómodo que se experimenta relativamente a quem nos obriga a reflectir, fazendo perguntas que nos põem em crise (...) Um dos poucos filmes por que ainda vale a pena ir ao cinema" (pp.11-12)

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