sexta-feira, 19 de maio de 2017

Fé cristã


O papel da mediação cultural e antropológica, que compete à Teologia, implica ultrapassar uma visão milagreira e interventiva do agir de Deus, baseada numa interpretação fundamentalista dos textos bíblicos e das experiências místicas. O modo de interpretar os fenómenos místicos não pode ir contra os conhecimentos científicos e deve atender à sensibilidade cultural contemporânea. A presença espiritual de Maria, participante da humanidade glorificada de Jesus, não reduz Maria a uma personagem do passado. Não pode significar, contudo, o regresso a uma visão mariana de privilégios e excepções que a fazem assemelhar a uma figura mitológica e cair no risco de deusa-mãe de outras religiões e culturas. As visões têm sentido à luz de Maria «assunta aos céus, que reflecte a glória do Ressuscitado. Por isso pode trazer esperança àqueles que querem ultrapassar as estreitas paredes do mundo e sair da tristeza e da angústia» [Bueno de la Fuente]. A presença espiritual de Maria, que os pastorinhos vestem e põem a falar português, tem o seu valor à luz da manifestação de Cristo Ressuscitado. As visões são olhares humanos, a partir do olhar de Deus sobre a nossa realidade, para provocar e mover a Humanidade a corresponder ao maior bem, criador de esperança no futuro.

Carlos A. Moreira Azevedo, Fátima. Das visões dos pastorinhos à visão cristã, Esfera dos Livros, Lisboa, 2017, pp.74-75

P.S.: Carlos Moreira Azevedo é Bispo-Delegado do Conselho Pontifício da Cultura no Vaticano

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