terça-feira, 16 de maio de 2017

Tantos olhares


Essencialmente, de acordo com a análise de Paulo Rangel, hoje, no Público:

Há depois perplexidades que o derrame avassalador do frenesim mediático necessariamente levanta. A primeira é a de que tudo começa com o Papa Francisco, como se ele tivesse ditado uma ruptura ou antes dele se vivesse nas trevas do obscurantismo. Felizmente muitos lembraram (e eu também, em 2015) que há enorme continuidade entre Bento XVI e Francisco. Desde logo, na dessacralização do papado. Bento XVI publicou obras como teólogo enquanto Papa em funções, distinguindo a sua pessoa do múnus papal, e renunciou em 2013, retirando parte da carga transcendental desse múnus. Já Francisco, em nítida continuidade, assumiu-se desde o início como Bispo de Roma e desprendeu-se de mais uns tantos sinais majestáticos que ainda rodeavam o papado. Depois, é absolutamente bizarra a ideia de que, com Francisco, finalmente a Igreja Católica e o seu Papa se focam nos pobres e na condenação do capitalismo. Como pode criar-se esta impressão, quando a Rerum Novarum de Leão XIII vem do século XIX? E que dizer da constituição conciliar Gaudium et Spes e do seu destino universal de todos os bens? E da Populorum Progressio de Paulo VI ou da Laborem Exercens e da Centesimus Annus de João Paulo II? Acaso alguém se terá olvidado de que João Paulo II nunca deixou de condenar o capitalismo desenfreado ao lado do comunismo (apesar de, diz-se, ter sido instado por Reagan e Thatcher, sem sucesso, a não ser tão contundente com o capitalismo liberal)? Claro que cada Papa tem o seu carisma e sublinha, mais ou menos, certos aspectos do ensinamento cristão; mas o foco de Francisco na ecologia, sem ser novo, é claramente mais inovador do que o foco na pobreza.

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