segunda-feira, 15 de maio de 2017

Âmbitos de inscrição


O pior que pode acontecer é olhar para o Papa Francisco como um ovni. Claro que para compreendê-lo é essencial ler os Evangelhos ou a poética radical de Francisco de Assis. Mas não se entende Francisco sem o conceito de biopolítica de Foulcault, e da sua denúncia de que, no neoliberalismo, a liberdade produz-se negando-se; sem o retrato da vida nua perante a arbitrariedade dos poderes soberanos de que fala Giorgio Agamben; sem a dialéctica communitas/immunitas que os escritos de Roberto Esposito iluminam, onde a imunidade surge como o fechamento numa identidade da qual se exclui os outros, organizando em torno a ela os múltiplos cordões imunitários que conhecemos; sem o desejo de comunidade de que fala Zygmunt Bauman numa modernidade que tende a liquidificar todas as identidades; sem o alerta de Michael Burawoy: quando o mercado é imposto como única solução para todos os problemas humanos, denunciar a ditadura do mercado torna-se a condição necessária para afirmar a esperança. O Papa não fala sozinho e isso reforça a sua voz.

José Tolentino de Mendonça, E - A revista do Expresso, nº2324, 13 de Maio de 2017, p.95

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