quinta-feira, 29 de junho de 2017

Anjos (II)


Para Renzo Lavatori, "importa concluir que a existência dos seres celestes é um dado doutrinal inalienável e revela uma realidade inserida na visão geral do universo como elemento constitutivo da sua ordem hierárquica e da sua harmonia" (p.31). O anjo tem um lugar próprio no interior de uma concepção cristã do cosmos: "não se pode confundir com Deus ou com o homem; simples e totalmente, é ele próprio, uma criatura espiritual, não uma emanação da divindade ou uma sublimação da humanidade, como um ser misto de qualidades divinas e humanas. É ele, sem mais, com as suas características pessoais que o distinguem e, ao mesmo tempo, o ligam ao mundo divino, humano e cósmico, de modo a formar uma espécie de balança entre os dois mundos para evitar, por um lado, toda a mescla e, por outro, toda a tentativa de separação e de contraposição" (pp.31-32).
Se o "Concílio Vaticano II, empenhado sobretudo em redescobrir a natureza da Igreja e a sua missão no mundo contemporâneo, não se ocupou diretamente da temática dos anjos" (p.15), falando deles apenas em "três contextos: eclesiológico, porquanto os anjos fazem parte da Igreja celeste e são venerados pelos cristãos juntamente com a Virgem Maria, os Apóstolos e os Mártires, formando com eles uma comunidade espiritual (LG 50); escatológico, recordando que no fim dos tempos o Senhor virá na glória com os seus anjos (LG 49); mariológico, onde se afirma que a Mãe de Deus foi exaltada acima de todos os bem-aventurados e dos anjos (LG 69)", já o IV Concílio de Latrão, de 1215, "assinala uma etapa de capital importância na história da angeologia e da demonologia" (p.45). O Concílio declara a) a realidade criatural dos anjos; b) a sua natureza originariamente boa; c) a sua realidade imaterial, embora não afirmada de forma directa; d) a origem do mal a partir da livre escolha e decisão do diabo e do homem.
Lavatori assinalara a concepção filosófico-teológica dos anjos: nela, estes são "considerados sobretudo no seu modo específico de ser, na sua realidade entitativa, no laço que os une, por um lado, ao Ser divino, como as suas criaturas e ministros e, por outro, ao mundo criado, como guardiães, protetores e ordenadores. São seres criados, não divinos, puramente espirituais e superiores ao homem; foram postos ao serviço de Deus e do homem para ligar estes dois mundos assaz longínquos, afastados um do outro e, por vezes, contrapostos, mas também reciprocamente referidos, de modo a cooperar no ordenamento universal" (pp.5-6)
Hoje, "os anjos tornaram-se também moda, a todos os níveis e em todas as formas; um fenómeno de proporções mundiais (da América ao Japão). Mas nem sempre se consegue determinar a sua consistência ou a sua figura; muitas vezes, não se vislumbra se eles são fruto de imaginações ou se correspondem a seres reais" (p.10).
John Henry Newman foi um dos cultores da angeologia.

[a partir de O anjo. Um feixe de luz sobre o mundo, Paulinas, 2017, pp.5-48]

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