domingo, 28 de maio de 2017

Passos Perdidos


A recepção inclui um beberete que mete croquetes e tudo. As recriminações pela não paragem numa estação de serviço encerram-se. Os trabalhos, nas salas de comissões, estão prestes a iniciar-se. O antigo convento dominicano, que na passagem da infância para a adolescência me parecera enorme, oferece-se agora como uma casa imediatamente familiar. A generalidade dos deputados, é segunda-feira, encontra-se em contacto com o eleitorado.  Os adolescentes, face a tal informação, ainda não colocam um sorriso irónico-trocista dos adultos, esses cínicos (ou, pior, populistas, na nomenclatura do tempo). Parece que às sextas o contacto - com o eleitorado, ou "as populações", recorde-se - recomeça. O passeio pelos corredores dá-se com a sensação de visita à cidade em manhã de Domingo: sem tráfego, com tudo em sossego, dando para observar à larga cada coisa. Claro: há uns bons de uns parlamentares que são convocados a trabalhos-extra, moderando os infantes. Estamos entusiasmados e expectantes por escutar os nossos, várias vezes nossos: de distrito, de cidade, de escola, de afecto. Eles estarão atentos às intervenções dos colegas de outros "círculos" e manifestarão o desejo e a necessidade de uma acrescida eloquência, em próxima ocasião. Querem voltar. São do melhor, em termos intelectuais e não cognitivos, e interrogo-me se estas iniciativas não encontrariam modo de chegar a outros públicos (digamos assim). Vital Moreira falava sobre chegar a cidadãos que não se interessariam habitualmente por política, a propósito dos Conselhos Municipais da Juventude, ou dos Orçamentos Participativos (cito de cor, um artigo, já com vários anos, no Público). Mas Pérez-Reverte teria aqui uma boa surpresa, no interior da sua elaboração sobre a escola: eis a elite tratada como tal. Mas como a natureza humana não fica suspensa mesmo entre os melhores espíritos, a noite tende a ser uma preocupação adulta, e não me faltam relatos de quem fica nos corredores, toda a madrugada, para evitar aproximações mais conspícuas. Entendo, perdoem-me, que seria faltar ao respeito ao Fernando e à Almerinda e, mesmo não dormindo nada, não saio do quarto depois da meia-noite. Está um vento agreste para ficar na marina. E bons guias, só no Parlamento: certamente, uma especialista em História, muito preparada, grande capacidade de expressão, leva-nos aos assentos dos deputados (a falta que fazem no Rosas...) e explica toda a simbólica (bem como a mecânica) da sala (e seus trabalhos). Passaremos, do hemiciclo, para uma sala contígua, onde se realizam diferentes encontros, conferências, recepções a dignitários de outros países, mas na qual perpassa, nas pinturas, uma certa ideia (colonialista) de Portugal (de outrora), nem sempre bem aceite pelos convidados (africanos, nomeadamente) ao longo dos anos. Entre o politicamente incorrecto com respeito da história, e o revisionismo que retirasse os tapetes da parede, optou-se pelo primeiro. Fez-se bem. Ainda antes de abalarmos a Lisboa, explicara a colega Ricardina como estudara, muitas horas, muitos dias, naquele espaço, quando ainda na faculdade, dado que a Torre do Tombo ainda funcionava, então, naquele edifício - pelo que a informação de que tal se verificara até 1990 apenas acrescentou ao que já sabia. À hora do lanche, dirigimo-nos à cafetaria dos funcionários, com a bica pelos 35 cêntimos. Mal empregues, resmunga uma colega. O café não vale nada. Já o mesmo não pode dizer-se do pastel de nata, em qualquer caso a preço convidativo. Os trabalhos das comissões prolongam-se até cerca das 19 horas. Na fase de identificar as perguntas a colocar aos "verdadeiros" deputados, eis o ar do tempo: a questão de Almaraz; a laicidade perdida na tolerância de ponto ao Papa; as questões "de género". Seguimos para a sala do Senado, onde um espectáculo lúdico nos espera. Quem consultasse o site do S.Carlos perceberia que não era dia de espectáculos. Ora, como se sabe, quem quer ópera, vai ao S. Carlos, Pelo que, aquilo a que tivemos direito, apesar de estarmos no Senado, foi a um divertimento ligeiro. As meninges estariam cansadas das comissões, ou não se confia suficientemente nelas (ou, então ainda, seria demasiado caro confiar). Está concluído o dia inicial das jornadas, com o buffet que adivinho melhor bebericado na sopa e nas sobremesas, do que no arroz de tomate já pouco malandrinho e nas batatas já frias a acompanhar a carne de porco à alentejana. As crianças dão-me razão. Talvez, concedo, os vegan tenham sorte com a sorte de saladas (que se apresenta vigorosa). Ainda não aderi, falha minha.
A viagem a caminho do campus (de hospedagem) delata o desígnio emancipador e convivial que move tantos: na adolescência a sociabilidade ainda não é coisa superada (mas Houellebecq fala para adultos). Sei que não dormiram, fazem gestos para esconder o que se passa do professor, mas acho que têm direito a um território sagrado. Só deles. Sem que me imiscua. Não aparentam ter bebido (em excesso). 
Antes das 10h, já o quiosque parlamentar tem The New York Times do próprio dia (o que me leva a indagar acerca do "onde" da sua impressão). Na capa, a coluna de Paul Krugman sobre a esquerda, para continuar no interior do jornal. Levo o periódico ao Fernando, afinal o jornal não existe em Vila Real, é um dos mais prestigiados do planeta e o menino, que se quer cidadão do mundo, merece-o. Verifico, igualmente, que pelos escaparates está a revista Le Point e fico a pensar nos motivos que a tornaram célebre, entre nós, na última década e pico. Na sala do Senado, Eduardo Ferro Rodrigues lembra as vítimas de Manchester, de que muitos petizes por certo mal se haviam apercebido. Alexandre Quintanilha - que dará uma conferência de imprensa aos "estudantes-jornalistas" - fará uma resenha breve da história do Parlamentarismo. Dos grupos parlamentares, suceder-se-ão os deputados, incluindo pelo nosso círculo, que assistem (e respondem) às questões dos mais jovens. Joana Mortágua é a que se veste e fala de um modo mais próximo dos estudantes, recebendo, aliás, a maior salva de palmas dos presentes quando diz que o tipo de educação que preconiza implica mais ensino como aquele que estão a ter "nestes dois dias", com muita cidadania e ensino por projectos. Heloísa Apolónia abrirá, da parte da tarde, o debate quinzenal com o PM com o problema da central nuclear de Almaraz - uma preocupação que, de resto, lhe havia sido colocada pelos meninos de Castelo Branco (que a sentem com particular acuidade). Assisti, pela primeira vez, a um destes debates quinzenais, depois de devidamente despojado de telemóvel, chaves, moedas. Fico-me pelo cartão de cidadão, após uma volta ao quarteirão, entrando pelo lado oposto do edifício, após a obrigatória passagem pelos souvenirs para as crianças, na livraria oficial da AR. Constato, agora in loco, o artificialismo da coisa, os deputados que chegam atrasados e saem ao fim da primeira intervenção de uma das bancadas, os que conversam sem ligarem pevide ao que está a ser dito, aos que não olham para outra coisa que não o computador que têm à frente, ou Duarte Marques que berra, constantemente, da última fila, ao pior estilo do café. Estão uns pequeninos colegiais que vieram com Assunção Cristas, mas que de imediato abandonarão as galerias (ainda sem idade para aqueles preparos). Na tv, ouve-se muito melhor (o som de cada intervenção, isolado o ruído incomodativo circundante).
A hora é de ponta, a saída de Lisboa é, portanto, demorada, e isso permite escutar histórias deliciosas de colegas que por ali andaram há duas ou três décadas. A malta é mesmo aplicada e, verdade, juro, trouxe os manuais de História, de Inglês e de Físico-Química. Haverá tempo para, entre eles, estudarem pelo caminho, repartindo as tarefas entre quem explica as fórmulas e quem expõe a matéria histórica - que, no caso, se encontra no pós-II Guerra Mundial, com algum enfoque pátrio. A coisa durará uma hora, posto o que o cenário de sociabilidade regressa em todo o seu esplendor (pelo que os pequenos ensaios guardados para leitura entre as viagens não conhecem grande sucesso). Na rádio, noto, pelo menos três vezes, que Amar pelos dois continua a surfar a onda. É preciso aguentar, pacientemente, a paragem de 60 minutos em Viseu, por causa das horas consecutivas de condução do motorista (o meu colega diz que deviam ter ido dois chauffeur, mas assim a empresa de camionagem ganha mais). Os nossos despedem-se fraternalmente de cada colega que é deixado na sua terra. Ensaiam os sotaques que adquiriram noite dentro, sem discriminações: do nordeste transmontano ao açoriano. Vestem-se pouco formalmente, ao contrário de outros colegas que no dia do Senado trajaram de fato e gravata. A maioria, porém, foi de ténis. Chegámos a caminho da meia-noite. Amanhã é outro dia, há teste depois das oito da matina, mas neste caso a preocupação não é a maior: "o Inglês é fácil, são muitas séries, muitos filmes...", dizem-me a despedir. As colegas de Moimenta da Beira aconselham visita aquela terra: "tem lá um shooopping..."...

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