terça-feira, 9 de maio de 2017

Um último escrito


Creio que o último (pequeno) ensaio que Zygmunt Bauman escreveu foi Sintomas em busca de um objecto e de um nome, presente na obra coletiva O grande retrocesso (Objectiva, 2017). É posterior a Retrotopia, que o autor cita neste breve documento, um livro ainda não traduzido para português. Pois bem, lembrei-me deste derradeiro escrito - construído muito em diálogo com o que, já em 1997, Umberto Eco postulara quanto às migrações para a Europa - ainda a propósito da Frente Nacional, no contexto das eleições (para já, presidenciais) francesas. É que Bauman é muito claro quanto ao seguinte: a xenofobia e o racismo, a intolerância para com o estrangeiro, ou até mais radical e rigorosamente, o diferente são prévios (e não construídos) à chagada do demagogo chauvinista que, portanto, não é a causa desses sentimentos/atitudes/posicionamentos. "Os demagogos fundamentalistas, integralistas, racistas e etnicamente chauvinistas podem, e precisam de, ser acusados de alimentar uma «intolerância rudimentar» pré-existente e de com ela lucrar, propagando, assim, as suas reverberações e exacerbando a sua morbidez - mas não podem ser acusados de causar o fenómeno da intolerância" (p.39).
Segundo ponto: se não são os políticos integralistas demagogos a causar tais reacções, onde podemos, então, descortinar "a origem e força motriz desse fenómeno?". A resposta, "a meu ver, será o medo perante o desconhecido - de que os «estranhos» ou «forasteiros» (por definição, insuficientemente conhecidos e praticamente imprevisíveis nas suas condutas e reacções face às nossas próprias jogadas) são o símbolo mais proeminente, o mais tangível, porque próximo e notório" (p.39).
Terceiro ponto e, creio, o mais desafiante, porque nos coloca de um ângulo raramente visitado, no discurso mais comumente observado, em estes contextos: a "forma mais perigosa"  de intolerância - Bauman louva-se, aqui, em Eco -  "é aquela que surge na ausência de uma doutrina". E porquê? Porque "é possível envolvermo-nos em polémicas munidos de uma doutrina articulada que rejeite as suas asseverações explícitas" (p.39). E que "asseverações" são estas? Responde Umberto Eco: a intolerância "chega antes de qualquer doutrina. Assim, a intolerância possui uma raíz biológica, manifesta-se no reino animal sob a forma de territorialidade, baseia-se em reacções emocionais que são, frequentemente, superficiais - não conseguimos suportar aqueles que são diferentes de nós, por a sua pele ser de outra cor; por falarem numa língua que não compreendemos; por comerem sapos, cães, macacos, porcos ou alho; por fazerem tatuagens... (...) as doutrinas da diferença não geram intolerância descontrolada - pelo contrário, exploram o já existente e difuso reservatório de intolerância" (p.38). Algo que, comenta Bauman, está "em consonância com a [opinião] de Fredrick Barth, o grande antropólogo norueguês, que insiste que as fronteiras não são traçadas por causa das diferenças percepcionadas e sim exatamente o oposto - as diferenças são percepcionadas ou inventadas porque as fronteiras já foram traçadas"(p.38/39).
Este terceiro ponto é especialmente controvertido na medida em que coloca, em realidade, movimentos muito pouco aconselháveis na pele de, paradoxalmente, e a par da propagação e exacerbamento dos piores sentimentos (é certo), doutrinando, funcionarem, nesta teorização, como potenciais "drenadores" de uma reação não articulada e ainda mais primária face ao outro; porque ao falar-se de "raíz biológica da intolerância" se entra, porventura, em terreno escorregadio que remete para o tipo de correlações entre biologia e cultura e se questiona a intolerância enquanto "mero" constructo (social/ideológico), bem como desafia as concepções mais (ou unilateralmente) pessimistas relativas às (mesmo as piores) ideologias, ou ao quão determinantes estas (ou, p.ex. a propaganda) são (no comportamento pessoal e político de tantos cidadãos).
Para Zygmunt Bauman, o futuro já não é depósito de esperanças, mas antes de medos, ansiedades e preocupações - "perante a crescente escassez de empregos, o decréscimo de rendimentos que reduz as oportunidades nas nossas vidas e nas dos nossos filhos, a ainda maior fragilidade da nossa posição social e a efemeridade das nossas conquistas, o gradual alargamento do fosso entre as ferramentas, os recursos e as capacidades à nossa disposição e a enormidade dos desafios com que nos deparamos .(...) até há relativamente pouco tempo, a ideia do futuro era associada a mais conforto e menos inconveniência, mas presentemente aquilo que mais nos faz evocar é a terrível ameaça de sermos apontados ou rotulados como sendo incapazes ou desadequados para o desempenho de uma tarefa, sendo-nos negado valor e dignidade, e, por esse motivo, sermos vaticinados à marginalização, exclusão e expulsão" (p.35). Outra nota fundamental é a de que a diversidade cultural veio para ficar, não é uma "irritação temporária"; não iremos retomar, brevemente, à homogeneidade cultural. Propõe, conceptualmente, "diasporização", em vez de "multiculturalidade", "para evitar qualquer confusão entre a situação vigente e as medidas políticas com vista a enfrentá-la": estamos, agora, perante um cenário "muito mais sujeito a processos e influências por parte das massas do que dependente da regulação vinda de cima e na qual a interacção entre diásporas assenta mais na divisão da mão-de-obra do que numa amálgama de culturas" (p.37).
Independentemente da nossa vontade, "enquanto habitantes das cidades damos por nós numa situação que nos obriga a desenvolver a capacidade de viver diariamente com a diferença, e, o que é o mais provável, a título permanente. Ao fim de dois séculos a sonhar com a assimilação cultural (unilateral) ou com a convergência cultural (bilateral), e as práticas daí decorrentes, começar a encarar - ainda que, em muitos casos, com alguma relutância, e, frequentemente, com uma total resistência - a perspectiva de uma combinação de interacção e fricção entre a multiplicidade de identidades irredutivelmente diversas que as diásporas próximas e/ou culturalmente mistas envolvem. A heterogeneidade cultural está, rapidamente, a tornar-se uma característica inevitável, até mesmo endémica, do modo de vida urbano no que à coabitação humana diz respeito, mas chegar a esta conclusão não é fácil e a primeira reacção é a negação - ou rejeição demarcada, enfática e belicosa" (p.38). E, neste contexto, um dos maiores problemas do nosso tempo "é a perturbante contradição entre o nosso já-quase-que-flagelo cosmopolita e a total falta de consciencialização, mentalidade ou atitude cosmopolita (...) Por «flagelo cosmopolita», [Ulrich] Beck referia-se à avançada, já a uma escala planetária, interdependência material e espiritual da Humanidade, commumente conhecida como globalização. Entre esse flagelo e a nossa capacidade de ajustarmos as nossas acções às exigências sem precedentes desse mesmo flagelo, cresce um grande fosso, até agora intransponível" (p.40). Ainda e sempre a inexistência de uma (suficiente) governação (ou governança) da globalização.
As últimas palavras de Bauman vão para o Papa Francisco, "possivelmente a única figura pública relevante a nível mundial a ter a coragem e a determinação de analisar em profundidade as origens dos males, da confusão e da impotência a que assistimos na actualidade e de as dar a conhecer" (p.47).

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