segunda-feira, 1 de maio de 2017

VER E REVER


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Neste 1º de Maio, a ver o DVD de "I, Daniel Blake", de Ken Loach. Um tributo inolvidável a uma geração que sabia (sabe) fazer (de) tudo (e que, mais importante, da vida sabia tudo, como demonstra a atitude de Daniel para com a família desenraizada e cheia de dificuldades que aportou a Newcastle, vinda de Londres), mas foi apanhada na curva da grande recessão, e caída nas malhas da infoexclusão, é tratada com um desprezo aviltante. Desde o início do filme, o torvelinho minucioso de uma burocracia montada para humilhar e tirar do sistema de protecção social tantos quantos possível, gera no espectador a sensação de claustrofobia, numa impotência que conduz à morte, mau grado o lutador, o carpinteiro habilidoso (calejado no duro: "foi militar? Não, mais perigoso: carpinteiro"; de resto, Daniel surgirá como um "pai" para os miúdos do bairro onde vive, ou para os filhos da família monoparental com que se depara num centro de emprego) que tem uma insuficiência cardíaca - mas o sistema chuta-o sucessivamente para canto, telefonemas que demoram horas a ser atendidos, ao som das quatro estações, relativamente ao pedido de pensão de invalidez; um sistema que já não está, apenas, dependente do Estado, na medida em que algumas das suas funções foram passadas para agências privadas e Daniel, impedido por médicos a sério de trabalhar, é dado como apto por outros profissionais desta agência, cuja maximização de receitas, pela diminuição dos que beneficiam de prestações sociais se entrevê no que fica latente -, auxiliara a mulher gravemente doente durante anos até ao desaparecimento desta, que dá título ao filme se rebelar, até ao último instante, contra o tratamento como número da segurança social. Poucos filmes serão capazes de ilustrar com tal perfeição o dia-a-dia de quem desespera entre centros de emprego, carimbos para provar que se procura um emprego, workshops de yuppies que transmitem a mesma cartilha empreendedora, "a disponibilidade total que os empregadores procuram", num tempo em que os empregos mirraram. Poucos filmes exemplificarão, com igual perfeição, como não se trata, aqui, apenas, de questões éticas, de moral, mas de um sistema económico-social que não deixa espaço para que os seus servidores na administração esbocem qualquer espécie de solidariedade humana, e tudo se resuma a uma voz off, robotizada (exemplar o início do filme, sem imagem, com uma voz que poderia ter sido gravada e milhões de vezes rebobinada), destinada a destruir todas as defesas possíveis de cada pessoa (perante a qual se parte numa posição de desconfiança, como se só houvesse párias sociais). De Daniel Blake, fica uma imensa luta pela dignidade - sua e dos seus semelhantes -, num código já pouco inteligível pelos seus concidadãos, mas um amor que, ainda assim, interpelará e moverá o mundo (apenas entre os que sentem e passam por iguais dificuldades parece restar o reconhecimento do rosto alheio; a mãe solteira que fora mandada embora de Londres para Newcastle não apenas passa fome, não só vai ter que pedir ajuda ao Banco Alimentar, numa cena impressiva do que é o sentimento de perda de dignidade, como a ajuda prometida por um segurança de um minimercado onde roubara, suprema vergonha, alguns bens, é, advinha-se de imediato e confirmar-se-á de seguida, a prostituição. Pelo filme, perpassa este amor maior do que qualquer coisa que se possa pensar, mas também o emprego precário e mal pago - o que suscita os biscates e os ganchos, made in China -, os bancos alimentares à pinha, o tempo dos formulários online, dos smartphones que provem a busca incessante de emprego, dos supervisores que estão prontos a disciplinar, com sanções (estamos sempre a ouvir e ver falar de sanções ao longo do filme), os que procuram qualquer subsídio, uma administração com cara de pau, sem sentimentalismos, nem lamechices, apenas com um moralismo e uma soberba que destroem o outro, para fazer o que tem de ser feito, aquilo que é racional (a racionalidade destes nossos dias gélidos) que está ali para seguir os procedimentos sem estados de espírito ou pensamento (Todorov explicado a todos). Até o funeral de Daniel, que faz pichagem na parede do centro de emprego com o seu nome para reivindicar a sua individualidade, a sua existência - frente à diária banalidade do mal -  e que prometera nunca desistir, acontece às 9h da manhã, por ser o horário mais barato (na sociedade de mercado).

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