quinta-feira, 25 de maio de 2017

Na "carne do mundo"


Na noite de terça-feira, em Braga, uma reputada teóloga contemporânea, Maria Clara Bingemer, falou da experiência de Deus no mundo de hoje. Eis alguns apontamentos dos incisos que nos deixou:

Se, vista de longe, a teologia da libertação (que emerge da vontade latino-americana de não ser uma teologia-reflexo [da teologia europeia], mas uma teologia-fonte) surge (a seguir ao Concílio Vaticano II, a partir da Conferência de Medellín) como um monolito, observada à luz dos ensinamentos de Maria Clara Bingemer - na noite de terça-feira, em Braga -, ela reveste-se, em realidade, de quatro correntes: a) uma, mais afinada com as categorias marxistas; b) outra, que recorre a elas mas não se afina com aqueles princípios; c) uma terceira, que se afirma a partir da cultura (a “teologia do povo”) que hoje estará em grande evidência, com o Papa Francisco (a “teologia da Argentina”); d) finalmente, uma teologia mais hierárquica, “própria” dos Bispos.

Uma das crises que hoje vivemos é uma crise ética. Fala-se, constantemente, de ética, mas não daquela que acompanha a humanidade desde a Antiguidade (que propõe um sistema de valores, que configura a vida, etc.). Nas épocas pré-modernas, a moral era teológica (ou seja, a moral era Deus), sendo a fé atribuidora da virtude. O homem estava ao serviço de Deus e não da humanidade – que ficava em um segundo plano. Com a modernidade, assiste-se a uma desvinculação da moral da religião. O indivíduo passou a ser soberano e o direito e não o dever passou a posição preponderante. Moral moderna realça a autonomia individual, e entende o dever para consigo mesmo (auto-aperfeiçoamento). O trabalho, por exemplo, deixa de ser visto como uma obrigação a exercer face a uma sociedade, mas um modo de autorrealização, de enriquecer, de fazer uma carreira interessante. Não existe uma mística do trabalho que enobreça e implique transformar o mundo.

A segunda crise é cultural. Uma crise de incerteza, insegurança. Insegurança a propósito de uma posição sólida na sociedade, ou, então, de uma identidade clara. Vivemos num tempo que já não tem mais certezas ou verdades absolutas. Um tempo em que nada é categoricamente afirmado e em que, por vezes, temos a noção de viver sob um chão movediço. Uma enorme pluralidade e diversidade ladeiam-nos (com a queda das grandes narrativas, da utopia), com uma fraca institucionalização das diferenças. Fugacidade. Maleabilidade. Tudo é passageiro (nunca apegados a nenhuma vinculação para que possamos imediatamente abandonar qualquer ligação que tenhamos estabelecido).

A terceira crise é religiosa. A pós-modernidade, é certo, tem, ainda, uma sede do espiritual. Recuperou o Absoluto que os “mestres da suspeita” (Freud, Marx, Nietzsche) haviam colocado em causa, na modernidade. Mas esse Absoluto que foi resgatado não tem rosto, não tem contorno, nem a espessura da instituição. E, muitas vezes, até sem as características do Deus pessoal que o cristianismo sempre apresentou. O ser humano “está nesse estado de questão”. As pessoas não estão sem fé, nem deixam de procurar. Nos censos de 2010, no Brasil, aumentam aqueles que se dizem “sem religião”, mas isso não significa que deixem de prosseguir aquela busca (mas ligando deus a “uma força”, “uma energia”, um “fluído”; não uma pessoa). Charles Taylor (na sua obra monumental “Era secular”) criou a categoria dos “buscadores” (não por acaso). Cada vez mais, estes parecem prosperar. Assim, neste panorama, Deus parece ser um conceito basilar (numa época em que a religião sofre reconfigurações). Ele continua a dar sentido à vida e a colocar em crise todos os demais “sentidos”. Deus atrai, intriga e instiga. Mas será que Ele é hoje sentido, pelos nossos contemporâneos (em particular, as gerações mais jovens) como uma necessidade, sem a qual não podem viver? Como o ar que se respira, ou a água que se bebe? Ou Deus é, antes, hoje por hoje, percebido/experimentado como gratuidade, como estando (para os seus buscadores) na ordem do desejo (e não tanto na ordem da necessidade)? Será que, hoje, esse mistério de Deus não mobiliza mais como desejo (do que a vontade), e não se revela do reverso da história, a partir do lugar da insignificância e da vulnerabilidade (e não da razão e do conceito)?

Karl Rahner, jesuíta, o grande teólogo do Vaticano II, cujo pensamento revolucionou a teologia no século XX e que continua uma referência quando se pretende discutir teologia em profundidade, pode/deve ser um dos nossos mestres no tatear por este tempo. “O Homem, quer o afirme expressamente, ou não o afirme, quer reprima esta verdade ou a deixe aflorar à superfície, acha-se sempre exposto, em sua existência espiritual, a um mistério santo que constitui o fundamento da sua existência. Este mistério é o mais primitivo, o mais evidente mas, por isso, também o mais oculto e ignorado, um mistério que fala enquanto guarda silêncio, que está aí enquanto que ausente nos reduz às nossas próprias fronteiras. E tudo isso porquê? Como horizonte inexprimível e inexpressado, abrange e sustenta sem cessar o pequeno círculo da nossa existência quotidiana, cognitiva e ativa, o conhecimento da realidade e o ato da liberdade, nós o chamamos Deus”, afirma o teólogo alemão. Uma síntese enxuta e excelente – diz Bingemer. 

Dizer as coisas antigas de uma maneira nova. A partir da experiência concreta das pessoas. A teologia de Rahner não era sempre, ou necessariamente por causa de (por Deus ser tão bondoso, a vida ser tão bela), mas apesar de (de Deus fazer silêncio, de experienciarmos também a negatividade). Deus, mistério inabarcável, mas que deixa encontrar-Se no coração da realidade, na carne do mundo. “O mistério eterno me envolve e penetra. O mistério infinito que é completamente diferente dos resquícios juntados do que por enquanto ainda não se sabe, ainda não se experimentou. O mistério que em sua infinita densidade está no mais exterior e no mais íntimo das mil realidades fragmentadas que chamamos de mundo da nossa experiência. Esse mistério está aí, manifesta-se ao silenciar, deixa serenamente falar aqueles que dizem que falar Dele só produz palavrório sem sentido. No momento em que não se ama, em atitude de adoração, esse mistério que tudo envolve silenciosamente, Ele torna-Se um escândalo”. Rahner (que morreu em 1984) dirá que no dia em que Deus deixar de existir como palavra nos dicionários e nas bibliotecas, não era Deus que tinha deixado de Existir: era o Homem que teria deixado de ser humano.

Um outro teólogo a ter em conta, este, agora, mexicano, jovem é Carlos Mendonza Alvarez, dominicano. Doutorado em Paris e Friburgo. Procura pensar Deus a partir dos escombros da situação fragmentária pós-moderna. Segundo o autor, atualmente dá-se o colapso de imagens e seguranças (no que ao religioso diz respeito). Mas persiste, em todo o caso, a deidade: o fundo sem fundo de todo o real. O ser superabundante da sabedoria divina que mantém todo o real com o seu sopro vital. Estamos perante um Deus abscôndito que deve ser procurado no reverso da história, isto é, nas vítimas. Deus é inefável porque as narrativas e discursos anteriores já não podem dar conta da sua presença. Há que buscar novas palavras no submundo dos pobres, das vítimas que perdoam e resgatam os seus verdugos e permitem uma esperança discreta para a criação e a história. Derrubaram-se muitos ídolos como a evidência científica, o mercado, a religião e há um colapso do sagrado violento. Há agora a oportunidade de compreender Paulo ao falar do “Deus desconhecido” e conhecê-lo a partir da cruz. Para isso, o teólogo tem que estar ancorado no clamor do inocente. Do lado das vítimas. Para falar de Deus como amor assimétrico, não recíproco, de dolorosa gratuitidade. Só assim se recupera um discurso kenótico (de esvaziamento). “Recuperando a harmonia da razão com os seus limites próprios, e a fé como conhecimento silencioso do real, sem competir pela predominância de uma sobre a outra é possível que sociedades secularizadas e laicas deem espaço a expressões espirituais não tão religiosas mas que humanizem as pessoas e respeitem o cosmos. Na América Latina, isso significa dialogar com as outras sabedorias e tradições. Na Europa e na América implica dialogar com a secularidade e o laicismo. Trata-se de um cenário plural, onde adquire importância renovada as sabedorias dos povos originários, mas também as novas identidades que vão conquistando o seu lugar no espaço público”.


Paulo VI escrevera na Evangelii Nuntiandi que a sociedade de hoje escuta mais as testemunhas do que os mestres. E se houve os mestres é porque são testemunhas. São elas que têm maior conhecimento de Deus na sua densidade. Elas estão dilaceradas, entre o seu ideal que quer testemunhar e o indivíduo que ela sabe que (que) ela é (miserável, pequeno, limitado). Dilacerada entre o mundo de que dá testemunho e o mundo que não quer saber dessa realidade testemunhada. O homem exaltado, glorioso, da modernidade, no entanto, foi esmagado pelas ideologias totalitárias [do séc.XX: nazismo, comunismo e seus subprodutos]. O homem surgiu humilhado daqui, aparentemente sem confiança (em si), submetido à globalização, ao mercado, ao prazer. Entre o ser humano exaltado, glorificado, e o humilhado, a testemunha é um humano fragilizado, vulnerável. Alguém que desistiu, lucidamente, dos sonhos de omnipotência, mas não abdicou de sua capacidade de iniciativa. E a originalidade, e o valor inestimável da testemunha, para os seus contemporâneos e a história da humanidade é o conteúdo da sua narrativa coincidir com a sua pessoa. Por isso, a testemunha é sempre incómoda e embaraçosa. Ela traz consigo algo excessivo, o fundamento da condição humana como tal, denunciando tudo o que visa diminui-la/apoucá-la. Teologicamente, a testemunha é alguém que experimentou o Absoluto. E fez dessa experiência o princípio norteador da sua vida. A sua narrativa enxerta-se na volatilidade, na efemeridade do mundo. Fazendo da verdade a sua biografia e ousando expor-se à tentativa de uma nova lógica e de uma nova linguagem. Portador de uma verdade que não pode reduzir-se a uma opinião. Os místicos serão essas testemunhas. Mística e ética têm uma aliança íntima (para dizer Deus). Se a mística é o encontro profundo, comunhão com o Divino, então Este não se encontra fora das coisas deste mundo. Pois Ele deixa-se encontrar em todas as coisas. Então todo o agir humano está consagrado. O místico é apaixonado por Deus mas quer participar em todas as experiências do humano. Os teólogos percebem que não há falar sobre Deus, hoje, que não seja precedido pela compaixão, pelo sofrimento pela vulnerabilidade (das “vítimas do progresso”). Uma fé que justifica a injustiça e o sofrimento do mundo e não protesta contra eles é desumana. Maria Clara Bingemer deu o exemplo de Etty Hillesum como uma mística por excelência. 

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