sábado, 24 de junho de 2017

Angústia, nervos, aborrecimento


Na sala que me calhou vigiar, dos 16 alunos do Secundário que fizeram o exame,15 esgotaram o tempo de tolerância. Olhando os rostos em volta, percebe-se o sofrimento: 3 adolescentes vão roendo as unhas, ao longo da prova. Uma, fala, abundantemente, ainda que não em voz alta, claro, consigo (mesma) e gesticula incessantemente. Repito uma observação dos últimos anos: todos (os examinados) trazem ténis calçados, a informalidade é predominante no traje. Longe do fato e gravata de há 60 anos,menos formalidade, ainda, do que os sapatos de há 16: ali se espelha uma sociedade mais horizontal. Só uma aluna sai mais cedo, escreveu apenas em duas páginas, passou o tempo a olhar para o tecto e a fazer desenhos (na folha de rascunho), seguramente não estava preparada (para a prova). Os nervos apertam: 4 alunos têm que rasurar o número de páginas, que registaram mal. É preciso que eles, "vigiados", e nós, "vigilantes", assinemos no verso da folha (a correcção, entretanto, produzida). A cada dúvida, chama-se o Secretariado: "estou ainda mais nervosa do que eles", sussurra-me, com um sorriso, a parceira de vigilância. Às 8h30 da manhã estão 29 graus na cidade. A sala está muito abafada. Faltam dois dos inscritos. Entregamos as folhas de prova e uma aluno agita, de imediato, ansiosamente, a perna, sem parar. Lembro-me dos que ali não estando, permanecem-me colados à pele (dos afectos): estarão a resistir a esses minutos de ansiedade, antes, mesmo, da prova se iniciar? Número de páginas utilizadas, nesta sala, variam entre 6 e 11,verifico no fim. Angústia e nervos para alunos; 2h30 sem um livro ou jornal para ler para vigilantes (imagino que há uns 16 anos não era exatamente assim; diz-me uma colega: "antigamente, saíamos para tomar o pequeno almoço, demorávamos, estávamos com a calma toda..."). A professora que me acompanha vai até ao fim da sala,aproveitando um mapa mundi, literalmente do tempo da guerra, que por ali está,aliviando, por instantes,a aridez do momento. Penso no que vivi na mesma altura que aqueles que agora passam pelo exame, e procuro evitar andar, constantemente, de um lado para o outro da sala, fazendo barulho e desconcentrando, ou, então, precipitar-me sobre cada cadeira em termos inquisitivos e intimidatório: não acho que alguém vá copiar. Recordo a pena, no Secundário, ordem alfabética dixit, de não estar a turma toda (reunida); seria um combate com os amigos de sempre; mas, ao fim de alguns instantes, verdade se diga, o foco é tal, acho, que somos todos aquela menina muito compenetrada que fala sozinha e gesticula. Durante 150 minutos,o mundo cabe numa sala de aula. 
Agora é tempo de uma boa descarga de tensão, um suspirar e esvaziar, antes de um novo encher de motivação e transpiração para o exame de Biologia. 

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