domingo, 21 de maio de 2017

O futuro do trabalho (discutido em Mateus)


Ontem, o Francisco, nos seus 13 anos hiper-responsáveis, dizia-me que uma licenciada em arqueologia tinha garantido, há dias, à mãe que esse era curso que não tinha saída e estava condenado ao fracasso. Logo ele, um dos últimos resistentes entre os melhores alunos, pensando seguir Humanidades, em vista a essa formação (arqueológica). Dentro de dois anos, está convencido neste instante, seguirá, afinal tecnologias. Na tarde deste Sábado, em Mateus, na última sessão do micro-ciclo dedicado às utopias, desta feita sobre O futuro do trabalho, Pedro Santa Clara Gomes deu nota de um estudo de dois Professores de Oxford sobre profissões em vias de extinção. Com 99% de probabilidades, o desaparecimento dos vendedores de seguros, seguidos, com 98% de hipóteses de darem o último apito, os árbitros de desportos e 97% os caixas de supermercados. Inversamente, no fundo da tabela, com quase 100% de possibilidades estatísticas de sobrevivência, os arqueólogos (0,7% de probabilidades de se extinguirem, de acordo com o estudo citado). Há sempre mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa filosofia - e, pior, a doxa - pensa. Num outro reputado trabalho, porém, realizado em 2004, mencionado por este Professor e Economista, garantia-se que, se havia tarefa insubstituível, era a de conduzir camiões. Pois bem, sabemos, pela Google e pela Tesla - com novidades da Bosch (Braga) para breve - que nada mais falso. E 2004 foi ontem (à partida, aproximações bem menos susceptíveis de engano face às horas de trabalho previstas, por Keynes, em meados de 30, do séc.XX, para esta altura...que andariam pelas 15 horas de trabalho por semana). Quer isto dizer que mudanças ocorrerão que não tínhamos previsto e projectos que alvitramos que não se realizarão; empregos inesperados surgirão (desenhadores de mundo virtuais?). Pedro Santa Clara Gomes leu e citou Yuval Noah Harari, pelo que se mostrou otimista quanto à situação do mundo: nunca estivemos tão bem, considerou. E, sem citar aquele autor, prosseguiu, em realidade, com ele, e um texto por ele assinado, recentemente, no The Guardian, onde prognosticou um refúgio, para os deserdados e desocupados das mutações tecnológicas, em vidas cada vez mais virtualizadas (ou, no seu ateísmo, a continuação dessa virtualidade dado regras como "não comer porco" serem tributárias de jogos imaginários, por códigos não electrónicos). Tomar drogas, viver ligados a máquinas, jogar jogos todos os dias? Assim o futuro? 
O trabalho, seja como for, e como apontado por uma das intervenientes na plateia, pode deixar de ter a centralidade que hoje adquire na existência. Pode ter importância, mas em uma dimensão um tanto mais secundarizada. Hoje por hoje, e ao almoço, em tendo que nos apresentar, (ainda) tendemos a explicar-nos principiando pela atividade (profissional) que realizamos. Quando (e se, como não raros estudos têm sublinhado) a massa de desempregados (estruturais) for enorme (em virtude da automação), então essa centralidade desaparecerá. Uma socióloga francesa escreveu, recentemente, um ensaio (publicado na Gulbenkian) no qual defende que o trabalho não é uma realidade antropológica e que o homem primitivo, bem como as classes mais abastadas, em séculos pretéritos não trabalharam e, mais importante, não se incomodaram (ou suicidaram) com isso. Teresa Albuquerque, de modo espirituoso, observou que hoje o que dá status, ao contrário das classes ociosas do século XVIII que reivindicavam o seu tempo livre, é não ter tempo. Isso hoje é que é socialmente bem visto. 
Entre aqueles que, numa tarde muito agradável seguiram as conferências-debate, em Mateus, esteve José Gil que perguntou por uma tecnologia que influencie a política (uma tecnologia que diga a melhor forma de governar, p.ex.; algo que mataria a democracia, como notou Álvaro Vasconcelos, sentado a seu lado).

(cont.)

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