domingo, 14 de maio de 2017

Diferente



Um texto de MEC, no Público, fez-me ir ao youtube ver a canção que ganhara o festival português (coisa que não fazia há uns 20 anos). Mas, para além da canção Amar pelos dois (unanimemente tida como simples e harmoniosa, mas com interpretação carregada de genuinidade e emoção), foi a entrevista que Salvador Sobral deu a Vítor Gonçalves, há quase um mês, na RTP3 (Grande Entrevista) que me convenceu a interessar-me pelo resultado (e até pela data) do euro-festival: ali estava o homem que percebendo que os Ídolos eram um puro programa de entretenimento em que a música não era o que contava, abandonara o programa; o rapaz que dedicando-se à Psicologia do Desporto se dirigiu a Maiorca, onde se encontrava o melhor professor na área, mas percebendo como a música lhe permitia viver, em actuações nocturnas, em bares, preferiu seguir aquela que compreendeu ser a sua paixão/vocação; dando-se conta de que não bastava o jeito/talento, quis educar-se e, sendo exigente consigo, foi para uma das melhores escolas de jazz (europeias), rumando a Barcelona (e aí se preparando afincadamente); regressa a Portugal e, tendo um amigo professor universitário de Filosofia, vai às aulas dele por exclusiva curiosidade intelectual, seguindo, de imediato, também, para outras matérias daquela faculdade (confessando ser preguiçoso e não ter interesse em fazer propriamente as cadeiras e seu regime de avaliação); aceitou o desafio da irmã para ir ao festival da canção, mas sem um excessivo entusiasmo com o formato; tendo ganho, na selecção realizada em Portugal, e apurando-se para o euro-festival, não passou a ver tal evento como o supra-sumo da música (que evidentemente não é), mas, para regressar a outro texto de MEC, foi super-profissional (recusando a altivez perante um festival que artisticamente não é o seu sonho, e ao qual, nos moldes habituais, não reconhece qualidade), sem cair na idolatria do mesmo (numa certa superioridade face ao seu próprio apuramento para a final, como se viu na descontracção e na recusa de qualquer soberba em tal ocasião, como nas que lhe vimos posteriormente). 
Um dos jornais europeus de referência, comentando a meia-final do euro-festival, e sobre Salvador Sobral, dizia, com bom humor, que um país levar a concurso uma música artística era aquilo a que, tecnicamente, se poderia chamar batota. 
Na casa em que vive, a tv está avariada e só uma aplicação de telemóvel do colega a consegue colocar a funcionar. Praticamente, não vê tv. E, quando vai a casa do pai, em estando a dar um bom jogo, fica a acompanhá-lo, Porque, diz, o futebol, quando bem jogado, é arte. Das histórias em Maiorca, do pagamento (materno) das propinas, da ida às aulas na universidade por interesse intelectual e furtando-se ao pagamento, um genuíno com cabeça. 
Esta noite, só escutei a canção de Salvador Sobral e a italiana - que ele indicara como aquela de que gostara (as outras muito festivaleiras, assumia, como nada lhe dizendo estas). Mas segui a votação (ignorava por completo o voto do público neste certame e parece-me muito "ar do tempo", e muito discutível, apesar de discutíveis serem, igualmente, as votações políticas de illo tempore). E, em suma, o puto mereceu ganhar.

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