segunda-feira, 15 de maio de 2017

Da complexidade de um perfil (de um) "terrorista"


A propósito da tentativa de uma melhor compreensão dos factores envolvidos no mais recente atentado terrorista perpetrado em Londres, e no seu protagonista, Khalid Masood, um texto de Jason Burke que me parece relevar do melhor que o jornalismo pode oferecer: muito informado, com dados de investigação, problematizando várias hipóteses, integrando a complexidade na sua aproximação ao fenómeno, sem simplismos, inteligente.


Pode não ser tão simples como parece. Há especialistas que contestam o conceito de radicalização. O FBI fala em “caminhos para a violência”, realçando que o percurso de cada indivíduo até se tornar num criminoso extremista é único e só seu. Há debates acesos sobre o papel da ideologia, das circunstâncias sociais e dos traços de personalidade individuais e da doença mental. Os analistas preferem falar de “factores de risco” em vez de “causas”.
Apesar de tudo, algumas coisas são claras. Uma é a idade. Masood tinha 52 anos, o que é raro. Há dez anos, a idade média dos atacantes no Ocidente andava pelos 29. Agora aproxima-se dos 25. Em França, quase dois mil adolescentes foram radicalizados (pelo Daesh?), um aumento de 121% entre 2015 e 2016.
Um motivo possível é a demografia. Há muitos imigrantes de segunda geração que chegaram à idade adulta. Outro é a utilização intensiva das redes sociais nos omnipresentes smartphones e a consequente exposição à propaganda. Uma terceira razão é o apelo específico do Daesh, que promete aventura, camaradagem, dinheiro e até oportunidades sexuais, o que contrasta com o ascetismo de grupos radicais anteriores, como a Al-Qaeda. Isto ajuda a explicar a razão pela qual a proporção de simpatizantes terroristas com perfis criminosos também cresceu. Antigos activistas do Daesh na Europa descrevem a atracção do grupo como a de um gangue, onde a violência e a misoginia se transformam em “resistência” e “redenção” para pecadores errantes. A mensagem distorcida do grupo, carente de argumentos teológicos ou políticos que não sejam simples e distorcidos, seduz, apesar de tudo, quem não tenha bagagem intelectual nem inclinação para debater, discutir ou aprender.
Masood foi condenado por atos de violência, o último dos quais em 2003. Parece ter-se convertido ao Islão por essa altura. Os conversos representam uma percentagem desproporcionalmente alta das pessoas envolvidas em atentados no Ocidente. No Reino Unido, entre 2001 e 2013, 12% dos “jihadistas caseiros” eram convertidos, categoria em que cabe menos de 4% da população muçulmana no seu todo. Nos Estados Unidos, a fatia de conversos terroristas era, em 2015, de 40%, contra 23% entre todos os muçulmanos. Terão os conversos algo a provar? Com um saber cultural e teológico superficial, serão mais vulneráveis a interpretações extremistas de ensinamentos e dogmas religiosos.
Depois vem a questão da identidade. Masood, nascido Adrian Russel Elms, cresceu numa aldeia de Kent, em que só havia dois homens pretos, filho de uma mãe adolescente branca e solteira. Muita da sua vida terá ficado marcada por tensões étnicas. Também isto ajuda a explicar a atracção, não apenas da conversão ao Islão como do extremismo.
Já em 2008, os serviços de segurança franceses sublinhavam as “identidades divididas” como factor importante por detrás do extremismo (…)
Masood não parece ter alguma vez tentado sair do Reino Unido para lutar pela sua causa. Entre 2004 e 2009, contudo, terá passado pela Arábia Saudita, onde ensinou inglês. Uma viagem ao mundo muçulmano é outra característica comum no percurso dos atacantes extremistas. A maioria deles passa uns meses a estudar e não a leccionar, língua árabe e religião islâmica. Muitos, provavelmente incluindo Masood, são doutrinados em correntes mais rigorosas, intolerantes e puritanas de uma fé que raramente questionam, dado o seu conhecimento limitado do Islão. (…)
Um fator revelado por estudos e notícias recentes sobre violência radical é o papel de pares, amigos e família. O terrorismo é uma atividade social, e não obra de solitários enlouquecidos. No ano passado, a investigação apurou que 45% dos radicais islâmicos discutiam a sua inspiração e possíveis acções com parentes e amigos.
É frequente haver irmãos envolvidos: em Paris, em Novembro de 2015, e em Boston, em 2013. Um casal levou a cabo um atentado na Califórnia. Amigos chegados unem esforços, como os convertidos de origem nigeriana que mataram o soldado Lee Rigby, em Londres, há quatro anos. Um estudo feito pelo FBI, em 2009, mostrou que há uma média de três a 14 “vizinhos” em cada ataque. Ou seja, são pessoas que provavelmente sabiam o que ia acontecer mas não o impedir (…)
Há, finalmente, a velocidade com que se percorre o “caminho para a violência”. As autoridades britânicas admitiram uma radicalização rápida, mas muitos peritos têm dúvidas. Lenta ou veloz, poucos dos que resvalam para o extremismo acordam de um dia e decidem que querem ser assassinos a soldo do Daesh. O processo é gradual, ainda que possa ser rápido. (…) Antigos radicais relatam que estavam longe de imaginar o seu putativo destino na fase inicial do percurso rumo à violência.
Quando Masood alugou, um ou dois dias antes a viatura que utilizou no ataque, estava decidido a agir há dias, semanas ou meses? A humilhação de ter tido de abandonar a casa em que vivia com a família terá sido a gota de água que o levou a avançar? Que dizia nas mensagens do WhatsApp minutos antes do atentado? E a quem?
É da natureza humana tentar interpretar o desconhecido criando narrativas lineares que fornecem respostas e explicações. É isto que a investigação à radicalização de Masood espera apurar. Sabemos, porém, que nem a nossa própria vida é simples e linear. Apesar da predisposição para a violência e o crime. Masood era, como a maioria dos assassinos, um homem vulgar.
Vamos ter algumas respostas às nossas perguntas. Quem, no entanto, espera resolver de forma definitiva o enigma de um homem nascido há 52 anos no Kent – que se torna assassino e morre no centro da capital britânica -, arrisca-se a uma desilusão.

Jason Burke, The Observer, 25-03-2017, publicado na edição de Maio do Courrier Internacional, nº255, com tradução de Mafalda Almeida

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