terça-feira, 16 de maio de 2017

PRECISÃO


No último Domingo, em apreciação à peregrinação do Papa Francisco a Fátima, José Pacheco Pereira escrevia o seguinte no Público:


A meu ver, o problemático deste passo de Pacheco Pereira reside no uso da expressão "psicológico" (não digo "apenas reside no uso da expressão 'psicológico' ", porque considero que se trata não de uma imprecisão menor, mas de um aspecto nuclear no que concerne à interpretação teológica do fenómeno e à rigorosa descrição dessa hermenêutica). A utilização do termo "visões" - em Ratzinger, como em Carlos Azevedo, em uma linha que, aliás, remonta bem mais atrás, no séc.XX - pretende-se como o mais rigoroso/exigente/respeitador de Fátima (possível), mas, como se percebe, a partir deste excerto, requer, igualmente, uma grande sensibilidade/cuidado de uso (o seu potencial explicativo, de densidade e busca da inteligibilidade do fenómeno é tão elevado quanto, ao que se percebe, o risco de ser, ainda que involuntariamente, desvirtuado). Do que se trata, nas "visões", não é, propriamente, de uma dimensão psicológica - que me parece remeter exclusivamente para uma dada subjectividade -, mas, bem mais, para o espiritual e para a alteridade (o totalmente Outro). Do contacto com o "mais íntimo que o meu próprio íntimo e mais sublime que o ápice do meu ser" (Agostinho, Confissões). Halík adverte, com subtileza bastante, que querer fixar Deus ao "subjectivo", ou ao "objectivo" (em exclusivo) é colocá-lO sem abrigo. O amor está em mim, mas excede-me (e precede-me). O teólogo Jacinto Farias oferece-nos, neste contexto, uma elaboração que se me afigura muito conseguida e que merece a melhor recepção. A partir de José Eduardo Franco e Bruno Cardoso Reis, Fátima. Lugar sagrado global (2017, pp.244 e ss.) revisitemos este topos

Pensamos que, tanto para o caso das Aparições de Fátima, como para outros fenómenos similares considerados miraculosos, é mais plausível, do ponto de vista teológico, deslocar a percepção dos fundamentos da experiência sobrenatural para lá do plano da explicação ou não da mecânica material ou natural dos fenómenos, terreno próprio da ciência. Esses fundamentos deverão ser procurados numa outra dimensão que abre possibilidade de oferecer maior consistência e profundidade teológicas à fé na experiência sobrenatural inerente ao complexo processo das Aparições.
Numa outra esfera, na da interioridade que remete para a dimensão espiritual, que não a material, devem ser radicados os fundamentos da sobrenaturalidade, numa perspectiva de entendimento dos acontecimentos hierofânicos verificados em Fátima através daquilo a que podemos chamar a experiência de «toque de esferas», em que o sobrenatural toca o natural, utilizando a mecânica inabitual deste para suscitar uma experiência de carácter místico aos destinatários primeiros e, depois, aos transmissores da mensagem celeste.
É operatória, neste processo de compreensão, a «noção de mistério» estabelecida por Jacinto Farias para o entendimento teológico dos segredos de Fátima, mas que é da mesma forma significativamente operatória para a compreensão geral da experiência sobrenatural vivida no âmbito das Aparições. A noção de mistério permite apontar «para uma instância que se situa no fundo abissal do homem, na profundidade incomunicável das suas vivências, no sentido da liberdade, do amor, dos sentimentos que dizem o modo de relação do homem com o universo no qual habita» (Enciclopédia de Fátima, 2008, p.525).
Nesta linha, há que ter em conta que, segundo a teologia judaico-cristã, a experiência de Deus passa pelo mais fundo da interioridade do homem, tornando-se o mesmo Deus o mais íntimo do ser humano. A experiência antropológica de Deus é, portanto, aquilo que designamos, na esteira agostiniana, pelo conceito filosófico-teológico de «Íntimo Transcendente». (...)
Houve uma relação dialógica entre a abertura à revelação transcendente da parte dos Pastorinhos e os fenómenos extraordinários cósmico-naturais que se verificaram, sem dúvida, na Cova da Iria; relação dialógica que propiciou uma experiência de carácter místico acontecida na paisagem interior dos videntes. A partir desta experiência, que podemos autenticamente chamar de fé suscitada pelo acontecimento holomístico que se revestiu para eles de um carácter epifânico, aconteceu a inspiração divina, a mudança de olhar, como aliás pode significar teologicamente o conceito de milagre (em grego thaumatzõ, em latim miraculum), aquilo que permite olhar a realidade de maneira diferente, mais profunda, de forma maravilhada, captando-lhe o sentido e significados sobrenaturalizantes e transtemporais.
No quadro dessa experiência holomística, a tridimensionalidade do tempo cronológico (passado, presente e futuro) funde-se numa experiência/visão de tempo de tipo kairótico, em que a eternidade toca no tempo e permite uma visão para lá dos limites espácio-temporais em que a história humana normalmente se constrói. (...)
A mensagem [de Fátima] é passível de apelar para as fontes evangélicas. O conteúdo dela era fundamentalmente, depurando os revestimentos linguísticos da espiritualidade cordimariana epocal de um devocionismo reparacionista, de apelo à oração, à santidade e, na base, um desafio à conversão interior em ordem a uma vida de coerência com o Evangelho. (...) A mensagem apresenta-se intimamente como proposta-resposta ao contexto dramático de desesperança que no tempo se vivia por causa da guerra, das doenças e da crise económica, social e até política. Como bem reflectia o teólogo citado, Jacinto Farias, as Aparições podem ser mais adequadamente compreendidas no campo teológico do mistério. A pertinência cristã de Fátima será, por isso, mais bem entendida no «âmbito da experiência mística, de enriquecimento em Deus, de despojamento total de si, como forma de se encontrar, que é o ponto mais elevado da metafísica do amor: perder-se para se encontrar, esquecer-se de si, como condição para amar» (Enciclopédia de Fátima, 2008, p.525).
Deste modo, e como, aliás, já se pratica na exegese católica contemporânea para a matricial experiência da revelação bíblica, na hermenêutica das Aparições de Fátima podemos ver com olhar de fé a intervenção divina, para além de uma intervenção direta de carácter quase antropomórfico. (...) Joseph Ratzinger vai ao encontro desta perspectiva interiorista da compreensão do milagre: «Este ver interiormente não significa que se trate de fantasia, que seria apenas uma expressão da imaginação subjectiva. Significa, antes, que a alma recebe o toque suave de algo real, mas que está para além do sensível, tornando-a capaz de ver o não-sensível, o não visível aos sentidos, uma visão através dos 'sentidos internos' [...] A pessoa é levada para lá da pura exterioridade, onde é tocada pelas dimensões mais profundas da realidade que se lhe tornam visíveis".


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