sexta-feira, 5 de maio de 2017

Pano de fundo francês

Resultado de imagem para frança

A ascensão de Marine Le Pen em França inscreve-se, em alguns aspectos, na vaga de populismo contestatário que se abateu sobre as democracias liberais ocidentais.
O receio de que desapareçam postos de trabalho devido à automatização e à desindustrialização, uma reação negativa à imigração, o descrédito das elites políticas que só olham para os seus interesses, o efeito da ampliação da propaganda através das redes sociais - eis os factores que, tendo favorecido os movimentos populistas noutros países, chegam agora a França.
O aspecto mais diferenciador no que se refere à Frente Nacional [FN, extrema-direita] prende-se, talvez, com a linha de fratura que este voto revela, entre as grandes metrópoles do país - multiculturais e abertas à globalização - e os espaços intermédios, onde áreas  de cultivo se vergam à expansão comercial tentacular e vigora um sentimento de abandono.
Entre 2006 e 2011, o número de empregos aumentou em média 5%, em 13 grandes cidades francesas - Lyon, Marselha, Toulouse, Lille, Bordéus, Nantes, Nice, Estrasburgo, Rennes, Grenoble, Ruão, Montpellier e Toulon. No mesmo período, no conjunto do território francês, o desemprego progredia.
Estas cidades dinâmicas, com centros pedonais elegantes, plataformas tecnológicas e restaurantes requintados, votam à esquerda (Lyon, Nantes, Rennes), nos ecologistas (Grenoble) ou no centro-direita (Bordéus). Contudo, nem por isso estão ao abrigo do sentimento generalizado de saturação que invadiu a França. (...) No entanto, estão cercadas por aquilo que o geógrafo Christophe Guilluy chama "a França periférica".
É o mundo das fábricas a fechar, como a de roupa interior Lejaby, em Bellegarde-sur-Valserine, no sopé dos Alpes, ou a [de electrodomésticos] Moulinex de Alençon, no Sul da Normandia. É um mundo onde os Uber, os sistemas de bicicletas partilhadas e os espaços de trabalho partilhados (coorking) não existem, e onde as pessoas têm a sensação de ter sido esquecidas pela globalização. É um mundo onde a FN está a ganhar terreno.
O primeiro bastião da FN era no Sul, onde o seu fundador e pai de Marine, Jean-Marie Le Pen, tinha congregado o apoio dos colonos franceses vindos da Argélia nos anos 60, após a independência. Depois, o partido implantou-se nas regiões industriais do Norte e do Leste, onde conquistou os votos de protesto que anteriormente iam para os socialistas ou para os comunistas.
Os mapas do demógrafo Hervé Le Bras mostram que a FN dispõe agora de uma terceira base de apoio nas zonas periféricas definidas por Christophe Guilluy: para lá dos subúrbios das grandes cidades, mas não necessariamente na França rural profunda. Por exemplo, num círculo de municípios localizados a 40 ou 50 km do centro de Paris, o candidato da FN às eleições regionais de 2015, Wallerand de Saint-Just, obteve 32% dos sufrágios. Nas circunscrições, a mais de 80 km de Paris, chegou aos 41%.
O isolamento favorece a FN. "Quanto mais longe viverem de uma estação de comboios, mais provável é as pessoas votarem na FN", explica Le Bras. A França dispõe de excelentes serviços públicos e, portanto, os seus cidadãos têm a expectativa de contar com serviços bons nas zonas onde vivem. Sentem-se abandonados, quando isso não acontece - quando um talho local fecha as portas ou um médico se vai embora das aldeias.
Nesses lugares, explica Jérôme Fourquet, diretor do polo Opinião e Estratégia Empresarial, do IFOP [instituto de sondagens], os eleitores partilham "uma sensação de abandono, uma impressão de serem desprezados por uma elite que não se interessa por eles".
Marine Le Pen explora essa sensação com habilidade. Envolvida na política desde criança e educada numa mansão num dos bairros periféricos chiques de Paris, consegue a façanha de falar em nome daqueles a quem chama os "esquecidos" do país, num registo que estes acham credível. O seu discurso convence porque usa uma linguagem simples e palavras de ordem antielitistas. (...)
Depois do fim dos Trinta Anos Gloriosos, as três décadas de forte crescimento que se seguiram à II Guerra Mundial, foi a dívida, mais do que o crescimento económico, a financiar os comboios de alta velocidade, os magníficos canteiros floridos das câmaras municipais e os generosos regimes de prestações sociais, segurança social, subsídios de desemprego e pensões de reforma que fizeram a glória do sector público francês.
Em França, a despesa pública absorve uma parcela do PIB [Produto Interno Bruto] superior à da Suécia e, desde 1974, nenhum Governo em Paris conseguiu equilibrar o Orçamento de Estado.
No entanto, é o desemprego que causa mais estragos. Em 2002, era pouco mais alto que na Alemanha. Agora, na outra margem do Reno está nos 4%, mas em França não baixa dos 10%, sendo que atinge os 25% entre os jovens com menos de 25 anos. Uma geração inteira de jovens franceses cresceu fora do famoso mercado de trabalho protegido do país. Nos EUA, os jovens com menos de 25 anos foram os que menos votaram em Trump, tal como no Reino Unido perante o "Brexit", mas os jovens franceses apoiam mais a FN do que qualquer outro partido.
A estes problemas económicos junta-se outra sensação a que o politólogo Laurent Bouvet chama "insegurança cultural". Três atentados terroristas de grande dimensão em 18 meses, em 2015 e 2016, minaram a confiança dos franceses. (...) Os receios legítimos suscitados pelo terrorismo fornecem terreno favorável a uma política identitária insidiosa. Enquanto primeiro país de acolhimento de minorias muçulmanas, a França é mais sensível aos mínimos indícios de extremismo religioso do que, por exemplo, a Itália ou a Espanha. Marine Le Pen não tem qualquer dificuldade em convencer os eleitores de que os valores franceses estão ameaçados. A líder da extrema-direita é bem-sucedida, não por o seu programa - que prevê uma diminuição da idade da reforma, uma taxa sobre os trabalhadores estrangeiros e um aumento vertiginoso das despesas militares - poder resolver a insegurança económica ou a ameaça terrorista (não é o caso) mas porque conjuga habilmente duas tendências do populismo: o discurso anti-imigração sobre valores e religião, muito escutado no Sul, e o discurso anti-mercado sobre o emprego e o sistema, que tem adesão no Norte.
O último ingrediente que torna especial o populismo francês é o euroceticismo. Invadida por três vezes pela Alemanha desde 1870, a França, atualmente na V República, tem uma história, longa e conturbada, de insegurança mesmo em tempo de paz. Após a II Guerra Mundial, a resposta da França foi a construção da Europa, um projeto através do qual procurava reaproximar-se da Alemanha e aumentar o seu próprio poder. Os franceses consideravam o sacrifício da soberania nacional um meio de reforçar, e não de enfraquecer, o seu Estado-nação.
A Europa continua a ser um pilar importante na identidade francesa, mas, em determinado momento, a paixão que outrora despertava diminuiu e o consenso que a sustentava desgastou-se. Segundo uma sondagem do Instituto Pew, a proporção de franceses favoráveis à Europa passou de 69%, em 2004, para 38%, em 2016. Isto significa que a UE é menos popular em França do que no Reino Unido, o que deu um novo argumento eleitoral à FN. Marine Le Pen apresenta o "Brexit" como um modelo de libertação daquilo a que chama "União Europeia Soviética". (...)
Ciclicamente, para se libertar do imobilismo, a França tem de passar pelas convulsões da mudança radical. A História demonstra que esses momentos de turbulência podem libertar forças de renovação tão espantosas quanto criativas, como promover um mergulho nas trevas.

The Economist, 02-03-2017, publicado pelo Courrier Internacional (edição Portuguesa), de Maio de 2017, pp.22-24. Tradução de Isabel Fernandes.

Sem comentários:

Enviar um comentário