quarta-feira, 28 de junho de 2017

Anjos

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Até ao Concílio  Vaticano II (1962-65), a existência dos anjos, como sujeitos reais, era não problemática, admitida pacificamente fosse entre crentes, fosse entre estudiosos da teologia. A crítica vinda do campo protestante, ainda nos finais do séc.XIX, ao sobrenatural na religião cristã, viria a fazer-se sentir, posteriormente, no campo católico (para o teólogo luterano Rudolf Bultmann, "os anjos são apenas o resíduo de uma mentalidade supersticiosa pré-científica e, como tais, definitivamente eliminados", p.18). Ainda assim, nem no interior do pensamento teológico protestante a unanimidade se impôs, com Karl Barth a afirmar a existência de anjos e demónios ("claramente atestada pela Escritura"). Para Barth, dos anjos "podem reconhecer-se apenas as suas acções na história, porque eles estão totalmente ao serviço de Deus e o seu ser constitui-se em tal serviço, não na pertença a uma categoria ou ordem ontológica; mais ainda, eles, de algum modo, desaparecem diluindo-se na função (...) Eles estão sobretudo implicados na acção que Deus desenvolve a favor do homem, e nela estão sempre presentes, mesmo se o homem de tal não se dê conta. Recebem para esse fim missões com autoridade e poder da parte de Deus. Barth, aqui de acordo com toda a tradição, afirma que os anjos são criaturas, «indivíduos de essência celeste», não emanações de Deus, ideias ou formas de Deus. Não é possível, porém, saber se são pessoas ou sujeitos, porque os anjos não estão perante Deus em «subsistência própria», como os homens. Barth (...) nega-lhes o livre-arbítrio (...) A liberdade criatural dos anjos é idêntica à sua obediência, porque o seu ser coincide com o seu agir" (p.19-20). 
Para Tillich e Ricoeur, diferentemente, enquadram os anjos em perspectiva simbólica. Para o primeiro dos autores, "os anjos e os demónios (...) hão-de entender [-se] como realmente existentes, mas não como seres autónomos, antes como símbolos poético-históricos do bem e do mal presentes no ser e na estrutura do mundo. O segundo dos pensadores "interpreta o diabo como figura simbólica do mal que cada ser humano introduz no mundo com a sua opção pelo pecado; Satanás representa a presença negativa sempre atual para a humanidade, que disso é consciente e responsável. Outros estudiosos sustentam que os dados bíblicos a propósito dos anjos e dos demónios se devem olhar como representações figurativas respectivamente do amor - Deus que vem ao encontro do homem para o salvar - e da força do pecado - que habita nele e o impele ao mal (p.20-21).
Alguns teólogos católicos de influência bultmaniana rejeitam totalmente a realidade dos anjos e dos demónios, sobretudo do Diabo, chegando a esta afirmação peremptória: «Com a crença no diabo lidamos, em última análise, com algo de pagão e, portanto, de profundamente anticristão» [é a posição de H. Haag, M. Limbeck, K. Elliger e B. Lang, bem como H. Kung ou J. Quinlan]
Para P. Schoonenberg, não é possível demonstrar, "a partir dos documentos bíblicos e magesteriais, que a existência de anjos e diabos seja uma implicação substancial da mensagem revelada nem se pode demonstrar, racional ou cientificamente, a sua existência. 
Em jeito de balanço quanto ao estado da arte, Renzo Lavatori assinala que "a atitude actual da maior parte dos teólogos católicos é a de uma consciência das exigências críticas, que são estudadas e examinadas para repropor a validade substancial da doutrina sobre os anjos": "eles [como M. Seeman] recuperam o significado a dar aos espíritos celestes na perspectiva soteriológica, onde ocupam um lugar relevante, porquanto actuam na economia salvífica realizada em Cristo (...); outros apoiam-se e insistem em sublinhar a sua incidência antropológica, porque oferecem valores essenciais para reencontrar a verdadeira identidade do sujeito humano; outros ainda [como J.Auer] dirigem o olhar para a universalidade do cosmo, visto que no seu desenvolvimento e nos seus movimentos, onde a obra angélica presta ajuda para usar os recursos naturais com sapiente estruturação e no seio de uma visão integral.
Seja como for, dos anjos fala-se "não só no ambiente de tradição cristã, mas em todas as expressões religiosas, quer antigas quer actuais, nas várias literaturas, nas representações artísticas, nas produções cinematográficas e audiovisuais e sob outros múltiplos aspectos" (p.10)

[a partir de Renzo Lavatori, O anjo. Um feixe de luz sobre o mundo, Paulinas, 2017, pp.5-28]

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