quarta-feira, 31 de maio de 2017

O que dizemos, quando dizemos "coragem política"?


Em face da falta de corroboração das teorias de austeridade, não parece avisado, para não dizer justo, impor um sofrimento às pessoas no curto prazo em prol de benefícios futuros não verificados pela ciência económica. Como muito bem disse Tony Judt (conhecido historiador social-democrata inglês falecido em 2010): "Uma coisa é dizer eu estou disposto a sofrer agora por um futuro não observado possivelmente melhor. É uma coisa bem diferente autorizar o sofrimento de outros em nome dessa hipótese não verificável. Isto, na minha opinião, é o pecado intelectual do país. Aprovar julgamento sobre o destino dos outros em nome do seu futuro tal como você o vê, um futuro em que você não investirá, mas em relação ao qual reclama informação perfeita e exclusiva". Vale a pena lembrar que os políticos que o fazem não podem ser apelidados de corajosos. Citando ainda Tony Judt: "Os Pobres votam em número muito menor do que todos os outros. Não há por isso grande risco em penalizá-los: qual é a 'dificuldade' dessas escolhas? Hoje em dia ficamos orgulhosos ao ser suficientemente duros para infligir dor nos outros. Se ainda vigorasse um costume antigo, pelo qual ser duro consistia em suportar a dor, e não em impô-la, talvez devêssemos pensar duas vezes antes de preferir com tanta insensibilidade a [suposta] eficiência à compaixão". (...)
E independentemente das condições políticas e da imposição da Troika, há que reconhecer que o que devia ter sido aplicado nos países em crise deveria ter sido uma política orçamental expansionista que suportasse a política monetária também expansionista que, apesar das hesitações e por vezes inflexões, acabou por ser seguida pelo BCE. Portanto, pelo menos no que diz respeito à política fiscal deveria ter-se feito exactamente o contrário do que foi implementado. (...) Ajustamento orçamental em situação de crise grave (e em especial numa situação de armadilha de liquidez), e crescimento não são compatíveis. No que respeita ao curto prazo até os teóricos da austeridade expansionista como Roberto Perotti o acabaram por reconhecer. A única forma de sair da crise é adiar as medidas de ajustamento orçamental para o futuro (conceito de backload austerity), o que parece estar a ganhar adeptos, inclusive no seio do FMI, e dar prioridade ao estabelecimento da procura agregada. (...)
Muitas vezes ouvimos dizer que isso da política expansionista é muito bonito, mas de onde vem o dinheiro para gastar? Ora em primeiro lugar, devemos reconhecer que as políticas de austeridade aplicadas em recessão são muito lesivas da economia tanto no curto como no longo prazo, independentemente das imposições externas. Uma má política é uma má política quer possamos ou não escapar dela. Em segundo lugar, é nosso dever apresentar alternativas de política económica, exequíveis e alicerçadas na teoria económica. Este é o ponto de partida para influenciar positivamente o pensamento económico sobre o assunto e alterar o curso das políticas. (...) É importante que se saiba que dispomos de recursos, de instrumentos e de conhecimento que nos teria permitido ultrapassar a crise muito mais rapidamente, sem causar tanto sofrimento às pessoas, e sem colocar em causa o potencial de crescimento da nossa economia. Longe de serem uma excepção, as crises acabam por ser a norma, não só nos países em vias de desenvolvimento como também nos países mais desenvolvidos. (...) Por isso, a surpresa sobre esta crise financeira é precisamente o facto de ela não ter sido antecipada na sua intensidade e extensão pela generalidade dos economistas, observadores, políticos e investidores. Realmente, o primeiro grande erro dos governos e dos Bancos Centrais foi terem subestimado a dimensão e interconectividade da crise, e terem começado a agir tarde de mais. 
Para sermos justos, alguns economistas ficaram conhecidos por terem emitido sinais de alarme antes do despoletar da crise em Agosto de 2007. De entre eles destacam-se Nouriel Roubini, Raghuran Rajan e Robert Schiller (este último galardoado com o Prémio Nobel da Economia em 2013). Não obstante, o foco da chamada de atenção centrou-se nos desequilíbrios macroeconómicos, nos inadequados sistemas de compensação dos executivos que levaram os gestores a assumirem demasiado risco, e na existência de uma bolha no mercado imobiliário dos EUA, respectivamente, estando todos eles longe de prever uma falha sistémica do sistema financeiro global. 

Paulo Mota, Austeridade expansionista. Como matar uma ideia zombie?, Almedina, Coimbra, 2017, pp.22-25

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